• Paulo Vinicius

Resenha: "A Última Travessia" de Mats Strandberg

O Baltic Charisma é um navio que já teve dias melhores. Pelos seus corredores passam milhares de pessoas todos os anos. Mas, desta vez, dois passageiros diferentes de tudo que já foi visto antes poderão tornar uma simples viagem de cruzeiro entre duas cidades em um verdadeiro banho de sangue.


Sinopse:


NO MAR BÁLTICO, NINGUÉM PODE OUVIR VOCÊ GRITAR


Hoje, mais de 1.200 pessoas embarcarão em uma travessia pelas frias águas do Mar Báltico, com destino à Finlândia. Por 24 horas, elas deixarão de lado seu dia a dia sem graça e poderão ser quem quiserem.


A viagem promete satisfazer seus mais diversos desejos, com bebidas, festas e cassinos. Mas o mal espreita os corredores e, no meio da noite, não há escapatória possível. Especialmente quando todo o contato com a terra firme é misteriosamente interrompido.


Se algumas pessoas se comportam como heróis ao enfrentar crises, essa noite sombria trará à tona o que há de pior nos outros, e quando desaparecimentos inexplicáveis começam a acontecer, é imprescindível que o navio não chegue ao seu destino final.

Bem-vindo a bordo do Baltic Charisma.




Uma variedade de personagens


Narrativas com muitos personagens costumam ser ricas em detalhes e desenvolvimentos. A exploração do emocional e de como os personagens reagem a diferentes situações é uma das marcas deste tipo de escrita. Um ótimo exemplo disso é As Crônicas de Gelo e Fogo, escrito por George R.R. Martin. O autor consegue captar as nuances de cada personagem e mostrar como mesmo grupos distantes uns dos outros conseguem interagir de forma direta ou indireta. Quando eu percebi o que Mats Strandberg queria fazer nessa narrativa, achei ousado logo de cara. Tirando Stephen King, conheço poucos livros de terror que sejam muito longos. E A Última Travessia é muito longo.


A história trata de várias pessoas que embarcam em um navio de cruzeiro chamado Baltic Charisma que faz um trajeto entre duas cidades do mar Báltico. Apesar de ser um cruzeiro, o navio não é lá muito luxuoso, sendo uma daquelas opções mais baratas para aqueles que não possuem dinheiro. Em algumas páginas somos apresentados ao tipo de pessoas que embarcam no navio: fanfarrões, maridos querendo trair mulheres, mulheres em busca de uma louca aventura, famílias com menos poder aquisitivo. Alguns dos personagens também são integrantes do navio: um segurança, um bartender e um animador de karaokê que já foi um cantor. Entre as alegrias e as desilusões dos presentes no navio, uma força sinistra parece ter subido a bordo. E ela irá causar morte e destruição por toda a parte.


"O Charisma já tinha visto praticamente de tudo. Na terra de ninguém que era o mar Báltico, as inibições diminuíam, e não era culpa somente da bebida barata. É como se o tempo e o espaço se distorcessem, como se as regras normais parassem de se aplicar. E tudo é monitorado por quatro seguranças, que estão ocupados se preparando para a noite, cada um à sua maneira."

Certamente Strandberg colocou personagens muito variados na narrativa. O pequeno Albin é um menino curioso de doze anos que faz parte de uma família que possui muitos problemas. Ele adora sua prima, mas não a vê há muitos anos desde que ela partiu com sua tia Linda. Sua mãe é uma cadeirante, com uma doença que tirou sua possibilidade de exercer sua liberdade total. Isso balançou um pouco seu casamento, até porque seu pai, Marten, tem indícios de ter uma doença que o torna bipolar. Todo esse tenso clima familiar é levado para bordo do navio quando as duas partes da família finalmente se encontram depois de muito tempo.


Dan é outro bom personagem. Ele funciona como uma espécie de um dos vilões da narrativa. Um filho da mãe que se acha um grande cantor por ter chegado nas finais do Eurovision, um concurso de música famoso na Europa. Mas, ele nunca chegou a dar continuidade em sua carreiro, tendo vindo parar no Baltic Charisma. Provavelmente isso se deu por sua própria culpa já que ele possui uma personalidade violenta, machista, além de ser usuário de cocaína. A junção desses defeitos o torna uma pessoa rude e difícil de lidar. Ele chegou a se envolver com uma pessoa da tripulação, algo que cria um clima bem estranho a bordo.


"Sexo é um universo paralelo onde as pessoas mais comuns subitamente mostram um outro lado. Quase como os monstros dos seus sonhos, que podem parecer uma pessoa qualquer, que vive uma vida normal, até que você a espie pela janela."

