• Paulo Vinicius

Resenha:"A Inesperada Herança do Inspetor Chopra"(A Agência de Detetives Baby Ganesha)de Vaseem Khan

Atualizado: 1 de Mai de 2019

O Inspetor Chopra está se aposentando. Em seu último dia de trabalho acontecem inúmeras confusões na delegacia e ele recebe um inusitado presente de seu tio: um pequeno elefante chamado Ganesha. E esse elefantinho irá mudar sua vida para sempre.

Sinopse:


No dia da sua aposentadoria, o inspetor Chopra herda dois inesperados mistérios. O primeiro é o afogamento de um jovem pobre, cuja suspeita morte ninguém parece interessado em investigar. E o segundo é um bebê elefante. Enquanto sua busca por pistas o leva através da movimentada cidade de Mumbai – das ricas mansões ao submundo sombrio das favelas - Chopra começa a suspeitar que há bem mais por trás dos dois mistérios do que ele pensava. E rapidamente descobre que um determinado elefante pode ser exatamente o que um homem honesto precisa...




Admito que fiquei um pouco cético quando a editora Morro Branco me enviou este livro no pacote deste mês. Sério... Isto porque eu não conhecia o autor, o livro é de um gênero que eu não curto tanto e eu sou uma criaturinha meio chata para resenhar. Posso fazer tanto uma resenha muito elogiosa quanto fazer uma resenha mais ácida. Talvez esta seja uma das grandes identidades do Ficções Humanas hoje. E ser parceiro da editora te dá um novo nível de responsabilidade. Isso não significa de forma alguma que eu vou aliviar em uma resenha, porém significa que se eu for fazer uma resenha menos elogiosa, eu preciso ter argumentos muito bons para tecer minhas críticas. Mas, eu acabei colocando no meu íntimo que iria pegar o livro sem expectativas. Fui de coração aberto para me divertir com a leitura. E, nossa, como eu me diverti.

Antes de mais nada, é preciso avisar de pronto: este não é um livro que vai mudar a sua vida ou fazer grandes questionamentos existenciais. A obra de Vaseem Khan é feita para você curtir uma tarde de sábado. Aqui você vai encontrar personagens engraçados, vilões típicos de histórias de mistério e um cenário exótico. A escrita do autor é muito propícia para isso: leve, dinâmica e bem encadeada. Fiquei até triste por ter lido esse livro tão rápido. Às vezes eu até me sabotava um pouco para que a leitura durasse um pouquinho mais. Levei cinco dias para ler, mas poderia ter facilmente lido em dois. Existem algumas palavras tipicamente indianas, mas nenhuma delas vai criar nenhuma dificuldade para o leitor já que o autor ou coloca o significado junto ou é possível saber através do contexto (embora um glossário não faria mal, gente... Morro Branco, fica uma boa sugestão). A narrativa é em terceira pessoa, ou seja, é uma narrativa onisciente, bem encaixada para o gênero da história.

Um ponto na escrita do autor que eu gostei muito é como ele torna Mumbai um ambiente extremamente familiar para o leitor. Gente, estamos falando de uma cidade na região mais distante da Ásia e que possui uma cultura bem específica. Muita coisa poderia complicar a leitura. E, no entanto, não senti nenhuma dificuldade neste elemento. Gosto quando o autor estimula os meus sentidos e em A Inesperada Herança do Inspetor Chopra o leitor consegue sentir a cidade: os ruídos do grande mercado, os autoriquixás passando, os cheiros e toda a mística da cidade. Essa sensação de familiaridade permeia toda a narrativa e é essencial para a trama. E se eu posso fazer uma ligação entre personagens e escrita, é através do próprio ambiente. Em um determinado momento (mais ou menos até a metade da trama) eu senti que o protagonista da história era a própria Mumbai em toda a sua efervescência. Claro que depois Chopra assume o protagonismo à medida em que sua própria vida privada se mistura com a sua investigação.

Como os personagens são interessantes. Claro que eu achei que o autor poderia ter dado um pouco mais de atenção aos personagens de apoio, mas entendo a opção por reforçar o personagem de Chopra neste primeiro volume. Faz total sentido já que se trata de uma série. As interações entre Chopra e Poppy são muito divertidas. Temos aqui um casal mais maduro (o que é bem diferente em relação a outras histórias), mas que ainda possui algumas inseguranças. Eu gosto quando temos este tipo de personagens porque abre a possibilidade de explorar outro tipo de temas do que simplesmente o casal se conhecendo, se apaixonando e depois tendo o felizes para sempre. Aqui não, já temos um casal já experiente e que está passando por uma mudança em suas vidas com a aposentadoria. A própria exploração de como o final de sua carreira como policial afetou o personagem gera um bom plot na história. Isso porque em vários momentos o personagem se questiona se aquilo que estaria fazendo era o certo para ele e para sua esposa. Temos um personagem com decisões bem profundas para fazer. Para que ele tomasse aquela decisão no final da história, ele precisou passar por algumas situações bem difíceis como a cena com Shetty e Nayal no barco. Talvez aquela cena tenha feito ele tomar sua decisão definitiva.

