• Paulo Vinicius

Os diferentes formatos de publicação no mercado americano

Vamos conhecer os principais formatos de publicação de livros nos EUA. Suas características e suas diferenças para aquilo que fazemos no Brasil. Ao final farei alguns comentários sobre o que poderíamos fazer de diferente.



Estamos em um eterno debate sobre o mercado editorial no Brasil. Principalmente depois das sucessivas crises que abateram todos os pontos da indústria dos livros desde as livrarias passando pela distribuição e até a obtenção de direitos. Na matéria de hoje queria questionar algumas certezas que temos sobre a produção editorial. Algumas qualidades, alguns defeitos e algumas perguntas a serem feitas. Queria mostrar o formato dos produtos vendidos nos EUA, um formato mantido há décadas em um mercado mais maduro que o nosso. Apesar de ter algumas variações nestes formatos, estes são os três mais básicos. Trago a vocês porque temos uma falsa impressão sobre o que é produzido lá fora, naquele eterno complexo de vira-lata.


Para esta amostragem usei três materiais distintos, todos de literatura de gênero e bastante recentes (salvo o Mass Market que é de uma série famosa).



1 - Hard Cover ou Capa Dura



Esse é o famoso capa dura, a edição mais cara e luxuosa dos três modelos. Percebam que a edição é, sim, mais bacana e bem produzida, mas ela não tem nada muito espetacular. Geralmente essas edições vem com a chamada jacket ou dust cover cobrindo a capa dura. Por baixo temos uma encadernação bem simples que aqueles que tiverem mais idade vão associar a livros de coleção ou enciclopédias. A capa dura em si não tem imagens ou ilustrações tendo apenas o nome do livro, do autor e um ícone ou algo que lembre a história em baixo relevo. O tipo de papel empregado não é informado, mas pela experiência que eu tenho é algo que se assemelha ao pólen ou ao pergaminho, mas mais fino. A encadernação é costurada com cabeceado o que dá uma flexibilidade ao manuseá-lo. Só que isso varia de editora para editora; já peguei alguns que são péssimos para ler o miolo. Ou até mesmo o tipo de papel em algumas é mais puxado para o branco.


Sobre luxos maiores como pintura trilateral ou verniz aplicado, é bem raro. Somente em edições especiais ou comemorativas como a de Um Tom mais Escuro de Magia que tinha pintura vermelha nas laterais e ilustrações ou a edição de Stormlight Archive que foi financiada pelo Kickstarter. Esse tipo de adereço é uma coisa mais brasileira do que do mercado americano. No geral, as edições capa dura americanas possuem um bom custo-benefício. Antes da escalada do dólar, conseguíamos encontrar esses livros a valores bem legais. Livros mais novos custam entre 25 e 40 dólares, mas passado um ano eles podem ser encontrados pela metade desse valor. Infelizmente com um dólar beirando os seis reais, eles avançaram para mais de 120, 150 ou até 200 reais.


2 - Trade Paperback (TPB) ou Brochura


Esse é o modelo mais comum de livro. É o nosso brochura e é o brochura americano. Existe um detalhe na produção deles. Na maior parte das vezes, a publicação do hard cover vem primeiro. Os lançamentos são feitos em capa dura e de 10 a 12 meses depois o brochura é lançado como uma forma de atrair novos leitores. Então capa dura e brochura caminham juntos e atendem a diferentes tipos de público e a tipos de bolso. Com uma popularização maior do gênero de fantasia e ficção científica, algumas editoras tem adotado estratégias diferenciadas. Algumas lançam direto no formato brochura, principalmente quando são trilogias compiladas em um único volume. Outras publicam o brochura primeiro e depois uma edição hard cover mais luxuosa. Varia muito de editora para editora. Por exemplo, a trilogia Binti (o de cima é o segundo volume da série, que no Brasil vai ser publicada em um só volume) foi publicada primeiro em brochura e depois teve uma edição em capa dura com novas capas e um prefácio da autora.


Não sei se foi possível perceber, mas a maior parte dos livros brochura americanos não tem orelhas. São capas simples, na maior parte papel cartonado ou um papelão bem simples. Alguns deles tem verniz aplicado, mas bem poucos mesmo. As primeiras páginas são dedicadas a colocar citações de autores ou de críticos, então é bem comum termos mais de 5 ou 10 páginas só com quotes. No final, algumas editoras maiores como a Tor, a Ace, a DAW e a Saga Press costumam colocar trechos de outros livros para degustação. Em alguns casos, são trechos do volume seguinte da série ou livros do mesmo autor, mas o normal é que sejam livros completamente aleatórios. A encadernação é colada, e não é incomum os livros descolarem depois de algum tempo de manuseio. O papel é o mais simples possível, sendo na maior parte dos casos de um tipo branco e rugoso. Em vários momentos eu achei que era papel reciclado, mas pesquisando melhor descobri que é um tipo simples de papel de uso nos EUA em obras de maior circulação. É bem incomum o uso de papel pólen. Nada de pinturas trilaterais ou ilustrações salvo em raríssimos casos.


