• Paulo Vinicius

Resenha: "A Máquina Sonha Deus" (Requiem vol. 3) de Lidia Zuin

Depois de seus estranhos apagões, Lynx sai em busca da origem de seu novo implante cibernético. Só que ela acaba conhecendo três irmãs que foram colocadas para atender a todos os seus desejos. Mas, as coisas não batem. Qual é o objetivo?

Atenção: tem spoilers!



Sinopse:


Terceira parte da série cyberpunk REQU13M, da autora Lidia Zuin, "A máquina sonha Deus". Os recentes acontecimentos destruíram a confiança de Lynx no mundo ao seu redor. Os mistérios atingem níveis mais profundos do que é capaz de lidar, mas não vai desistir tão facilmente. Mesmo a hospitalidade das irmãs Raga, Arati e Pali, repleta de prazeres e alienação, não é capaz de mantê-la fora das ruas por muito tempo. Decidida a retomar as investigações, Lynx descobre novas conexões entre os eventos que tumultuaram sua vida. E isso pode ser o seu fim.





O que falar dessa série? Fiquei com sentimentos um pouco divididos em relação a ela. Por um lado, a história é sensacional. Quem vai pegar achando que se trata de um cyberpunk comum, vai cair do cavalo. A Lídia tem uma escrita bastante precisa e sabia o que queria desde o primeiro volume. Apesar da ambientação trazer aquele toque meio Blade Runner, meio Neuromancer, analisando os três como um conjunto é possível dizer que Requiem é uma narrativa da Lidia Zuin. Ela pegou referências de vários lugares, mas o mundo e as ideias que ela criou são inteiramente dela. A gente pode argumentar (como eu vou fazer) sobre algumas escolhas não terem sido tão legais quanto outras. Mas, que diacho de mulher criativa!! Devorei a trilogia dela. Algo que eu não costumo fazer; prefiro esperar um tempo antes de continuar uma série. Mas, com essa aqui não deu.


Nossa protagonista Lynx continua de onde ela parou no volume anterior. Moha foi morto e não lhe deu respostas sobre que implante é esse que ele colocou em sua cabeça. Para piorar, ela começa a ter alguns apagões súbitos e duvida de sua capacidade de compreender o mundo ao seu redor. A incapacidade de saber se o que ela está vendo e vivenciando é uma simulação ou é a realidade abala as suas certezas. Com toda essa dúvida, ela retorna ao hospital onde ela passou pela operação e encontra Raga. Raga e suas irmãs, Arati e Pali foram enviadas por alguém para atender a todos os desejos de Lynx. O que no começo parece ser algo incrível, logo se torna uma inércia enorme que ela não consegue suportar. Essa instabilidade da personagem a colocará de novo em um caminho estranho e perigoso que envolvem preceitos budistas como o abandono do mundo material. E agora? Por onde seguir? O que se esconde atrás de um véu de mentiras e falsidades?


Essa é uma narrativa profunda que envolve nossa própria capacidade de entender o mundo que nos rodeia. Lidia mescla a percepção da protagonista com a do próprio leitor. Afinal de contas, esse mundo é apenas uma mera ilusão criada pelo nosso olhar. Cada existência é uma individualidade por si só. Ao nos apegarmos à materialidade do mundo, somos incapazes de perceber o quanto tudo é efêmero e fugaz. Os preceitos que levam ao nirvana nos são mostrados aos poucos pela jornada vivida pela própria heroína. E se pararmos para pensar um pouco, por que Lidia dividiu sua série em três partes? A própria divisão representa a mensagem que ela quer nos passar. Enquanto a personagem permaneceu passiva diante do que lhe acontecia, ela sentia que algo estava faltando. Por isso a inquietude. E isso se espelha em muitos de nós. Quando nos queixamos de que falta algo em nossas vidas, passamos por esse mesmo processo de questionamento. Claro que vai caber a cada um de nós nos libertarmos de nossas amarras e buscarmos algo que transcende a nossa compreensão.


A escrita da Lidia continua muito boa, apesar de que eu achei este terceiro volume muito carregado de informações. A autora podia ter diluído melhor essa carga entre o segundo e o terceiro volumes. De vez em quando eu precisei voltar para entender melhor algum conceito ou ideia que ela colocava. Até mesmo pegar o primeiro ou o segundo volume para conferir informações. Isso prejudica a leitura mais fluida do material. Entendo que ao chegar neste último volume a autora não se preocupou muito em tirar o pé do acelerador, mas em determinados momentos ela poderia ter pego mais leve. Ou até aumentar um pouco a quantidade de páginas de forma a tornar a compreensão mais amigável. Senti também alguns buracos de informação, principalmente no que diz respeito à relação da Lynx com os rivetheads. Não sei se essa é uma narrativa que a autora vai retomar em algum momento, mas essa parte da vida da Lynx está repleta de lacunas. No mais, é uma trilogia que eu só tenho a recomendar. Gosto da forma como a autora ambientou sua série, as ideias propostas e até a personagem é interessante. Faltou alguma coisa aqui ou ali, mas é normal.










Ficha Técnica:


Nome: A Máquina Sonha Deus

Autora: Lidia Zuin

Série: Requiem vol. 3

Editora: Draco

Número de Páginas: 48

Ano de Publicação: 2014


Avaliação:


Outros Volumes:

Deus Sonha o Homem (vol. 1)

Dies Irae (vol. 1,5)

O Homem Sonha a Máquina (vol. 2)







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