• Paulo Vinicius

Os problemas de logística em financiamentos coletivos

Com o aumento de autores e editoras embarcando na onda dos financiamentos coletivos, os problemas começaram a aparecer (ou já estão aí há muito tempo). Um deles tem a ver com os envios, os prazos de entrega e o começo das vendas fora do projeto inicial. Vamos conhecer mais este assunto nesta matéria.


Diante de um cenário nacional de crise econômica, falência de livrarias e achatamento do mercado editorial, os financiamentos coletivos surgiram como uma opção alternativa de publicação. Vários desbravadores tentaram a sorte, descobriram o sucesso e agora mais e mais empresas usam esta modalidade de publicação para colocar à venda os seus sonhos e projetos. Mas, à medida em que as plataformas de financiamento coletivo ganham mais e mais popularidade, os problemas se tornam mais transparentes. Sou da opinião que não podemos colocar todas as nossas fichas em apenas uma modalidade de publicação e esquecermos todas as outras. Até porque os problemas no mercado editorial estão aí e precisam ser corrigidos com ação governamental e dos demais players. Quanto aos financiamentos, surgiram diversas problemas que tem afetado a experiência dos apoiadores e os feito questionar sobre a validade ou não de dar seu voto de confiança em um projeto. O mau planejamento ou as dificuldades em se entender a essência de um projeto por algumas editoras podem acabar prejudicando outras a médio e longo prazo. Vamos discutir um pouco esse assunto porque ele é bastante espinhoso.


Não pretendo nesta postagem citar nomes de editoras, seja para elogiar ou para criticar. Essa não é a proposta dessa matéria. Nem quero transformar esse espaço de debates em um muro das lamentações sobre sonhos perdidos. Acho que precisamos criticar para provocar mudanças, fazer os envolvidos em financiamentos repensarem suas práticas e fazê-los perceber que ao atropelar as etapas do processo os prejudicados não serão apenas eles, mas todos os outros. E, mais do que isso: perceber quando o financiamento coletivo não é mais o seu espaço. E que economizar os 55% de e-commerce podem ser mais interessantes a longo prazo do que um lucro excessivo em uma plataforma que não mais te representa.


São vários os problemas que começaram a afetar as editoras e vamos abordar por partes. Quero começar pelos problemas de comunicação que se tornaram tão comuns para a decepção de alguns. Muitas vezes o projeto obtém uma boa recepção e consegue captar bastante recursos, mas o autor/editora não se comunica mais com o apoiador. Os emails com feedbacks e a apresentação das etapas de produção vão se tornando mais e mais espaçados, o que gera frustração e ansiedade. Temos casos de projetos que levaram mais de um ano até termos alguma novidade do criador do projeto. E em vários desses casos, eram emails protelando por esse ou aquele motivo. Como alguém que trabalhou na iniciativa privada antes de ser funcionário público, considero complicado essa falta de apego a entrar em contato com o cliente. É possível compreender que a vida acontece e somos vítimas do imponderável. Acabamos de passar por uma pandemia que ceifou várias vidas, tirou emprego de muitas outras e nos fez viver ansiedades e medos. O apoiador consegue entender essas adversidades contanto que ele saiba o que está acontecendo.


No livro Crowd - O Guia do Financiamento Coletivo para autores e editores de livros, Marina Ávila e Valquiria Vlad destacam a importância do contato com os apoiadores:


"Se esse contato não acontecer, os apoiadores podem se sentir abandonados e ligarem a sua imagem, enquanto realizador, a algo negativo, criando uma maior desconfiança na hora de apoiar novos projetos seus no futuro."

É preciso sempre estabelecer um canal de conexão direta e frequente com o seu consumidor. Mantê-lo informado sobre os obstáculos e os percalços do pós-produção. Mesmo que seja para informar que houve a necessidade de refazer cálculos ou que uma gráfica não quis manter o preço estipulado anteriormente. Feedbacks podem ser positivos ou negativos. O que importa é que o criador do projeto precisa ser honesto e sincero com o seu apoiador para gerar o sentimento de segurança e confiança no produto que ele apoiou. Como alguém que acompanha e participa de diversos financiamentos coletivos, o que percebo é que alguns criadores subestimam o poder e o alcance de seu produto. Fazem corretamente as etapas iniciais do seu projeto, realizam uma boa divulgação e o projeto consegue ser apoiado antes do prazo final. E ficam presos na mania da meta estendida. Não conseguem recalcular adequadamente o novo projeto com as metas estendidas e o que acontece é uma explosão de novas informações e brindes entulhados que encarecem o envio, escapando do controle do criador. Ou então, no caso de uma HQ, o criador do projeto oferece como meta estendidas 10, 20, 30, 40 páginas e não sabe o que e como fazer para entregar tantas páginas novas que ele assumiu como responsabilidade.