Só um parênteses porque preciso compartilhar o meu grau de espanto com os livros brochura de Stormlight Archive, de Brandon Sanderson. Aqueles que conhecem o autor, sabem que são livros que tem em média mais de mil páginas. Pois é... eles usam papel que lembra muito aquele papel seda, branco e totalmente transparente. Até no volume 4 eles usaram esse papel. Bem frágil e que sofre com a umidade com bastante facilidade. Ou seja, a ideia de um brochura mais elegante com capas com orelhas e até com um papel firme em comparação com o miolo é algo brasileiro também. A maior parte das editoras não se preocupa muito com imagens de capa, sendo que em alguns casos temos imagens bem cafonas e bregas na frente. Existem casos de editoras que se preocupam bastante com o projeto gráfico como um todo, mas é incomum também. O valor desses livros é mediano e o custo-benefício é problemático de medir por causa da própria concepção do TPB. Seu custo varia entre 10 e 30 dólares e ele demora a cair de valor. O que eu percebi é que eles costumam baixar entre 2 e 5 dólares, com produtos encalhados podendo ser vendidos pela metade do preço. Infelizmente no Brasil, na atual conjuntura não é incomum encontrarmos TPBs por mais de 100 reais. Para quem deseja comprar, minha recomendação é, não compre. Se você quiser realmente o título prefira os extremos, ou um hard cover legal que vai te recompensar como consumidor ou um mass market paperback pelo valor.


3 - Mass Market Paperback ou Edições Econômicas



Chegamos ao tipo mais econômico de produção. São produtos bem baratos e pensados como algo descartável. Segue a mentalidade dos livros pulps do início do século XX como um produto de entretenimento. A capa é bem comum, sendo um papelão maleável com uma ilustração brilhante e o tipo de papel é o papel jornal. Sim, aquele mesmo. Que no Brasil é conhecido pejorativamente como papel higiênico. O tamanho do livro também chama a atenção, sendo 10,5 x 4. Ou seja, é um pocket book literalmente, pois realmente cabe no bolso. Sua encadernação é colada e não há uma preocupação muito grande com durabilidade. Até por ele ser baratinho, eles costumam amarelar bem rápido. Tenho livros com dois anos de idade e que parecem ter bem mais do que isso.


No Brasil, os pocket books entraram em desuso. Principalmente por que o seu valor não compensava o investimento. Eles chegavam a ter o preço de um brochura atualmente. Nos EUA, são livros que tem o custo entre 2 e 10 dólares, podendo chegar aos centavos bem facilmente. Já comprei um livro novo da Robin Hobb a 0,89 centavos (e apanhei no frete). A política de publicação dos mass market é semelhante à relação que o brochura tem com o hard cover. Os econômicos são lançados um ano depois dos TPBs, compartilhando o espaço com os outros dois tipos. A ideia das editoras é criar faixas distintas de qualidade e preço atendendo a outros tipos de consumidor.


Alguns comentários:


Quis trazer esse comparativo não para complicar ou polemizar em relação à indústria do livro no Brasil. Até por que eu sei os problemas oriundos da simples impressão de um tipo específico. E a ausência de um público que seja consumidor. A ideia aqui é mais pensar em possibilidades, encontrar saídas. Reclamamos tanto dos preços dos livros, questionamos por que um livro X, Y ou Z é publicado em tal e qual formato. Se ele fosse publicado em outro formato, não viria mais barato? Talvez. Isso por que o projeto editorial é só UM dos fatores que encarecem a linha de produção. Pensando no livro com projeto, entra também a disponibilidade de tipos de papel (no Brasil só temos duas famílias de papel que são mais empregadas, a Off-White e a Pólen). O papel jornal não é mais vendido no Brasil, sendo que a importação dele acaba custando mais caro que o Off-White. O fator gráficas também entra no meio, já que os preços delas variam, como também variam a encadernação, qualidade de impressão, tipo de tinta empregada. Isso por que estou mencionando apenas os aspectos gráficos da produção, não mencionando toda a parte que tem a ver com o textual, com o marketing, com a distribuição/logística e a venda em lojas. Existe uma cadeia de custos aí.


