Resenha: "A Canção de Bêlit - A Tigresa e o Leão" de Rodolfo Martínez e Robert E. Howard

Essa é uma história que se passa nos três anos da vida do cimério em que ele passou ao lado do amor de sua vida, a poderosa Rainha da Costa Negra.


Sinopse:


Quanto a embarcação mercante a bordo da qual Conan está viajando é abordada por um navio pirata, o cimério sabe que precisará como nunca se quiser escapar com vida. O que não imagina é que a capitã inimiga, Bêlit, irá se apaixonar por ele. A bordo do Tigresa, o cimério aprende sobre o ofício da navegação, cria laços com homens de várias nações do mundo e descobre mais sobre a corajosa capitã shemita ― cuja paixão avassaladora é cada vez mais correspondida pelo bárbaro. Depois de uma temporada de assaltos e negociações, Conan recebe a honra de conhecer o arquipélago oculto Nakanda Wazuri. Lá, o homem se vê envolvido com tramas políticas, profecias antigas e poderosas organizações mágicas. É uma trama de vingança, luta e aventura ― mas também de amor, confiança, luto e saudades. A canção de Bêlit, história dividida em dois volumes, começa logo depois do início de “A rainha da Costa Negra” ― conto escrito por Robert E. Howard ― e conta três anos da vida conjunta de Conan e Bêlit, quando se enlaça de novo ao final da história original escrita pelo criador do cimério.






A famosa Rainha da Costa Negra talvez seja uma das personagens mais fascinantes das lendas do bárbaro cimeriano. Uma mulher forte, poderosa e independente, que comanda com punho de ferro a sua própria galé, o Tigresa. Possivelmente apenas Red Sonja ou Valéria seriam personagens femininas tão conhecidas entre as histórias do Conan. Rodolfo Martínez parte de um conto de Robert E. Howard para contar sua história e a encerra no início de outra história. É uma maneira de preencher uma lacuna existente na vida do bárbara; talvez uma entre várias que permitem aos autores explorarem diferentes traços e características de sua vida. Só que duas perguntas ficam: terá a história feito jus ao legado de Howard e terá o autor conseguido emular a escrita tão marcante dele? Vamos ver isso nesta resenha.


Em uma fuga de uma cidade, Conan acaba embarcando em um navio que zarpa para o sul do continente hiboriano. Mas, nosso personagem parece ter saído da panela e ido para a frigideira já que o navio é rapidamente atacado pelo Tigresa, um navio de piratas sanguinários comandados pela estonteante Rainha da Costa Negra. Tendo sido o único sobrevivente do ataque dos piratas de Bêlit, Conan desperta a atenção e o fogo da pirata. Eles iniciam um tórrido romance que colocará lado a lado um leão indomável e uma tigresa enfurecida, gerando uma das parcerias mais mortais existentes neste mundo. O que se vê são saques e pilhagens que ficam para a história e Conan é levado para conhecer o novo lar adotivo da pirata shemita, Nakanda Wazuri. Só que uma antiga lenda que data de eras atrás está prestes a acontecer e colocará frente a frente a magia estígia e o desejo de vingança de um povo antigo. E Conan estará bem no meio deste furacão.


Bem, não sou o maior conhecedor das histórias do Conan, tendo conhecido-o mais por intermédio das famosas histórias de Roy Thomas na Espada Selvagem. O que posso dizer é que sou leitor de autores que foram diretamente influenciados por Howard como Leiber e Moorcock. Aviso ao leitor que um romance de espada e feitiçaria tem alguns pontos diferentes dos de uma história simples de fantasia. Existe um quê de ação e lendas nesse tipo de histórias, quase como feitos absurdos sendo realizados por espadachins corajosos e lendários. Como é possível também conferir em Red Sonja, espada e feitiçaria não são somente homens fortes e musculosos que matam antes e perguntam depois. Sonja e a Bêlit são dois ótimos exemplos de mulheres poderosas que não deixam nada a desejar a outros guerreiros. Nas histórias de espada e feitiçaria vemos também uma mistura entre o realista e sanguinário e o fantástico de rituais macabros e poderosos. Martínez conseguiu entregar bem uma história nesse sentido ao mesmo tempo em que sua escrita prende a atenção do leitor. Preciso ser honesto e dizer que não sei exatamente o quanto ele estava próximo da escrita do Howard, mas como leitor do gênero posso dizer que é bastante semelhante ao estilo tradicional.

A segunda pergunta a ser respondida é se ele foi capaz de fazer jus ao legado do personagem. E a resposta é sim também. Tudo o que um leitor do Conan pode esperar está ali: as terras indômitas, os monstros terríveis, as contendas e as traições, o poder de um homem impossível de ser controlado. Pelo que a gente consegue ver nas histórias, o auto estudou bastante as histórias do personagem e foi capaz de trazer à vida lugares como a cidade sem nome de Tot-Amon, os perigos da Estígia, as terras de Zamora. Está tudo aí e quem for fã vai se sentir bastante à vontade com as histórias. A ambientação está fascinante e ele me remeteu às histórias da famosa fase da Rainha da Costa Negra nos quadrinhos que eu era apaixonado. Muitos dos meus conhecidos curtem a Valéria dos filmes do Schwarzenegger ou a Sonja de várias histórias marcantes em que a ruiva poderosa cruzou espadas com o bárbaro. Para mim, minha paixão é a Bêlit. É aquela personagem que é intempestiva, sanguinária e sua presença no ambiente é marcante. Como o próprio Martinez a descreve na história, é uma deusa imponente de longos cabelos negros. É aquela que deixa o Conan enlouquecido com sua fúria e paixão. É ótimo a gente ver uma personagem que consegue fazer par com outro tão icônico.


