• Paulo Vinicius

Resenha: "A Ilusão do Tempo" de Andri Snaer Magnasson

Com uma terrível crise financeira assolando o mundo, os pais de Vitória decidem se abrigar em uma caixa que os mantém fora do tempo. O objetivo é sair apenas quando a crise tiver acabado. Mas, Vitória desperta sozinha em um mundo em ruínas. O que esse mundo tem a ver com a história da princesa Obsidiana? Descubra em A Ilusão do Tempo!

Sinopse:


Quando as coisas não vão nada bem e os economistas preveem uma enorme crise financeira, a família de Vitória – assim como o resto do mundo – decide se esconder em suas misteriosas caixas pretas à espera de tempos melhores. No entanto, após vários anos, a caixa de Vitória se abre e a menina se vê em uma cidade em ruínas.

Sem rumo, ela caminha por prédios e ruas tomadas por florestas e animais selvagens, até chegar à uma casa onde crianças se reúnem em torno de uma senhora para ouvir a história de um rei ganancioso que conquistou o mundo, mas desejava conquistar o tempo. Para poupar sua bela princesa dos dias escuros e sombrios, normais ou sem valor, ele a coloca em uma caixa mágica transparente como cristal, mas feita de uma seda de teia de aranha tão densa que o próprio tempo não consegue penetrar.

Vitória aos poucos percebe uma conexão entre sua própria história e a do reino mágico. Junto com seus novos amigos, ela precisa encontrar uma forma de consertar o mundo antes que seja tarde demais.




Admito ter um fraco por histórias que envolvam alguma ligação com contos de fadas. Isso porque é um gênero de formação de muitos jovens e introdução ao mundo da leitura. E, vamos confessar: quem é que não gosta de uma história em que a fantasia é empregada para o encantamento da imaginação do leitor? Ou para passar alguma mensagem? Quando a Morro Branco apresentou a publicação futura desse livro, eu logo pulei em cima dele. Eu quero. Porque eu sabia que viria algo diferente (a editora tem se tornado muito popular pelas suas escolhas curiosas e inusitadas de títulos) e porque eu queria ler algo diferente. De fato, eu li. A história foi capaz de me apresentar um conteúdo bem diferente do padrão apesar de eu ter achado algumas características um pouco estranhas e que não funcionaram como devia ser.

A Ilusão do Tempo é claramente inspirada na estética dos contos de fadas. Temos um mundo fantástico, uma corte real onde os acontecimentos se passam e elementos mágicos que são simplesmente aceitos, sem a necessidade de explicações profundas. A magia é aceita como parte do cotidiano. Quem leu Branca de Neve não vai procurar compreender o sistema de magias por trás do espelho encantado ou dos anões. Eles são simplesmente aceitos. Esse é o ponto que eu adorei na história. Só que o autor criou uma meta-história, ou seja, uma história dentro de outra história. A narrativa principal se passa em um futuro distante quando inventaram uma máquina capaz de congelar o tempo para as pessoas. Estas só acordariam quando a máquina atendesse a uma programação específica. No futuro, Vitória conhece Rosa, uma das poucas pessoas adultas remanescentes que vai contar a ela a história da princesa Obsidiana e da arca do tempo. Logo, temos duas histórias. O que acabou acontecendo foi um desequilíbrio na escrita das duas histórias: enquanto que a história da princesa é muito bem escrita e se mantém à proposta original da história, o autor criou uma "ficção científica" que acabou soando muito estranha para a narrativa sem contribuir tanto assim para o desenvolvimento da primeira. Sim, ela é importante... mas, a escrita acabou muito truncada por problemas na construção da narrativa.

“E o tempo queima suas antigas asas, se desprende dos laços que fora amaldiçoado a usar.”

Esta é feita em terceira pessoa. No trecho de ficção científica seguimos a história de Vitória e de alguns outros meninos encontrados nesse mundo em ruínas. O ponto fraco é que eu nunca consegui estabelecer uma ligação emocional com esses personagens porque a história e as motivações deles não são bem estabelecidas. Por outro lado, a história de Obsidiana é incrível. Aí sim, temos personagens bem construídos e delineados. O leitor desenvolve sentimentos pelos personagens. Eu ficava angustiado com o que acontecia com a princesa e sentia o poder das palavras dela. Entendia a tristeza de não poder viver o tempo dela, mesmo que este fosse chato ou ruim. Tudo o que ela queria era abraçar o seu panda ou brincar com os cervos. Me irritava com o rei Dímon que não entendia o que se passava no coração de sua filha e era apenas um egoísta. Ou me senti feliz posteriormente com o aparecimento de Kári. Nesse sentido, o autor acertou na mosca e o livro poderia estar focado apenas nestes personagens. Os trechos de Rosa, Pedro e Vitória sequer precisariam estar no livro que a mensagem que ele queria passar continuaria a ser a mesma.

