• Paulo Vinicius

Raya e o Último Dragão

A jovem Raya foi nomeada para ser a guardiã de um cristal que contém os poderes mágicos de Sisu, um dragão que se sacrificou para eliminar os Druun da face de Kumandra. Mas, as disputas entre as várias nações do continente colocarão em xeque a confiança que Raya tem nas pessoas e causará um desastre sem proporções.


Desde que Raya foi anunciado em 2019 que tinha ficado animado. Isso porque a Walt Disney sairia um pouco das lendas europeias e abraçaria parte da cultura oriental para contar uma história voltada para um público de todas as idades. Algo que somente a Disney consegue fazer através de histórias como Mulan, Frozen e entre tantos outros. E a animação me fazia pensar em animações japonesas embora com aquele toque ocidental característico. Veio a pandemia que atrasou bastante a produção do longa metragem e complicou a edição, mas o resultado final é lindo. É uma pena mesmo que Raya e o Último Dragão não tenha desfrutado de um palco maior, nos cinemas até para poder se pagar porque ele não foi capaz disso. Ainda sob efeito da pandemia, o longa metragem foi direto para o streaming, ficando por algum tempo no Premier Access, ao qual o espectador precisava pagar um valor mais elevado, mas pouco tempo depois estava liberado. Esse é um filme que valia a pena ter desfrutado de algumas semanas nos circuitos dos cinemas.


Raya e o Último Dragão é uma produção da Walt Disney Animation, com roteiro de Qui Nguyen e Adele Lim, direção de Don Hall e Carlos Lopez Estrada, co-direção de Paul Briggs e John Ripa. Os produtores são Osnat Shurer e Peter del Vecho. Como vocês podem ver, é uma equipe bastante representativa com pessoas vindas de diferentes partes do mundo. Vale assistir um extra disponível no streaming que mostra os bastidores de produção durante o período de lockdown. É um documento histórico sobre um período tão estranho história da humanidade. O filme tem 107 minutos e estreou em março de 2021. A animação é estonteante com belos cenários de fundo inspirados na China antiga. Apesar das nações de Kumandra serem bastante variadas, a gente percebe um elemento coeso que une todos eles. Mesmo os habitantes de Coluna, que representariam um povo do norte da Europa podem ser associados às partes mais elevadas da China, próximas ao Tibet.


Então vamos tentar explicar a história do filme sem dar muitos spoilers. Kumandra é um continente formado por cinco nações: Presa, Garra, Coluna, Coração e Cauda. Há muito tempo atrás, seres chamados de Druun assolaram o continente. Eles são seres amorfos que se alimentam da energia vital dos seres vivos, deixando para trás apenas uma estátua de pedra. Todos os esforços da humanidade para lutar contra eles eram em vão. Um dia, os dragões se envolvem na guerra contra eles e se sacrificam. Sisu, o último dragão concentra todo o seu poder em uma bola de cristal e consegue destruir os Druun para sempre. Mas, ela desaparece no processo. A pedra de energia é guardada pelo povo de Coração que possui um reino pacífico e próspero. Mas, os demais reinos acreditam que a pedra fornece habilidades sobrenaturais aos habitantes do reino, justificando por que eles possuem um lugar tão belo e rico. O chefe Benja, o atual guardião da pedra está cansado dessas brigas entre os reinos, que ocasionou a separação entre eles. Kumandra, o continente unido, não existe mais. E tudo o que Benja deseja é o entendimento entre todos eles. Sua filha Raya acaba de passar no teste para ser escolhida como a próxima guardiã da pedra e isso provoca enorme felicidade a seu pai. Mas, a sua escolha vem com uma tarefa difícil imediatamente. Benja convocou os líderes das outras nações para se unirem e tentarem alcançar um entendimento para a cooperação. Se os dragões não mais existem, cabe aos humanos cuidar de suas terras. Durante esse evento, um acontecimento trágico mudará a história: a pedra que estava sob a proteção de Raya se parte em vários pedaços, o que libera novamente os Druun para atacarem os seres viventes.



A animação me agradou demais, entregando um bom meio termo de uma atmosfera medieval e magnífica com elementos fantásticos. Todo o design de personagens está de parabéns. Os cinco reinos possuem personalidades próprias que são simbolizados na forma de se vestir, de se portar e em suas respectivas cidades. Alguns cenários como o de Coração e até mesmo o castelo de Presa são pinturas. Conseguiria facilmente usar um cenário daqueles como poster no meu quarto. O design de personagens também está lindo. O CGI empregado tem personalidade, movimentação fluida. Não é aquele 3D estranho e robótico. Os personagens parecem feitos de massinha, se movimentando livremente pelo cenário. Aliás, o tipo de movimentação também caracteriza o personagem, seja Raya com uma postura decidida ou Namaari com um estilo mais real. As cenas de ação são bem coreografadas com alguns destaques como a perseguição de Raya a alguns pequenos ladrões e algumas lutas entre Raya e sua rival. A trilha sonora também é bastante competente com sons que puxam bastante a essa veia oriental do filme, mas sem deixar de lado a conexão com o tipo de cena com a qual as músicas são inseridas. Um bom mix de instrumentos musicais e até de ritmos também. Achei a trilha sonora bem completa.


