• Paulo Vinicius

Orwell e a noção de verdade

No pequeno livro Sobre a Verdade foram reunidos uma série de artigos onde George Orwell se debruça sobre vários acontecimentos onde o principal tema de conexão é a definição do que é a verdade.



Recentemente a obra de George Orwell passou para domínio público. Com isso vamos ter um enorme afluxo de adaptações e ressignificações acerca de seus trabalhos. A Companhia das Letras tem sido uma das principais editoras no Brasil a trazer obras do autor. E algumas delas despertam bastante interesse para a nossa sociedade como um todo. Sim, 1984 e A Fortuna dos Animais (novo título adotado para A Revolução dos Bichos) são obras seminais, mas Orwell foi um ativista e publicou artigos em diversas revistas e jornais. Algumas de suas matérias foram parar em coletâneas de não-ficção onde ele falava sobre temas como desigualdade social, o fascismo, suas previsões para o futuro. No pequeno livro de bolso Sobre a Verdade, foram reunidos diversos artigos do autor onde ele fala sobre assuntos os mais variados, mas o tema de ligação entre eles é a verdade. Percebemos o quanto Orwell tinha uma obsessão em entender como a nossa sociedade entendia o que era a verdade, conceito esse diferente da mera significação denotativa.


É preciso contextualizar o livro: ele possui artigos que vão desde 1934 até 1949, o ano de sua morte. A Europa passava por um período conturbado do Entre-Guerras e da Segunda Guerra Mundial. Um dos acontecimentos mais trágicos e definidores do que seriam os próximos anos foi a Guerra Civil Espanhola onde os países da antiga Tríplice Entende assistem pasmos a Alemanha testando seus equipamentos militares em uma enfraquecida Espanha que passa para o domínio do general Francisco Franco. Era uma demonstração de força do fascismo e um desrespeito cristalino ao acordo feito no Tratado de Versalhes, em 1919, que impedia os alemães de terem um exército fixo. Hitler colocava seu rosto para a multidão e com um discurso inflamado acendia o nacionalismo alemão, tocando nos sentimentos de um povo que desejava revanche pela humilhação do pós-Primeira Guerra Mundial. Inglaterra e França nada fizeram para deter o desastre ocorrido na Espanha e isso dava combustível para que Hitler pudesse tocar adiante suas ambições.


A Inglaterra ainda se recuperava do alto custo da Primeira Guerra Mundial: economia paralisada pelo esforço de guerra, altos gastos com a produção de equipamentos bélicos e mais de um terço da força de trabalho masculina em idade ativa perdida ou traumatizada pelo conflito. É nesse momento do Entre-Guerras que a Inglaterra se volta para suas colônias na África e na Ásia em um movimento imperialista selvagem que vai ajudar a destruir diversas culturas e a desequilibrar as conjunturas locais. Orwell vai observar de perto essas relações e chega a ir até esses locais onde descreve as desigualdades e abusos dos superintendentes coloniais. Ao mesmo tempo ele também vai passar alguns meses trabalhando no porto e observando a dinâmica das relações sociais, percebendo o quanto o governo inglês era inepto para lidar com uma população que caía cada vez mais em uma situação difícil.



Mas, o que isso tem a ver com a definição de verdade? Um dos pontos mais importantes na década de 1930 foi o quanto a propaganda se desenvolveu. Propaganda do radical propagar, espalhar, difundir. A indústria da informação tem suas origens nesse período principalmente a partir da formulação de especialistas como Goebbels, o ministro alemão da propaganda. A ideia era criar sólidas bases de sustentação para que um governante pudesse realizar seus trabalhos com calma e paciência. Para isso, Goebbels percebeu que o apoio da população se tornava cada vez mais importante para a estabilidade de um governo. Para aqueles que não fizeram a ligação, era o nascimento da opinião pública. Um governante apoiado pelo povo de forma incondicional era quase como um ser invencível dentro de seu castelo. Se vocês quiserem um exemplo basta procurar qualquer discurso de Adolf Hitler presente na internet e perceberemos o quanto a população idolatrava seu líder. Esse sentimento vinha de uma eficiente campanha de exaltação da figura do líder, de uma xenofobia selvagem a tudo o que não era ariano, de uma busca pelas origens heroicas do povo germânico e de uma campanha de desinformação a tudo o que se julgava nocivo ao regime.


É aí que começamos nossa conversa. Vou dar dois exemplos sobre como Orwell pensava a verdade e desenvolvemos a partir daí. Uma das perseguições mais selvagens ocorridas na Alemanha nesse período antes da Segunda Guerra era a de livros que não interessassem ao regime. Tudo o que pudesse dizer algo contra o fascismo era levado a uma fogueira e devidamente queimado. Controlar o volume de informação era uma forma eficiente de estabelecer o que é ou não a verdade. Orwell comenta a quantidade minúscula de informações detidas pela Inglaterra às vésperas da guerra. Isso contribuiu também para a indecisão do governo britânico.