Vou falar mais um pouco sobre os personagens porque muitos deles me lembraram muito os aspectos de contos de fada. O autor se preocupou até em trabalhar particularidades dos personagens e dar individualidade aos mesmos. Exel (terá sido uma brincadeira com o programa do Office?) é o responsável pelas finanças e tem uma mania estranha de se desviar de linhas no chão. Ou Conselino com suas abelhas na cabeça. Ou Jako que precisa falar com Obsidiana, por decreto real, apenas usando frases prontas ou ditados populares. Essa preocupação do autor dá uma riqueza inacreditável para a história. Porque aos poucos o leitor vai identificando de quem é a voz presente em um diálogo ou até desejando que tal ou tal personagem evolua ou desenvolva algo na narrativa. Por outro lado, o mesmo não foi feito nas partes de interlúdio em que voltamos ao futuro. As crianças ficaram rasas e mesmo Rosa não tem as motivações exatamente explicadas. Ok, tem um plot twist no final que ajuda a entender os motivos, mas caramba. Não consegui comprar aquilo.

"(...) E assim, cada um entrou em sua respectiva caixa preta. Mamãe, papai e Vitória, que estava muito curiosa com tudo aquilo. O vidro era transparente; ela sentiu seus ouvidos tamparem quando a porta se fechou e uma luz azul se acendeu. Tudo ficou preto num piscar de olhos, e então a caixa se abriu novamente. (...)"

O tema da história é absolutamente lindo. O quanto desperdiçamos nosso tempo sem apreciá-lo como um todo? Na cabeça das pessoas hoje existe uma necessidade que beira à obsessão de se focar apenas nos bons tempos. Eu sou de uma outra geração que aprendeu a apreciar o mundo por aquilo que ele é. Não é legal viver uma crise, mas somente esses momentos ruins é que vão fortalecer o nosso caráter. Eles farão com que nós nos tornemos pessoas melhores, mais maduras. Adoro gastar minhas manhãs para observar os pássaros pousando no meu quintal. Às vezes perco meia hora, observando pequenos beija-flores ou bem-te-vis mordendo frutinhas de aroeira. São momentos mágicos do cotidiano que poderiam ser interpretados como perda de tempo por outras pessoas. Vivemos em um mundo de instantâneos em que cada minuto é precioso demais. É o velho lema do "Tempo é Dinheiro". Por que não apreciar o mundo? Observar o alvorecer ou curtir o vento batendo no rosto.

Existe também uma boa dose de egoísmo na história. Dímon quer manter Obsidiana perto dele pelo máximo de tempo possível. Mas o quanto desse egoísmo não vem de sentimentos pela mãe de Obsidiana? Para mim, o personagem é muito infeliz ao tentar enfrentar o tempo a todo custo. E a batalha se tornou apenas dele. Toda a narrativa da história, todos os maus acontecimentos são culpa direta das ações do rei. Em nenhum momento na história ele pensou nos seus súditos ou sequer na vontade de sua filha. A vontade era dele e de ninguém mais. Como mães e pais, precisamos entender que criamos nossos filhos e filhas para o mundo. A partida é dolorosa e o tempo vai afetá-los, mas a nossa parte já foi cumprida. Resta a nós apenas apoiá-los e amá-los. Não podemos prendê-los às nossas vontades. Para mim, um dos capítulos mais tristes do livro e que realmente me fez chorar, foi um capítulo simples chamado Dia e Noite. Era um capítulo simples em que por várias páginas, a personagem registrava essas duas palavras em uma sequência que parecia infinita. Lá pela vigésima repetição, deu um nó no meu coração. Porque a gente sentia a dor de não poder viver esses momentos. Ou o simples desejo da princesa de rever seus entes queridos ou fazer novos amigos.

A narrativa do conto de fadas segue o padrão com a presença de um "príncipe encantado", uma bruxa má e uma maldição. Os capítulos são bem construídos, apesar de a leitura não ser tão simples quanto parece. Senti o peso em alguns trechos, talvez muito mais pelos interlúdios do que pela história da princesa em si. De fato eu não gostei da parte de ficção científica. Achei mal explicada e o final foi terrível. Como tendo sido inspirado em contos de fada, imaginei que haveria aquele momento da "lição" que quase todos eles possuem. Um pouco de convencimento ou uma conversa franca com as pessoas, algo que não aconteceu. Tinham maneiras incríveis de encerrar a história em alto tom, mas eu senti a presença quase de um deus ex machina. Ou um "tenho que terminar isso". Na minha modesta e humilde opinião de blogueiro de nada, eu terminaria a história no trecho dos contos de fada, faria um epílogo e ponto final.

"O ar ficou limpo e não se via mais a fumaça de aviões atravessando o céu. Eu comecei a plantar batatas e a pescar para poder comer. O rio não estava mais poluído e os salmões vinham pulando para a minha rede. A terra despertou quando as pessoas lhe deram um sossego de todo aquele lixo de antes. E eu tive paz para pesquisar a história de Obsidiana."

A Ilusão do Tempo é uma boa narrativa de um autor que eu aprendi a gostar. A escrita acontece em duas temporalidades, compondo uma espécie de meta-história onde a personagem Rosa conta às crianças perdidas em um futuro em ruínas, o que aconteceu à linda princesa Obsidiana e sua arca do tempo. Os personagens são o ponto alto da história, mas houve um forte desequilíbrio entre o que acontecia no passado e no futuro. Essa é uma história que nós, adultos, precisamos demais ler para podermos refletir sobre o que, para nós, significa o tempo.


Ficha Técnica:


Nome: A Ilusão do Tempo

Autor: Andri Snaer Magnasson

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica/Fantasia

Tradutora: Suzannah Almeida

Número de Páginas: 320

Ano de Publicação: 2017


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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