Ao mesmo tempo temos elementos de misticismo na história. É impossível falar de Índia sem mencionar a religião. Ela faz parte do cotidiano. Mesmo que o protagonista seja cético e mantenha uma certa distância da religião, é impossível ficar muito longe. E provavelmente esse link com o aspecto religioso é feito através do nosso querido elefantinho Baby Ganesha. Se eu posso dizer que existe algum tipo de elemento fantástico na história, ele está na figura do elefantinho. Me parece até que ele funciona às vezes como um deus ex machina do autor (e este talvez seja o elemento que mais me incomodou), mas aquela pontadinha de dúvida que o autor deixou no epílogo me deixou realmente surpreso.

O grande tema da história é o embate entre o tradicional e o moderno. Temos aqui uma Índia em franco processo de modernização, mas nem sempre a passagem para o moderno é algo simples. E eu acho que os leitores vão franzir um pouco o nariz em relação a várias coisas como o fato de as mulheres serem mais submissas, os casamentos arranjados, a maneira como os animais exercem uma forte influência na vida das pessoas, o lidar com diferentes aspectos da religião hindu e a maneira como a desigualdade social provoca um abismo bem grande. Estamos falando de um dos países mais populosos do mundo e uma das cidades mais populosas do mundo. É uma cidade que convive com a extrema pobreza e a extrema riqueza. Nesse primeiro livro, nós vemos bastante do primeiro caso, de o quanto a polícia vira o olhar para determinadas situações. O que Chopra vai descobrindo ao longo da história é algo bem comum nos dias de hoje em cidades como Mumbai e Nova Délhi. Infelizmente não existem diferenças entre cidades de países em desenvolvimento como Brasil e Índia. Eles sofrem dos mesmos problemas que sofremos. Só que na Índia, o tradicional resiste bastante às mudanças. Estamos falando de tradições milenares que não podem ser apagadas em um piscar de olhos. Para mim, o que faz de Mumbai tão interessante é este choque saudável entre antigo e moderno; é o que a torna interessante.

O ponto fraco da história é sua previsibilidade. Eu me senti assistindo a um episódio de alguma série de mistério. Os suspeitos são apresentados e depois aparece um grande vilão que o personagem conhece de alguma forma em seu passado. Para mim, a narrativa foi o que menos me agradou no livro. Não sei se os outros elementos serviram para obscurecer a narrativa, mas eu senti que o autor fez muitas concessões de enredo. Muitas coincidências serviram para colocar o protagonista no caminho certo como encontrar um dos vilões por acaso durante suas investigações ou tomar certas conclusões insólitas. No momento de crise, aparece algo bizarro para ajudar o protagonista. Em certo momento da história, o leitor não sente aquela iminência de que algo ruim possa acontecer ao protagonista. Por esse motivo, eu deixei de lado o aspecto da seriedade e passei mais a me divertir. Mesmo assim, no quesito narrativa, eu fiquei um pouco decepcionado.

A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é um livro que pode ser lido por pessoas de qualquer idade. Divertido, com personagens interessantes e mostrando um ambiente exótico, Vaseem Khan fez com que eu me interessasse pelas investigações de Chopra, pela sua vida de casal com Poppy e até pelas discussões no condomínio e as disputas com a senhora Subramanium. Eu recomendo muito o livro para ler entre histórias mais difíceis ou se você deseja algo mais leve. O autor retrata muito bem a Índia nesta disputa de espaço entre o antigo e o moderno e isso pode ser visto no próprio protagonista. Desejo que a editora continue a investir nessa série que eu acredito que seja um acréscimo muito divertido ao catálogo bem diferente da Morro Branco.


Ficha Técnica:


Nome: A Inesperada Herança do Inspetor Chopra

Autor: Vaseem Khan

Série: A Agência de Detetives Baby Ganesh vol. 1

Editora: Morro Branco

Gênero: Policial

Tradutora: Flávia Souto Maior

Número de Páginas: 312

Ano de Publicação: 2017


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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