Mas, preciso tecer alguns comentários. Antes de mais nada, é preciso elogiar as editoras no Brasil por se preocuparem com um projeto editorial mais elegante e curioso. O simples modelo brochura é melhor, em alguns casos, do que o hard cover americano. Por um preço adequado ao mercado nacional. Existe um cuidado até com a guarda da capa, algo que nem passa pela cabeça das editoras americanas. Tendo dito isso, preciso fazer a minha crítica em dois planos: o plano das editoras e o dos leitores. Existe uma percepção editorial de que é necessário apresentar um produto que seja nitidamente luxuoso como uma forma de compensar o leitor por pagar mais caro em um livro. De que é preciso preencher a noção do leitor de uma venda percebida como algo justo. Quando não é, necessariamente.


Algumas perguntas:


A capa dura não acrescenta tanto assim no valor final? Depende. 3 ou 4 reais se a quantidade impressa for grande. Mais se a tiragem não for tanta assim.

O tipo de papel não acrescenta tanto assim? Depende da gráfica. Tem gráficas que cobram mais, tem outras que abatem no caso de fidelidade.

Não faz mal colocar uma ou duas ilustrações coloridas? Faz sim. Impressões coloridas já mudam completamente o valor final.

Ah, a orelha não faz tanta diferença assim? Verdade. Porque no Brasil se imprime em um tamanho maior do que é o do livro em brochura. A sobra em si se transforma na orelha. Mas, a gente esquece que o miolo também é impresso nesse mesmo tamanho maior e precisa passar pela faca antes de ser colada na capa. Ou seja, acaba custando mais sim porque a gráfica incute no valor o desperdício de papel (esse que foi cortado e que tem o tamanho de uma orelha).


Não sei dizer o quanto essas quatro pequenas coisas impactariam no valor final. Mas, algumas editoras buscaram encontrar formas alternativas para burlar preços maiores. A editora Morro Branco reduziu o tamanho da brochura e da fonte empregada no miolo para que livros mais grossos tenham menos páginas. A DarkSide Books faz tiragens bem grandes, mesmo sendo um produto luxuoso, e consegue descontos maiores na produção. Editoras independentes tem procurado investir em tamanhos econômicos.


Por outro lado, o leitor se acostumou com um tipo de mentalidade editorial que encarece o produto final. Quando a DarkSide entrou no mercado, ela chegou com uma proposta inovadora que eram os produtos luxuosos que atraíam os leitores. E isso representou algo inédito e teve uma reação muito positiva para o mercado. Os materiais de luxo ganharam popularidade e se tornaram comuns hoje. Depois a Aleph trouxe as pinturas trilaterais que nos brindaram com livros lindos como Solaris. Ou as capas encomendadas a ilustradores como o Marc Simonetti que ilustrou capas de toda a série de George R.R. Martin no Brasil e as de Duna também. O Pipoca e Nanquim trouxe o verniz localizado, as capas com gramatura diferentes, a preocupação com o tipo de papel. Isso serviu para qualificar o mercado editorial e transformou a forma de publicar. Mas, ao mesmo tempo teve um efeito nocivo: os sommeliers literários. O produto livro deixou de ser percebido como algo a ser consumido e passou a ser ostentado. Existem muitos leitores que se preocupam mais em como o livro vai ficar na estante do que o que tem no seu interior. E as cobranças feitas às editoras se tornaram cada vez maiores. Seja um questionamento quanto ao tipo de papel usado ou qual a ilustração que vai estar presente na capa. Vou comprar o livro X por causa da sua capa ou de sua guarda e não o livro Y porque não tem verniz na lateral.


Isso é incômodo porque foi algo que o próprio mercado editorial nacional criou. É um Frankenstein que não tem como desaparecer mais. A menos que se reduza o tipo de formato empregado. Acho que as editoras precisam repensar a forma como esses materiais serão produzidos. Porque chegou a um ponto em que o livro acaba encarecendo por pressão dos consumidores por um produto de luxo que não ressalta o seu conteúdo. O que importa de fato no livro é a experiência literária que ele entrega ao leitor. Ser maravilhado pelas palavras de Borges, pelos mundos de Le Guin ou pelas insanidades de Philip K. Dick. Só que isso se perde em um cenário em que a imagem da capa de um livro do Dick é mais comentada do que a revisão de tradução feita pela Aleph. É uma crise de cunho filosófico na relação do leitor com o seu livro. E é um papo para outro dia.



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