Em um caso como o descrito acima, NÃO PROMETA O QUE NÃO PODE CUMPRIR. É legal ver uma campanha batendo uma série de metas estendidas. Demonstra o carinho do público para com o projeto, como uma torcida de um time de futebol apoiando os seus jogadores do coração. Só que esse amor pode se transformar em desgosto da noite para o dia caso as promessas não sejam cumpridas. E os apoiadores que antes torciam para que a campanha desse certo e fizeram com que ela batesse todas as metas, irão destruir o criador nas redes sociais, criando uma forte resistência em campanhas futuras. Seja simples em suas promessas. Faça o que pode ser feito. Só uma mudança de um livro de capa brochura para capa dura já envolve uma série de novos cálculos de impressa, armazenamento e envios. Invista nas potencialidades de seu material: fitilhos, marcadores de páginas, verniz localizado, pintura trilateral. Investir em um material de qualidade para os apoiadores do projeto em si pode ser benéfico e não gerar tantas dores de cabeça.


Uma segunda situação que acontece com bastante frequência tem a ver com os prazos de entrega. Ao colocar os prazos de entrega na página da campanha, vejo que se tornou cada vez mais comum não cumpri-las. São poucas as editoras que realmente cumprem esse prazo ou à risca ou com poucos dias ou semanas de atraso. Não quero nomear editoras, mas estas quase sempre são bastante laureadas por sua ética como empresa. Talvez o mais grave nem seja o atraso nos envios (e isso já é bem grave), mas iniciar outras campanhas enquanto os produtos anteriores ainda não foram enviados. Como um estudioso de mercado editorial, compreendo a necessidade de fazer a máquina rodar e precisar manter o saldo positivo de uma editora. Porém, na maior parte das vezes pega mal para a editora ter quatro, cinco, seis produtos em atraso enquanto cria outras quatro, cinco, seis campanhas. Ou quando a editora perde o controle da linha de produção e produtos que tiveram campanhas posteriores acabam sendo enviados antes de outros que estavam em espera. Isso é uma experiência enervante e frustrante. Voltando ao livro Crowd,


"O atraso na entrega de projetos é algo comum, afinal, dezenas de imprevistos podem acontecer no meio do caminho da produção: a tradução pode atrasar, a gráfica pode agendar a entrega para outras datas, o livro pode chegar com defeitos de impressão e precisar de ajustes..."

O que enerva mais é a percepção de que o livro se tornou mais uma engrenagem na linha de produção e o apoiador deixou de fazer parte de um momento especial. Em um caso como o citado acima, o ideal é pisar no freio. Compreendo a necessidade de formar um caixa e tocar vários projetos. Mas, se o seu projeto não é entregue no período certo, isso só vai gerar desconforto. Por mais que o produto final seja de alta qualidade, o que o apoiador vai se lembrar é do atraso, do descaso, da ausência. Calcule experiências realistas sobre a entrega do projeto. Estique prazos. Crie uma margem de segurança que possa servir como um colchão para atrasos que são inevitáveis em muitos casos. Mesmo se você esticar demais e puder entregar antes, maravilha, será um apoiador feliz que irá compartilhar o produto que recebeu e ressaltar a ética da empresa. Adiantar nunca é um problema; atrasar sempre é.


Do caso anterior, tem um agravante que vai me levar a esses parágrafos finais de raciocínio. Tem casos comprovados de produtos financiados em campanhas de financiamento em que alguém que adquiriu o produto no pós-campanha através da lojinha virtual do autor/editora recebeu antes do apoiador. Esse é um problema bem complicado de se discutir porque vamos chegar a um ponto patente nas minhas avaliações sobre alguns autores/editoras em financiamentos coletivos: CAMPANHA DE FINANCIAMENTO COLETIVO NÃO É PRÉ-VENDA. E muitas editoras transformaram as plataformas em lojas virtuais para si. Isso porque algumas plataformas tem porcentagens de cobrança bem baixas em comparação a e-commerces. Por ex: o Catarse cobra 13% em cima da venda do produto enquanto a Amazon cobra 55%. Então, alguns players acharam melhor usar a plataforma como local de pré-venda. Nesse caso dos prazos e entrega, isso é uma demonstração cabal de como logística pode dar errado. Ainda mais em várias dessas empresas que possuem um departamento de pessoal enxuto ou, na maior parte das vezes, é o eu-lírico editor e este acaba assoberbado com os empacotamentos e envios. Isso só não afeta a lojinha virtual porque, em alguns casos, se usam plataformas online de venda e estas não estão diretamente interligadas com o processo de envio da editora. São empresas terceirizadas que realizam a venda e o envio antes do produto chegar futuramente a um e-commerce.


O criador da campanha precisa levar em consideração se vale ou não a pena vender um produto em uma plataforma. Vale o stress do feedback negativo? Será que o lucro de pagar 13% ao invés de 55% vale as críticas, o questionamento? Essa forma de abordagem ao apoiador pode gerar uma desconfiança e uma queda de vendas no futuro. Às vezes, o projeto começa com uma série de produtos fantásticos apenas para sofrerem com apoiadores insatisfeitos com o tratamento e a geração de uma resistência à aquisição e participação de projetos deste criador. Já se tornou bastante comum ouvir nas redes sociais o "Ah, aquela editora? Nunca mais participo de nada dela" ou um apoiador que por conta do stress com um autor/editora não deseja mais empenhar o seu tempo e dinheiro em participar de uma campanha qualquer. O LUCRO MAL INTENCIONADO DE HOJE SERÁ O PREJUÍZO CERTO DE AMANHÃ. E não é só o prejuízo de um criador em específico, mas de toda uma cadeia produtiva. Eu mesmo já tenho umas cinco ou seis editoras de quem não apoio mais nada na plataforma. Indico, compartilho novidades, mas não apoio.


