• Paulo Vinicius

Precisamos de vilões?

Será que toda grande história de fantasia ou de ficção científica precisa de um antagonista? Na postagem de hoje vamos citar algumas boas obras onde não há um antagonista claro e mesmo assim a história consegue ser emocionante.


Quantos de nós já não lemos histórias eletrizantes onde o protagonista e seu grupo de companheiros enfrentam diversos obstáculos para enfrentar um grande adversário no final? Existem incontáveis histórias como essa como Senhor dos Anéis onde os heróis precisam enfrentar o terrível Sauron e suas hordas de espectros negros. O mocinho contra o bandido é um dos motes mais antigos para histórias e mesmo que tenhamos mudado a dinâmica ligeiramente nos últimos anos, continuamos a ver variações dessa jornada. Só que e se não tivermos um vilão bem definido? É possível entregar uma história emocionante e impactante? Ou ela perde o seu sumo, se tornando apenas uma viagem efêmera por um lugar desconhecido? Bem, nesta postagem queria apresentar algumas histórias poderosas que podem disparar aquela faísca na criatividade dos leitores.


Bem, começo pelo motivo que me levou a escrever esta matéria e não é nenhum romance, mas um game. Chama-se Y's VIII - Lacrimosa of Dana e é um RPG de ação e que possui uma história bastante curiosa. O protagonista é um aventureiro chamado Adol Christen que está em um navio se dirigindo a novas jornadas que o esperam no horizonte. Enquanto relaxa de suas aventuras, o protagonista ouve lendas sobre uma estranha ilha chamada Seiren de onde as pessoas vão, mas nunca retornam. Parece que ela é encoberta por uma espessa névoa e não se sabe o que se encontra por lá. Após uma noite de festa, o navio é atacado por enormes tentáculos que eles julgam pertencer a uma criatura marinha. O navio é afundado e Adol acorda em uma praia deserta. Explorando a área, Adol consegue encontrar o capitão do navio e alguns sobreviventes e juntos eles montam uma vila de onde eles pretendem construir alguma embarcação rústica para escapar da ilha. Só que essa ilha deserta é a famosa ilha Seiren e logo eles descobrem por que ninguém sobreviveu a ela. A ilha é repleta de criaturas ancestrais, semelhantes a dinossauros chamados de Primordiais. E um dia nessa ilha pode ser uma enorme aventura, com a necessidade constante de sobreviver aos perigos de uma ilha desconhecida e de criaturas saídas de milhões de anos atrás.


Pois é... o objetivo do jogo não é derrotar nenhum vilão, ou retomar um trono perdido por traição ou sequer levar um anel até uma montanha de fogo enquanto enfrenta um poderoso espírito do mal. É fugir de uma ilha. E a história é repleta de voltas e reviravoltas com ruínas de uma civilização desconhecida e mistérios que envolvem passado e presente. Se eu fosse pensar em um grande antagonista dessa história seria a própria natureza. Os obstáculos que os personagens precisam superar são vários e os mais comuns possíveis: atravessar uma floresta enevoada, conseguir comida enquanto foge do ataque de um dinossauro gigante, sobreviver a um pântano repleto de insetos, escalar uma montanha. Poderia falar da jogabilidade do game, mas prefiro me ater apenas à narrativa do jogo que te propõe enormes desafios, deixando-o preso e curioso para saber o que vai vir a seguir. Explorar a ilha envolve os membros do grupo enquanto eles precisam se conhecer e agir como uma grande família para sobreviver em um espaço hostil. Mas, claro, existem interesses das pessoas no grupo e ao lidar com desconhecidos, algumas vezes isso pode levar a bastante confusão. Percebam que a ausência de um antagonista em nada fez da narrativa previsível. Isso porque tudo no ambiente pode ser perigoso. E a história toda gira na exploração da ilha enquanto todos buscam as possibilidades para sair dela.


Mas, consigo pensar em outras histórias que não seguem o mote da sobrevivência. Ana Lúcia Merege escreveu uma história chamada Anna e a Trilha Secreta onde temos a protagonista Anna, uma jovem menina que aos doze anos descobre que é diferente dos outros membros da comunidade em que vive. Existem mistérios que cercam sua origem e isso começa a afetá-la profundamente. Um dia, uma coruja pega a sua bolsa, um objeto extremamente importante para ela. A personagem precisa entrar em uma floresta que é protegida pelos espíritos guardiões e lá estes espíritos vão propor uma série de desafios que ela terá de superar para atravessar determinadas áreas.