"Bêlit ofegava, os dentes tensos, os olhos semicerrados. Um grunhido grave escapava de sua garganta. A mão direita ainda apertava a faca e, se Conan não a tivesse segurado pelo pulso, ela teria golpeado o peito enorme do cimério, Ele já lidara com criaturas perigosas antes, mas não foi capaz de não pensar que até um tigre dentes-de-sabre de Vanaheim seria menos letal do que aquela mulher."

O Conan de Martinez é um bárbaro na fase adulta, ainda aprendendo sobre o mundo que o cerca e não compreendendo a chamada "civilização". É aquele personagem que te dá uma espadada caso não concorde com alguma coisa, mas que logo vai entender que nem tudo pode ser resolvido na ponta da espada. O contato com Bêlit vai ser marcante para ele, talvez se preparando para se tornar o futuro rei da Aquilônia. E se antes tínhamos um bárbaro louco por aventuras e por enfrentar a tudo e a todos, estar ao lado da pirata por tanto tempo faz com que ele comece a colocar sua própria vida em perspectiva. Entender o que ele deseja para si e até onde pretender caminhar. Ou até talvez encontrar um lugar que possa chamar de lar ao lado de alguém digno de estar em sua cama. Conan se torna até mesmo alguém capaz de comandar homens. Essas características surgem ao longo dessa viagem na qual o personagem vai se transformar.


Como a história é sobre Conan e Bêlit, a nossa rainha não poderia ficar para trás. Martínez usa o espaço das páginas do romance para desenvolver melhor a personagem em todas as suas qualidades e defeitos. Na história, o xamâ N'Yaga constrói uma imagem de deusa para a tripulação do Tigresa. Ou seja, Bêlit é um ser intocável ao qual os homens seguem até suas mortes ao seu lado. As características flamejantes da personagem combinam um pouco com esse ar de deusa que ele possui; a qualquer momento ela pode se virar contra alguém em uma fúria quase divina. Se ela é essa personagem quase acima do alcance dos seres humanos comuns, Conan conhece uma mulher apaixonada e confusa em alguns momentos. Por ser alguém que sempre se atira de frente nas coisas, Bêlit pode pecar pelo seu excesso. É também uma protetora de seu povo, e, como uma tigresa, os protege com unhas e dentes. É essa natureza selvagem da personagem que o torna tão fascinante. Ela sabe o que quer e não tem medo de dizer em alto e bom tom. Sabe seu poder como guerreira; mas também sabe usar seus dons de mulher. Bêlit não é submissa a ninguém; ela toma e conquista. Talvez nenhuma personagem feminina seja tão empoderada quanto ela.


As lacunas deixadas por Howard permitiram a autores como Martinez explorar outros aspectos e personagens da vida de Conan. O que é legal nesse romance é como o autor consegue dar espaço a outros personagens e revelar seus objetivos e motivações. Ainda acho que o espaço desse livro em específico foi pequeno para o que ele desejava explorar, mas tenho certeza que na continuação deste romance, ele vai conseguir dar mais tridimensionalidade a eles. Sim, esse é apenas o primeiro volume de uma série que deve ganhar pelo menos mais um volume. Personagens como os hashin que estão com problemas para permanecer no reino de Yezdigerd, que deseja o trono de seu pai; ou Tot-Amon que maquina seus planos para se tornar o mais poderoso dos magos, mas em um erro incomum precisa se dirigir a um lugar lendário; ou até o pobre Demetrios, um homem que conheceu o Conan de outrora e agora passa a fazer parte da tripulação de Bêlit. Todos personagens interessantes e que possuem suas próprias histórias a serem contadas.


"Os dias passavam, prazerosos, e Conan às vezes se perguntava se tinha encontrado seu lugar definitivo no mundo. Era difícil imaginar uma vida melhor: espólios abundantes, liberdade para ir e vir e uma tigresa feroz como companheira. O que mais poderia querer?"

A Canção de Bêlit é um bom livro que consegue divertir pelas suas quase duzentas páginas. O autor conseguiu entender o funcionamento do universo vivido pelo bárbaro e introduzir elementos extras que deram maior riqueza a ele. Não só isso como foi capaz de trazer uma Bêlit que rivaliza com o Conan em todos os seus aspectos. Se a escrita dele é ou não parecida com a de Howard, não consigo dizer, mas ele consegue fazer justiça ao legado das boas histórias de espada e feitiçaria. E que venha o segundo volume!!











Ficha Técnica:


Nome: A Canção de Bêlit - A Tigresa e o Leão

Autores: Rodolfo Martínez e Robert E. Howard

Série: A Canção de Bêlit vol. 1

Editora: Avec

Tradutora: Jana Bianchi

Número de Páginas: 176

Ano de Publicação: 2021


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora








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