• Paulo Vinicius

Resenha: "Afrofuturismo - O Futuro é Nosso vol. 1" organizado por Alexandre Diniz e outros

Atualizado: Jun 4

Nesta coletânea afrofuturista temos histórias sobre viagem no tempo, sobre mundos tomados por máquinas ou até caçadores de recompensas atrás de estranhas criaturas sobrenaturais. Um prato cheio para quem gosta de ótimo scifi calcado em raízes africanas.


A imagem de uma espécie de templo egípcio dourado com vários elementos tecnológicos e uma caravela de ponta a cabeça. No canto direito tem uma cabeça de uma mulher africana de perfil com um black verde e um tipo de esteira que leva até o seu cérebro. Ela tem uma rosa colocada atrás da orelha. O fundo tem um céu azulado com nuvens e uma lua. Abaixo tem um fundo preto com linguagens de programação. A ponta do tempo tem um cano de arma apontando uma luz para fora da imagem.

Sinopse:


O que é afrofuturismo? Um movimento estético? Artístico, político, musical? Escritores e escritoras negras produzem literatura fantástica e especulativa?

Ana Meira, Lucimara Penaforte, Alec Silva, Fernando Gonzaga, Felipe Augusto, Fabrício Flor e Alisson Matheus respondem à estas e outras questões nesta antologia afrofuturista.


Os futuros possíveis, tecnológicos, distópicos, pós apocalípticos, em outras dimensões ou em viagens interestelares apresentadas aqui, em diversas narrativas e estilos, evidenciam uma vocação para o fantástico ainda pouco valorizada na literatura negra. O exercício de projetar o futuro por meio da ciência, tecnologia, da arte e por personagens que nos representem não pode ser mais negada a nós, afinal:

O FUTURO É NOSSO!





1 - "Blacklooping: A (Re)Volta do Presente"


Ficha Técnica:


Autor: Felipe Augusto Avaliação:




Este é um mundo onde a viagem no tempo é possível. Graças a várias mudanças geopolíticas, Nova Ethyopia é o centro de tudo. Pessoas comuns podem fazer desde viagens no tempo longas até loopings curtos. E isso fornece inúmeras estranhas possibilidades que o autor aborda em sua narrativa. Mas, o ponto principal é a viagem de Sueli que está louca para conhecer Luisa Mahin no século XIX. Sua mãe, Maria, lhe passa as últimas instruções sobre o que uma viajante do tempo não pode fazer. Uma história que parece simples e o autor vai nos guiando de forma até meio descritiva contando algumas possibilidades bem bizarras sobre a viagem no tempo em seu universo ficcional. Até que ele faz o plot twist no final. E é algo que vem tão de repente que a gente não espera quando finalmente acontece. Meu porém fica no fato de que ao invés de ele apontar possibilidades bizarras sobre viagem no tempo, ele poderia ter explorado mais a dinâmica de família. Se a ideia era fazer um red herring, ou seja, desviar o foco do leitor enquanto ele preparava uma virada narrativa, o ideal é sempre explorar personagens. Mas, eu gostei bastante da escrita e do ritmo empregado pelo autor.


2 - "A Peixeira e a Esfinge"


Ficha Técnica:


Autor: Alec Silva Avaliação:




Um caçador de recompensas é contratado por um coronel para se livrar de uma hiercosfinge, um ser místico que tem atacado a mansão do coronel. O objetivo do ser místico parece ser pegar os objetos que o coronel andou pegando, já que este é um colecionador de raridades. O meu problema com este conto é que ele se passa em uma cena. Não consegui sequer me envolver com os personagens ou com a narrativa em si. Quando me dei conta, a história tinha chegado ao final. Até elogio o autor porque ele tem uma boa pegada de ação e sabe descrever bem as cenas de ação e criar um personagem redondinho. O formato conto é que não foi feliz para a sua narrativa. Para a história ter funcionado, ela precisava ser mais longa. Isso prejudicou tanto a construção de personagens que não deu tempo para ficar sólida quanto o ritmo da narrativa que foi quebrado quando chegou a seu clímax.


Pelo pouco que deu para entender do que o autor colocou na história parece que ele tem ideias para um mundo sobrenatural próprio, usando criaturas místicas mesclado a uma noção de Brasil interiorano. Ele deu ganchos disso na narrativa. Quero ver mais disso, mas não nesse formato conto. Preciso de algo mais espraiado para ver as coisas acontecendo até porque a forma de escrita do Alec me parece ser a de um narrador de cenas de ação. Com mais páginas, aí sim a escrita dele deve brilhar com certeza.


