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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

Repensando a noção de monarquias antigas em suas histórias

As descobertas arqueológicas recentes revelaram detalhes bastante curiosos sobre como funcionavam alguns impérios antigos do período Neolítico até chegando à Antiguidade. Nesta matéria, vamos repassar alguns detalhes superficiais para serem aproveitados em contos ou romances de fantasia.


Os grandes impérios de livros de fantasia sempre nos trouxeram histórias fascinantes de heróis salvando princesas, enfrentando exércitos, de reis loucos, de déspotas, da luta pelos tronos. Mesmo aqueles que se debruçam sobre reinos mais antigos, temos aquele conjunto do castelo, reis, princesas, plebeus, cavaleiros. E imaginamos que isso seja o padrão para imaginarmos impérios ou monarquias. Só que isso nem sempre é verdadeiro. Até porque estamos com o nosso olhar voltado para uma perspectiva eurocêntrica. Em outros continentes, o desenvolvimento de um governo ou até mesmo a própria noção do que é um Estado se deu de uma forma bastante diferente. É complicado, por exemplo, transportarmos a noção de democracia ateniense para as comunidades pré-islâmicas ou pensar que o Império Inca possuía a mesma conformação que Roma em seu apogeu. Nessa matéria queria citar alguns exemplos retirados do livro O Despertar de Tudo, escrito por David Graeber e David Wengrow. O objetivo dessa matéria é apenas apresentar algumas ideias, ou seja, não espere uma matéria de teor acadêmico, aprofundada e com fontes. Caso vocês fiquem interessados no assunto, este livro publicado pela Companhia das Letras possui detalhes bastante interessantes, traçando comparativos entre diferentes abordagens sociológicas e arqueológicas, além de algumas críticas pontuais a algumas posturas da comunidade acadêmica.


A ideia para a matéria já vinha maturando durante a leitura do livro, porque ele apresenta diversos casos bem curiosos e que destoam do que consideramos "normal", mas o pontapé foi dado quando os autores trouxeram uma referência a um dos contos de Úrsula K. Le Guin que mais gosto, Aqueles que Abandonam Omelas. Neste conto somos levados a um lugar utópico onde todos vivem felizes em um reino justo e igualitário. Todas as liberdades são estimuladas, como orgias entre os sacerdotes, drogas para esquecer as tristezas e sempre serem felizes. Tudo o faz pensar em querer viver lá. Mas, existe um porém: toda essa felicidade vem às custas do abuso de uma criança que, desnutrida, abusada e torturada, garante a felicidade a todos. A questão mortal imposta é se vale a pena viver neste lugar magnífico mesmo sabendo que existe alguém que está sofrendo as piores humilhações possíveis para garantir o seu bem-estar. Graeber e Wengrow trazem essa referência para nos mostrar que alguns impérios que tínhamos como padrão ou normais escondem complexidades e dilemas maiores do que imaginávamos há décadas atrás. Enquanto nos mantivemos apenas na superfície, no topo do iceberg, não fomos capazes de encontrar essa criança no calabouço. Não quero dizer que os regimes sejam ruins, mas que ficamos em impressões simplistas demais e quisemos comparar com reinos mais conhecidos.


Talvez um bom caminho para começarmos a abordar esse assunto sejam as comunidades iroquoi da região do Mississipi, as quais os autores voltam em vários momentos. A propósito: Iroquois são uma denominação coletiva a vários grupos menores e com características próprias. Muitos deles constituíram "impérios" de grande extensão, mas estes não viviam de forma sedentária. A maioria optou por manter o estilo de vida forrageador, caçando, coletando e pescando. Para alguns pesquisadores existe uma certa lógica na "evolução da civilização". Primeiro, vieram os homens primitivos que viviam em cavernas, depois eles passaram para um estilo forrageador, depois deixaram de ser nômades e domaram a natureza para se reunirem em cidades muradas. As cidades muradas deram origem aos grandes impérios da Antiguidade. Mas, e se essa lógica não for tão lógica assim? Para esses povos, não havia a necessidade de ter um líder porque eles só permaneciam por alguns meses dentro de um ambiente "urbano", um tipo de assentamento onde parte da coleta de frutos permanecia. Para um povo formado por forrageadores, era mais importante o dinamismo, a capacidade de se dividir e cobrir áreas maiores. Com o estabelecimento de um líder, se torna necessária a criação de uma burocracia ao seu redor, o que nem sempre era prático a eles. Ou sequer havia a necessidade de um chefe global. Apesar de serem um império, era um império sem líderes.