"O crowdfunding é um momento de experiência para o apoiador, não uma venda direta."

E chego no meu último ponto. Várias campanhas hoje são usadas em sua modalidade flex como uma forma de garantir que o apoiador irá receber o seu produto. E isso é válido porque é uma garantia de que o produto vai chegar em nossas casas. Mas, não podemos confundir a experiência de participar de uma campanha de financiamento coletivo com a pré-venda de um livro ou quadrinho. O que faz uma campanha especial é participar das etapas do projeto, poder acompanhar o carinho e a dedicação dos criadores, escolher capa, ter seu nome eternizado no final do material demonstrando que o apoiador foi um co-autor. Crowdfunding nada mais é do que uma vaquinha; o apoiador é um sócio do projeto. A FALHA DE ALGUNS AUTORES/EDITORAS É TRATAR O APOIADOR COMO CLIENTE. E isso não é verdade. Isso fica claro em alguns "acidentes de percurso" que tem acontecido quando o projeto do crowdfunding vai parar em um e-commerce e seu preço de capa é menor do que no financiamento. E vem com as mesmas coisas, sem tirar nem pôr. Passa a impressão de que o apoiador foi enganado e seu apoio não teve o menor valor além de garantir o pagamento de apenas 13% de taxa pelo autor/editora.


Algumas editoras oferecem brindes como marcadores especiais, bookplates (ô, mania dos infernos essa do bookplate...), bookplates dourados, prateados, lilases, rosa-choque. Claro que esses brindes vem, mediante pagar 5 ou 10 reais a mais no apoio. Mas, espera aí... não é um brinde? Brinde não deveria ser gratuito? BRINDE QUE NÃO É GRATUITO NÃO É BRINDE, É PRODUTO DE VALOR AGREGADO. Se torna um custo a mais para o apoiador que pensa estar adquirindo algo especial, quando não se trata bem disso. A gente precisa ter mais seriedade na forma de tratar o apoiador. Repito: ele não é um cliente, mas um co-autor. Quando ele não se sente mais parte do processo, ele abandona o barco. Foi o que disse em cima: o apoiador pode apoiar agora e nunca mais apoiar projeto nenhum posteriormente. O lucro de hoje não se reverteu em lucros futuros. No momento de pensar a campanha, os brindes e mimos precisam fazer parte da experiência especial que é participar do projeto. E até é possível criar gradações de apoios + brindes desde que não deixe transparente ao apoiador que ele está pagando para receber aquele maldito bookplate (pior que na maior parte das vezes esse bookplate nem é autografado, sendo apanágio dos 100 madrugadores que apoiaram primeiro).


Para fechar, acho que vale uma crítica um pouco mais dura quanto a alguns autores/editoras: o modelo de financiamento coletivo contempla o seu projeto? Porque se a resposta for apenas baseada na redução da taxa de venda, então minha sugestão é repensar seus objetivos. O que percebo com transparência cristalina hoje é que algumas editoras não mais se enquadram neste perfil da vaquinha. São apenas editoras. E eu prometi não citar nomes, mas vou citar um só já que usei o livro escrito por elas para fundamentar meus argumentos. A Editora Wish é um colosso hoje dentro da plataforma do Catarse porque a Marina e a Valquíria compreenderam à exaustão a filosofia do que significa apoiar um produto. Vejam que suas produções hoje ultrapassam o simples financiamento. Alguns de seus projetos são vendidos diretamente ao cliente e nem passam pelo Catarse. Nunca vi uma campanha da Wish se interpolando com outra. Mesmo que isso reduza a quantidade de materiais produzidos ao longo do ano. Elas possuem um foco em entregar o Produto Mínimo Viável (uma de suas filosofias) ao mesmo tempo em que mantém um alto padrão de produção. Todas as suas campanhas possuem um caráter especial para o apoiador que sempre recebe bastante carinho e atenção da parte das editoras. Mesmo quando o produto passa a ser vendido, existe uma diferenciação clara entre o que foi entregue durante a campanha e o que chegou nas mãos de quem comprou depois. O nome disso é respeito. E elas garantem hoje um público mais fidelizado. Aqueles que apoiam seus projetos, SEMPRE retornam depois. Porque entendem a seriedade do que é produzido e entregue. Que isso fique de lição a quem estiver lendo.


Espero ter conseguido ser construtivo em minhas frases. Que não sejam entendidas como ataques ou ofensas, mas como maneiras para que autores/editoras reflitam sobre o seu papel dentro dessa forma de publicação. Influenciadores de conteúdo como eu compreendem o quanto o mercado editorial está realmente difícil, mas não é através de atalhos ou práticas questionáveis que vamos conseguir dar a volta por cima. Em um caso como esse o caminho mais rápido entre A e B não é uma reta, mas uma espiral.




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