Temos ainda Marianne, uma mulher que veio ao navio para tentar encontrar a si mesma. Já na faixa dos 40 anos, ela percebe que seus dias gloriosos chegaram ao fim, mas ela nunca conseguiu encontrar uma razão para viver, um amor que a emocionasse. O leitor percebe nela alguém precisando de atenção, de carinho. Ela acaba conhecendo um homem com quem ela se envolve antes do navio partir e vemos toda a insegurança que rege a sua personalidade. Marianne sente medo de estar tomando decisões erradas a todo o momento e isso se reflete na maneira como ela se relaciona.


Dei exemplos de três personagens, mas existem vários outros presentes na narrativa como Calle ou Pia. E isso fora aqueles que não ganham capítulos escritos a partir de seu Ponto de Vista. A técnica de POV é usada extensamente por Strandberg e isso acaba tornando a narrativa mais longa, e dando um pouco mais de riqueza a ela. À medida em que a narrativa avança e a tragédia acontece, vamos percebendo os POVs desaparecendo aos poucos, significando a morte ou a salvação de alguns dos personagens. Isso é feito de uma maneira bem sutil e eu só fui me dar conta mesmo lá pelo terço final da história.



Muitos personagens = boa história?


"Marianne nota que pensa no Charisma como um ser vivo e não uma máquina comandada por pessoas normais. Parece impossível que se possa controlar essas milhares de toneladas, mesmo com todos os aparelhos que o capitão têm à sua disposição."

O ponto negativa desse coletivo de personagens é que o desenvolvimento deles nunca decola por completo. O autor acaba criando capítulos com poucas páginas, alternando rapidamente entre os vários POVs. A maior parte dos capítulos gira entre 4 a 8 páginas, mas tem vários deles com 1 ou 2 páginas. Apesar de isso tornar a narrativa muito veloz, tira um pouco da possibilidade do leitor de realmente se importar com os personagens. Porque quando a gente está quase se acostumando com os dilemas de um personagem, já passa para outro grupo e assim sucessivamente. E somente mais adiante na narrativa é que isso se reflete em um contato entre os vários POVs. Se na narrativa de Martin, os múltiplos POVs servem para acompanharmos a narrativa em diferentes partes do seu enorme universo, aqui estamos em um navio de cruzeiro. Mesmo com a quantidade enorme de tripulantes, não deveria ser tão difícil assim eles se encontrarem. Não precisava nem nomear os personagens, bastava criar algumas menções ou easter eggs para a gente saber que os personagens se cruzavam na história. Falta uma sensação de coesão aqui.


Outro grave problema é o quanto a história demora para acontecer. É uma história de terror. Logo, se no começo a vontade do autor é criar tensão, ele poderia ter empregado alguns leves momentos de medo ou tensão antes de começar a criar a real situação aonde ele queria chegar. O primeiro acontecimento de terror demora mais de noventa páginas para ocorrer. O segundo mais 80. Quando as coisas acontecem de verdade, daí ele mostra o quanto ele é um autor que curte cenas gore. Okay, compreensível. Mas, a narrativa realmente se transforma após a metade do livro. E estamos nos referindo a uma obra com mais de quinhentas páginas. É muito devagar. Isso me irritou profundamente e eu deixei o livro de lado algumas vezes. Stephen King compensa a sua prolixidade com uma boa escrita. Obras como A Dança da Morte ou Sob a Redoma, que são dois tijolos, conseguem fluir muito bem. George R.R. Martin sabe prender o leitor do início ao fim. Já Strandberg não nos dá tempo de desenvolvermos sentimentos pelos personagens. Por isso, tudo soa muito truncado e corrido. Tem até algumas falhas narrativas devido a falta de coesão entre os diversos POvs.


A Última Travessia é um bom livro de terror, com uma ideia bem diferente de usar uma velha criatura sobrenatural. A releitura dessa criatura ficou boa e atendeu ao necessário para o autor. Eu preferiria uma história mais contida e muito mais editada. Usar o navio como um elemento para dar tensão não necessitaria de algo tão grandioso quanto ao que é revelado mais para a metade da narrativa. Um ótimo exemplo de um bom livro de terror em um cenário limitado é Alien, escrito por Alan Dean Foster. Na novelização do filme Alien, o Oitavo Passageiro, os personagens estão todos presos na nave Nostromo junto de uma criatura que a gente nunca vê, mas sabe que está ali. Ela persegue e mata os personagens um a um. É uma história que nos deixa aterrorizados porque nunca sabemos quem será atacado logo em seguida. Se o Strandberg tivesse seguido esse caminho, talvez a narrativa conseguisse ficar ainda melhor. Contudo, o livro vai te divertir e fornecer boas horas de leitura.



Ficha Técnica:


Nome: A Última Travessia

Autor: Mats Strandberg

Editora: Morro Branco

Gênero: Terror

Tradutora: Fernanda Sarmatz Åkesson

Número de Páginas: 512

Ano de Publicação: 2018


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*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco


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