Outro erro bastante comum se refere a uma preponderância da caça ou da pesca diante da coleta. Novamente vou usar um exemplo da América do Norte para buscar suporte. Os povos iroqueses podiam se dedicar a uma das duas atividades, dependendo de sua localização geográfica. Mas, houve o caso dos haudenosaunee, um povo que vivia próximo aos Grandes Lagos que tinha essa opção: ou pescar trutas ou coletar bolotas. E a maior parte dos registros arqueológicos apontam para uma preferência na coleta. Podemos aqui pensar a respeito e aí vai de cada um interpretar como for. Coletar bolotas é um processo até que rápido porque exige apenas conhecer o terreno ao redor e saber quais árvores estão com fartura. Só que existe o processo de preparação. É preciso retirar a parte que é tóxica, quebrar a casca e preparar para a estocagem. Ou seja, parece algo simples, mas não é. Por outro lado, a pesca envolvia um esforço de conhecimento dos rios locais, o ato de pescar per se e a defumação do peixe que foi adquirido. O preparo poderia levar pouco tempo e isso se o pescador não preferisse assar. Vocês podem estar se questionando por que propus isso já que a resposta é tão simples, certo? Porém, existe uma pegadinha nisso. Quando um agregado social cria uma estocagem de peixes defumados, ele propicia o ataque de comunidades rivais, que ao pilhar pode conseguir meses de alimento. Comunidades que se dedicaram mais à caça, precisavam se preparar constantemente para enfrentar outros adversários. Por outro lado, por que uma comunidade rival se interessaria em pilhar bolotas, um alimento que tem um processo mais dificultoso de preparo? Os haudenosaunee preferiram estocar bolotas em estado primal para utilizá-los quando fosse conveniente. Estocavam nessas cidades citadas no parágrafo anterior que só eram ocupadas durante períodos específicos do ano, para rituais, cerimônias ou para passar o inverno.


Outra questão curiosa tem a ver com a soberania do rei. Estamos acostumados a ler sobre reis poderosos que criam leis que abrangem todo o seu território. E todos os súditos seguiam os ditames da lei. Só que isso não era necessariamente verdade. Por exemplo, entre os astecas o rei precisava o tempo todo estar agradando os seus súditos. Sua autoridade se baseava em sua sabedoria, na capacidade de compreender as necessidades de seu povo. Entre eles, um homem comum poderia desafiar a autoridade do rei apenas rindo de sua cara. Sim, em sua presença. Caso isso acontecesse, o rei asteca perdia o respeito de seu povo. Por esse motivo, o governante era temido, havia a necessidade dos sacrifícios rituais, de impor respeito e temor em seus corações. Outro bom exemplo disso, é a dinastia Shang, na China, que esteve no poder entre 1600 e 1046 a.C. A noção de soberania real era restrita à pessoa do rei. Como alguém enviado pelos céus, ele era poderoso e possuía qualidades sobre-humanas. Porém, essa é uma qualidade DELE. Se ele dissesse a alguém que deveria cortar o pescoço em sua frente, o súdito fazia sem pestanejar. Suas ordens eram divinas. Porém, quando um súdito saía do raio de ação do seu governante, suas leis não tinham mais força. O governante Shang poderia redigir uma lei tranquilamente, mas ela podia ou não ser obedecida. O rei era todo-poderoso, mas apenas no alcance de seus sentidos.