Raya é uma personagem em conflito. A história se passa anos depois dos acontecimentos trágicos e o continente se tornou uma sombra daquilo que foi um dia. As pessoas se tornaram alvos dos Druun que atacam indiscriminadamente. O medo e a falta de coragem se apossaram do coração de todos. Para Raya isso vai mais além. Como os acontecimentos foram provocados indiretamente por ela, Raya não consegue tirar de seus ombros a responsabilidade pelo que ocorreu. Desde então ela se dedica noite e dia a procurar Sisu, o último dragão, aquele que não foi petrificado pelos Druun. Só que seu paradeiro é desconhecido de todos. Ela vai encontrar finalmente a dragão anos mais tarde, e ela já se tornou alguém mais calejada pela vida e pela solidão.


Já nossa último dragão, Sisi, é uma personagem energética e até, de certa forma, inocente. Ela deseja a felicidade a todos e confia de coração em todos os que aparecem diante dela. E, claro, esse jeitinho meio amalucado da personagem vai colocar Raya em enormes apuros. É muito divertido ver a química entre elas porque elas representam espectros emocionais opostos. Enquanto Raya é mais contida, fechada e desconfiada, Sisu é extrovertida e impulsiva. A presença dela se torna essencial para Raya, que estava com o coração partido pelos eventos de outrora. Pouco a pouco, a energia de Sisu contagia Raya que vai lentamente abrindo seu coração. Mas, Sisu vai passar por uma mudança porque ela era a irmã mais nova e menos experiente. Embora detentora de um enorme coração, seus poderes não são os mesmos de seus irmãos e ela precisa descobrir a força dentro de si. Um motivo pelo qual lutar. Essa jornada a levará a conhecer todos os cantos de Kumandra.



A humanidade é responsável pela maior parte dos problemas que acontecem no filme. A ambição humana é o que leva todos a disputarem os poderes mágicos dos dragões. Se eles tivessem se unido no começo, nada disso teria acontecido. De certa forma essa é uma crítica social que podemos trazer nos dias de hoje. E é parte da filosofia oriental. O verdadeiro mal está nos corações dos homens. Essa sombra crescente que se manifesta através da busca de privilégios não merecidos, de vantagens, da manipulação de pessoas, e do poder desmedido. Os chefes das nações são o melhor exemplo dessa problemática como Virana que mesmo mais à frente quando tudo parecia resolvido, a decisão dela é a pior possível. A mentalidade do chefe Benja é completamente ignorada por todos que não foram capazes de compreender o real significado da amizade e da cooperação.


Talvez o ponto central dessa história seja confiança. E isso é o que se torna necessário para todos os problemas que assolam o mundo possam ser resolvidos. Que todas as nações possam confiar umas nas outras para superarem suas dificuldades e diferenças. Que a Sisu encontre a força no interior para conseguir superar suas inseguranças. E que Raya possa novamente confiar nas pessoas porque somente assim ela será capaz de encontrar uma saída para enfrentar os problemas que tanto a colocam para trás. Esses problemas de confiança se revelam até mesmo em sua relação com os seus companheiros. Ela não consegue se abrir completamente para as pessoas porque tem medo de ser novamente traída. Ela e Namaari poderiam ter sido melhores amigas não fosse a ambição de Presa. E anos mais tarde, Raya não se vê capaz de realmente confiar em sua rival. Para ela, Namaari representa a sua falha. A perda de seu pai para uma força maligna. Ao superar isso, ela pode ser capaz de ser uma pessoa melhor.


Este é um filme maravilhoso e que merecia ter sido melhor apreciado pelos fãs. Tenho certeza de que se ele tivesse tido uma oportunidade de estar nos cinemas, teria uma projeção muito maior. A animação está de primeira linha e mostra a evolução tecnológica nos últimos anos ao lidar com CGI. A trilha sonora é também competente, fornecendo as emoções certas nos momentos adequados. As cenas de ação foram bem construídas explorando toda a fluidez de movimentação oferecida pela equipe técnica. As temáticas são bem mais complexas do que parecem à primeira vista. Temos nações que não cooperam, uma menina com um enorme fardo em suas costas e a necessidade de criar confiança uns nos outros.



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