• Paulo Vinicius

Resenha: "A Infância do Brasil" de José Aguiar

Em uma série de pequenas cenas, José Aguiar nos mostra como a sociedade brasileira se formou desde a chegada dos portugueses. Será que o Brasil mudou muito ao longo desse tempo ou continuamos com os mesmos vícios de outrora?



Sinopse:


Em A Infância do Brasil, o premiado quadrinista José Aguiar lança seu olhar sobre a História do Brasil não pela perspectiva dos grandes eventos, mas pela das pessoas comuns, pelo viés da infância.


Nela o autor atravessa nossa história cheia de contradições, abusos, descaso, abandono, entre outras situações que insistem em não ficar para trás. A Infância do Brasil é sobre refletir o presente a partir do nosso passado para, quem sabe, projetarmos um futuro melhor.





É muito legal podermos falar sobre alguma HQ que transcende o seu status de mera diversão e entretenimento e de alguma forma alcança outros públicos. Mais do que isso se torna praticamente uma literatura de entrada, podendo ser tranquilamente usada em escolas e demais instituições de ensino. Esse é o caso de A Infância do Brasil, uma webcomic criada por José de Aguiar e que recebeu uma edição física pelas mãos da Avec Editora, que sabiamente percebeu o potencial da publicação. O resultado final é uma HQ que vai tratar de quinhentos anos de história do Brasil e possibilidades e reflexões para o futuro.


O roteiro segue um esquema de sketches, em que cada capítulo compõe uma cena que vai tratar de algum tema específico. Cada capítulo se passa em um século diferente da colonização portuguesa até chegarmos ao século XXI. Não se prenda muito a personagens porque esta não é a ideia da HQ. Se formos entendê-la detidamente, o autor apresenta um tema (exploração dos índios, aculturação, desigualdade social, a cultura do materialismo) e a partir daí ele cria uma narrativa com dois lados opostos. Dentro dessa contradição/dicotomia o autor vai tentar nos mostrar o que mudou e o que se manteve ao longo da história do Brasil. Em alguns capítulos vamos ver uma narrativa mais visual sem muitos balões de diálogo enquanto em outras temos extensos textos para abordar o tema de uma maneira compreensível. Não há complicação ou dificuldade para entender o que está acontecendo; a linguagem é simples e pode ser entendida por pessoas de qualquer idade.


Já a arte, eu admito que ela não me agradou tanto. O traço do José Aguiar é normal, que me lembrou bastante o traço do Chris Bachalo com personagens que chegam a ser até caricaturas de si mesmos. Ou seja, são desenhos que visam explorar o exagero. Só que esse traço mais caricatural acaba funcionando em detrimento de algumas cenas que exigem mais expressividade e drama na forma como elas são construídas. Gostei do fato de que ele se preocupa com frente e fundo de cena. Se o leitor parar para reparar no que acontece ao fundo vai pegar vários easter eggs interessantes. Ele empregou uma palheta mais clara (salvo em um ou dois capítulos quando a cena se passa à noite) com o emprego de uma cor creme e um verde-folha. Os primeiros capítulos são os melhores para mim no quesito arte porque o autor preferiu empregar a narrativa visual para contar sua história. A quadrinização é padrão com quatro a oito quadros, sendo que em alguns momentos ele vai usar menos para dar uma sensação de iminência ou ênfase em algum assunto.



É triste nos pegarmos pensando em o quanto a sociedade brasileira pouco evoluiu ao longo de quinhentos anos. Enquanto alguns países amadureceram a sua sociedade através da discussão e do conflito, o Brasil tem ranços que datam do século XVI ainda. O patriarcalismo está presente no interior com o machismo inerente ao homem que considera sua parceria um mero objeto a ser mostrado para os seus pares. Ou o preconceito étnico que continua com tudo no Brasil e chegou até a aumentar nos últimos anos com essa onda conservadora que nos assola. A narrativa de José Aguiar é muito feliz em nos demonstrar esse forte paradoxo. A desigualdade social continua em alta e ver cenas como a do último capítulo em que temos uma mãe preparando o enxoval de seu filho que está prestes a nascer em comparação ao pequeno menino de rua que vende balas é um soco no estômago de qualquer um que acha que o Brasil é o país do futuro. A imagem acima é ótima para mostrar as diversas crianças presentes na história e o quanto elas não tem oportunidade de crescimento graças a uma falta de esforço institucional de ampará-las e lhes dar uma chance.


Um segundo ponto importante é em o quanto as pequenas histórias nos ajudam a quebrar diversas certezas que temos acerca da história do Brasil. Alguns temas presentes não costumam ser trabalhados na escola como o das crianças enjeitadas e o da falta de fiscalização em relação às leis abolicionistas. Por conta de um currículo que busca valorizar aquilo que o governo deseja que assim o seja vários temas são deixados de fora. Outro que quase nunca é comentado na escola é o do sincretismo religioso, tão presente até os dias de hoje em hábitos e falas nossos. Algo presente logo no primeiro capítulo ao nos mostrar uma mãe que tem a seu lado uma parteira e uma xamã de sua vila realizando pequenos rituais que ajudariam na concepção de seu filho.


No país do jeitinho e da criatividade, o brasileiro continua a se adaptar com aquilo que lhe é fornecido. Não luta por seus ideais porque prefere pensar em si mesmo. Nossa democracia representativa nada mais é do que uma perpetuação de um governo que atua em prol de si e de seus pares, deixando o resto da população à margem. Através das cenas em comparativo percebemos o quanto as coisas apenas mudaram de época e sua essência permanece a mesma. Pouco se fez para tornar nossa sociedade mais avançada. Algo que vai desde a jovem negra sendo punida por ter deixado folhas sendo levadas ao vento ou a mãe que mora junto de seu filho atrás das grades. O que mudou? No que avançamos? São fortes questionamentos que a leitura de cada uma das cenas nos deixa.


A edição da Avec está muito bonita e conta com um prefácio da Mary del Priore, uma importante pesquisadora de história colonial brasileira. Ao final temos artigos históricos contextualizando cada capítulo e comentando sobre os principais acontecimentos do período. Um prato cheio para qualquer historiador poder usar em sua sala de aula. Um material perfeito nesse quesito, apesar de não ser um quadrinho perfeito. Como elemento informativo, acho essencial para estar em qualquer biblioteca escolar.










Ficha Técnica:


Nome: A Infância do Brasil

Autor: José Aguiar

Editora: Avec

Número de Páginas: 97

Ano de Publicação: 2017


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