Mas, voltemos a falar de comunidades sem rei, saindo do Egito antigo. Quando falamos sobre os egípcios, costumamos nos referir a lideranças carismáticas como as primeiras dinastias de Djoser, Quefren e Queops ou de indivíduos valorosos como Akhenaton, Tutmés ou Ramsés. Mas, o Egito teve alguns períodos conhecidos como Intermediários. Queria me focar no primeiro deles que serviu de ponto de mudança para a futura capital em Tebas. Os últimos faraós do reino antigo haviam perdido muito de sua influência e poder, e os nomarcas, chefes locais em regiões do Egito haviam ganhado notoriedade. E eles fizeram isso usando duas estratégias básicas: seja utilizando a burocracia, tornando o abastecimento das cidades algo mais eficiente ou através da religião, seja mantendo algum segredo "místico" relacionado a algum dos deuses egípcios ou alguma fórmula mágica para o reino dos mortos. Então, o que vimos na passagem para o período Intermediário foram administrações paralelas, que não encaravam mais o governante (mesmo este sendo divino, porque os faraós desse período eram encarnações de deuses) como sendo alguém que deveria ser seguido. Historiadores costumam tratar esse período como um mergulho no caos de revoltas internas, mas este não foi o caso. O que se viu foi o surgimento de uma política personalista e autoridades que ganharam o aspecto de serem hereditárias baseadas na valorização do serviço público.


Como último exemplo, queria trazer uma cultura bem complicada de ser compreendida, os osage. Estes eram mais um dos diversos povos do Mississipi e quis trazê-los por conta de sua conformação política curiosa. Este foi um povo que vivia em uma região bem fértil próxima ao rio Missouri e conseguiram ter até mesmo um apogeu em plena Idade Moderna, entre os séculos XVII e XIX. Estes eram povos que viviam em movimento, estabelecendo-se em algumas cidades esparsas poucas vezes ao ano. Nessas cidades eles se espalhavam em um assentamento dividido em duas metades com 24 clãs ao todo. Essas duas metades eram exogâmicas, sendo o povo do céu e o povo da terra. Não vou entrar em mais detalhes do que isso, mas imaginem um povo de forrageadores que alcançaram uma alta complexidade, proporcionando o surgimento de clãs baseados nas forças da natureza, anciãos que alcançavam outro estágio de respeitabilidade na aldeia, a possibilidade de mulheres serem parte de um conselho de notáveis. Tudo isso sem um líder claro. Toda essa conformação surgiu a partir do conhecimento de uma história mítica no qual a administração vai se basear e será respeitada por aqueles que vivem sob a sua égide. Não há questionamentos feitos. O que podemos tirar disso é que a religião ou a mitologia podem calcar a narrativa de um império sem uma liderança clara ou sequer uma oligarquia.


Quis deixar aqui algumas migalhas para podermos repensar algumas certezas que temos a respeito desses cenários. Talvez sair um pouco da linha europeia de imaginar reinos e impérios. Encontrar em outras civilizações modelos possíveis de serem usados para nossas histórias de fantasia. E entender, acima de tudo, que um reino ou uma monarquia nem sempre pode ter um governante visível. Ela pode usar outra conformação de poderes, seja distribuindo entre um grupo social específico, personalizando em uma figura considerada divina ou até pulverizando entre seus integrantes para facilitar o controle. Até mesmo a soberania em si pode ser questionada dependendo da definição dada por um povo a ela. Já exploramos demais os modelos europeus, e até mesmo temos dúvidas no caso de civilizações com menos registros históricos como os cretenses. Então por que não variarmos um pouco? Caso queiram conhecer mais, deixo aqui a referência do ótimo livro no qual pesquisei, que terá informações mais profundas e referências e comentários a outras pesquisas bastante atuais.



Referência:


Nome: O Despertar de Tudo - Uma nova história da humanidade

Autores; David Graeber e David Wengrow

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Não-Ficção

Tradutores: Denise Bottman e Cláudio Marcondes

Número de Páginas: 696

Ano de Publicação: 2022


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*Material recebido em parceria com a Companhia das Letras












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Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. 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