Outro argumento usado por Orwell é a verificação da veracidade de uma informação. Em um de seus artigos ele faz uma comparação entre o grau de veracidade de um jornal e o quanto ele era popular. Claro que ele parte de suas próprias deduções sobre fatos verídicos. Mas, o jornal que ele considera ser aquele que possui informação mais fidedigna não está nem entre os dez mais vendidos. Ao mesmo tempo ele questiona a honestidade dos jornais. Porque, com base nessa informação, podemos perceber que o que vende mais nem sempre é o que possui maior grau de veracidade. A forma como a notícia é veiculada, mesmo de forma noticiosa se torna uma variável percebida como fonte de vendas.




Orwell é também bastante auto-crítico. Principalmente no que diz respeito a como o governo inglês trata as suas colônias. Para ele, fala-se muito sobre as atrocidades cometidas pelo inimigo. E isso em plena Segunda Guerra com milhares de soldados e civis morrendo nos campos de batalha. Mas, para ele é preciso perceber também as atrocidades cometidas também do lado de cá. Ele vai até mais longe acusando o grande público de acreditar em uma informação com base em sua ideologia política. Estamos diante de um Orwell cada vez mais radical e entendendo a verdade como uma moeda cara aos olhos das pessoas. É possível associarmos o seu radicalismo a um inconformismo sobre como as coisas se encaminhavam. No momento em que ele fazia essa afirmação estávamos em 1943 com a Segunda Guerra adotando uma face cruel e a Alemanha se encaminhava para um impasse sobre o que fazer a respeito da URSS. A Inglaterra havia sofrido um terrível revés e estávamos longe ainda do Dia D que aconteceria no ano seguinte. As perspectivas eram nefastas e Orwell fazia várias projeções com os nazistas permanecendo muito tempo no poder.


Mas, mais do que isso: essas asserções do autor podem ser traduzidas para os dias de hoje no mundo em que vivemos. Primeiro porque a informação se tornou uma commodity. Empresas lutam por aquilo que convenhamos chamar de big data, que nada mais são do que informações privilegiadas sobre hábitos e tendências de alguém que usa a internet nos dias de hoje. Manipular informação se tornou parte do jogo, seja ele comercial ou político. Aliás, recomendo aos leitores que abandonem a expressão fake news em prol de outra: desinformação. O coletivo Intervozes, que foi responsável pela organização do livro Desinformação - Crise Política e Saídas Democráticas para as Fake News, faz uma distinção boa entre má informação e desinformação. A má informação é a informação errada com base em presunções mal elaboradas enquanto que a desinformação é a informação errada com o objetivo de causar algum impacto social. Orwell trata desse tema da desinformação quando analisa a contra-inteligência alemã que havia proibido a manipulação de informações em plena Segunda Guerra para que a população soubesse como combater os aliados. Se, em um primeiro momento, a desinformação serviu para colocar Hitler no poder, agora o assunto era diferente. A boa informação se tornou necessária para mudar os rumos do conflito.


Tem também uma velha máxima que diz que a História é contada pelo vencedor; ao perdedor cabe ser julgado e apagado. Orwell traça um comparativo entre várias situações semelhantes a partir dos dois lados. Por exemplo: muito se fala sobre o massacre japonês ocorrido em Nanquim, em 1937. Mas, pouco se fala o que os ingleses fizeram em Hong Kong em 1942. Algo que teve consequências político-econômicas que foram arrastadas até o século XXI. Como historiador e sociólogo, consigo perceber o quanto Orwell é um homem de seu tempo, e um homem afetado pelo seu tempo. Militante, é impossível manter a cabeça fria diante de tantas atrocidades e violências cometidas durante esse conflito mundial. Basta pensarmos que toda a intelectualidade que sai da Segunda Guerra e entra pelas décadas de 1950 e 1960 é um grupo desesperançoso quanto às possibilidades da humanidade. O fardo de dois conflitos globais recai sobre esse grupo formado por autores e artistas marcados por uma história de violência que vitimou milhões. Se o rescaldo da Primeira Guerra foi a perda de um terço da força de trabalho masculina em idade ativa, o da Segunda Guerra foi a da essência do que nos torna humanos. Algo que só vamos conseguir recuperar a partir dos movimentos hippies na década de 1970.


Sobre a Verdade é um livro genial e que mostra inúmeras facetas de um autor que estamos acostumados a admirar. Mas, ele me conquistou ainda mais por demonstrar sua humanidade em um momento crítico como o visto entre 1938 e 1945. É emblemático perceber em um livro que fala sobre a verdade que os últimos capítulos são pequenos excertos do livro 1984, a última grande obra escrita por ele.


Referência:


Ficha Técnica:


Nome: Sobre a Verdade

Autor: George Orwell

Editora: Companhia das Letras

Tradutor: Cláudio Alves Marcondes

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 208

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a editora Companhia das Letras










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