3 - "O Caderno de Evee"


Ficha Técnica:


Autor: Alisson Matheus Avaliação:




Criar um futuro distópico não é algo tão simples quanto parece. Diante de tantas histórias que usaram do mesmo tema, ser inovador se torna difícil e exige criatividade do autor. Alisson cria um mundo dominado pelas Inteligências Artificiais onde o homem perdeu o controle sobre sua própria criação. As IAs se rebelaram e passaram a separar os seres humanos em castas. Os trabalhadores passaram a ser alvo de experiências genéticas e perderam muito de sua capacidade do livre pensar. Diante de tanta falta de esperança, desistiram de resistir. Em uma falha do sistema, uma menina chamada Eevee acaba sendo criada nas castas mais altas até o momento em que consegue fugir de onde ela se encontra. Então ela passa a viver livre em um mundo marcado pela opressão.


A ambientação do Alisson, desesperançosa e melancólica, me lembrou um pouco o de A Estrada, do Cormac McCarthy. As batidas são semelhantes. Eevee sai em uma exploração por esse mundo estranho e sem vida onde as pessoas são cinzentas e apenas sobrevivem. Ela se relaciona com o mundo quase como uma outsider e aos poucos vamos entendendo que ela não deseja se envolver porque ela teme se tornar como essas pessoas. O autor faz um bom crescendo de tensão e no final tem uma ótima virada narrativa que eu não estava esperando. Faltou só um algo mais que eu senti que faltou.


Uma mulher negra do pescoço para cima usando um tipo de cabelo estilizado na cor preta com amarelo. Ela usa um protetor de garganta verde e brincos verdes. O fundo é azulado.

4 - "A Guerreira Nabliahh: Conquistando a Galáxia Mater Constructer"


Ficha Técnica:


Autor: Fernando Gonzaga Avaliação:




Essa vai ser a avaliação mais esquisita que eu fiz dentre os cinco contos. E eu reli esse conto umas quatro vezes para ver se eu entendia a premissa. Já de antemão peço desculpas ao autor, mas eu não entendi aonde ele quis chegar com o conto e sequer qual é a narrativa. Vou tentar resumir. O que eu entendi é que são duas civilizações no espaço, uma aparentemente sucessora dos povos africanos, altamente tecnológica e sociologicamente avançada e outra descendente dos povos vikings, mantendo parte de suas tradições. Ambos estão em uma rota de colisão. E é isso.


O que eu acho que aconteceu foi que o autor teve várias boas ideias (e eu senti conceitos meio Jogador Nº1 e coisas típicas de space opera), mas o conto era muito curto e não acomodou todas as ideias de uma forma lógica. Isso é algo que eu sempre aconselho aos autores que se debruçam sobre histórias curtas: menos é mais. Se você tem várias boas ideias, pegue apenas uma delas e desenvolva-a muito bem. O medo de usar vários conceitos é você esbarrar nas limitações literárias do gênero conto. Não adianta abraçar o mundo nesse caso. Já vi vários contos cujos conceitos são extremamente simplórios e receberam inúmeras premiações. Contos do tipo Fulano sai da cidade A para ir até a cidade B e encontra um obstáculo no caminho. Só isso. Não é a quantidade de ideias ou de plots que vão definir se um conto é bom ou não, mas o desenvolvimento dos mesmos. É o miolo que importa. O resto é decoração.


5 - "Tempestade"


Ficha Técnica:


Autora: Ana Meira Avaliação:




Como acontece em quase todas as coletâneas de contos que eu leio, sempre tem aquele conto que me encanta. Aquele em que eu leio abrindo um sorriso de orelha a orelha. Esse foi o caso. E eu gostei do conto não porque ele tem desenhos ou porque ele foi escrito com letras azuis, antes de mais nada. Nada tão simplório assim. Na narrativa, vemos uma personagem com dificuldades para terminar sua partitura para uma sinfonia. Um vento forte bate em um instante e derruba seus papeis no chão. Uma estranha mulher pega os papeis e avisa à protagonista para tomar cuidado com a tempestade que está chegando. Até aí tudo bem... só tem um problema: na cidade de Bergen não chove há duzentos anos.


Ana Meira usa um estilo de escrita que eu simplesmente adoro: a escrita sensorial. É uma ferramenta de escrita que emprega um dos sentidos do leitor (que não o simples ato de ler palavras) para contar uma história. O sentido que ela usa é o da audição. O tempo todo ela usa expressões que denotam música ou sonoridade. As frases possuem ritmo e cadência. O que a autora fez nesse conto não é algo simples... precisa de horas de trabalho e revisão para entender como encaixar palavras e como elas fazem sentido dentro de um espectro de parágrafos. Mais para o final a gente consegue ouvir o som de gotas de chuva caindo quando a personagem se encontra sozinha em seu apartamento tal é o poder das frases colocadas pela autora. Fiquei sinceramente impressionado.



Capa de Afrofuturismo - O Futuro é Nosso vol. 1

Ficha Técnica:


Nome: Afrofuturismo - O Futuro é Nosso vol. 1

Organizado por Alexandre Diniz, Aisameque Nguengue e Israel Neto

Editora: Kitembo Edições Literárias do Futuro

Número de Páginas: 108

Ano de Publicação: 2020


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Assinatura Paulo Vinicius - Frase: "Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o começo de outra."