Apesar da simplicidade da proposta, é uma história sobre autoconhecimento. E se passa em um universo de fantasia com bastante material criado. Ana Lúcia Merege é uma autora que gosta de trabalhar com histórias cotidianas, explorando como os personagem reagem em ambientes diferentes do nosso realizando tarefas comuns. O fantástico se encontra no corriqueiro, no quanto podemos descobrir mais sobre nós mesmos. Não há um antagonista claro também aqui. Se pudéssemos talvez pensar em algo que se assemelhe a um, poderia ser a própria protagonista com suas ansiedades e medos. A história não deixa de ser emocionante e os desafios propostos são tensos e nos deixam preocupados quanto ao que acontecerá a ela. A narrativa é, mais uma vez, explorar um território desconhecido, mas enquanto faz isso, Anna procura conhecer a si mesma. Pensando poeticamente, o próprio coração de Anna é uma cenário desconhecido e cheio de obstáculos que ela precisa superar.


Saindo um pouco do gênero de fantasia, consigo pensar em um livro de ficção científica que também explorar essa noção do desconhecido: Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke. Talvez um dos clássicos mais celebrados do autor, a humanidade sofre com a queda de um enorme meteorito em plena Europa que devasta cidades inteiras. Uma catástrofe de consequências globais que coloca toda a sociedade em uma corrida para se proteger de um novo desastre como esse. Várias décadas mais tarde, um meteoro ainda maior se dirige para a Terra. A repetição de uma situação desastrosa, detectada com antecedência graças a um sistema de monitoramento planejado previamente por conta do que aconteceu antes, permite à humanidade buscar formas de lidar com o enorme objeto. A solução encontrada é enviar uma expedição até o meteoro para colocar explosivos e buscar desviar a rota do mesmo. Só que eles não estavam preparados para o que encontram no meteoro: uma construção provavelmente pertencente a uma civilização avançada que possui uma série de enigmas que deixam os membros da tripulação atônitos. A história vai girar na exploração de Rama, como os humanos chamaram o meteoro, e o desvendar de seus segredos.


A história é meramente a exploração de um objeto deixado por uma civilização avançada para descobrir se a humanidade era digna ou não de um encontro com eles. Isso é algo que percebemos desde o começo da história, mas Rama possui tantos mistérios e enigmas que ficamos torcendo para que a tripulação consiga descobrir os próximos passos. Como superar um determinado obstáculo ou decifrar um código que vai permitir abrir novas etapas. Clarke criou uma narrativa que parece uma enorme cebola, repleta de mais e mais camadas. E o ser humano é movido à curiosidade. Enquanto exploramos juntos o enorme objeto, o autor aproveita para discutir questões sociais como igualdade e liberdade. Tudo é feito de uma maneira tão sutil que muitos permanecem apenas na leitura superficial que se revela ser apenas a exploração de algo fora da compreensão humana.


Não podemos esquecer, é claro, do fantástico A Estrada, do autor Cormac McCarthy. Na narrativa descobrimos que a humanidade foi vítima de algum tipo de praga que dizimou a maior parte dos seres humanos. Somos deixados com um fiapo de civilização para trás, onde as pessoas passaram a pensar apenas em si mesmas. Vemos a jornada de um Pai e seu Filho, ambos não nomeados por um mundo que tornou todos mais selvagens e menos humanos. A narrativa gira em uma espécie de road trip feita pelos dois personagens nesse estranho mundo em que eles aprendem lições valiosas sobre a vida e o que os une como pai e filho. É uma jornada que vai levá-los a conhecer o lado mais obscuro do homem. A história não tem um antagonista específico, e os perigos são representados pelo ambiente estéril em que eles vivem, além dos resquícios da humanidade que ficaram para trás. Os momentos mais tensos da história acontecem justamente quando eles encontram esses bolsões de pessoas e o autor usa esses momentos para explorar o que nos move como pessoas e o que nos torna seres gregários e sociais. Vejam como McCarthy conseguiu criar um mundo desafiador sem precisar nomear um vilão ou um bode expiatório. A narrativa visa a sobrevivência e o entendimento entre os personagens.


Como pudemos ver através destes três exemplos, é possível criar histórias que fujam da dinâmica de bem contra o mal, de herói contra vilão. Mesmo que a gente subverta essa dicotomia, muitas histórias acabam presas na necessidade de apresentar uma figura concreta na qual o protagonista precisa fazer algo a respeito: derrotar, prender, libertar, exilar, matar. Mas, é possível criar outros tipos de histórias sem perder o interesse do leitor. Histórias cujos desafios estão seja na sobrevivência a um lugar estranho ou na necessidade de encontrar aliados para superar determinados desafios. Ou pode até ser algo mais intimista e conhecer a si mesmo, tentando amadurecer e se tornar uma nova pessoa. A literatura de gênero pode te fornecer opções alternativas para que você crie sua história e apresente algo novo e emocionante para aqueles que irão ler sua história.



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