• Paulo Vinicius

O segredo para a felicidade absoluta, segundo Arundhati Roy

O Ministério da Felicidade Absoluta é um livro provocante ao mesmo tempo em que é encantador. Temos um elenco de personagens que variam desde uma hijra buscando o seu lugar no mundo, um funcionário do governo desiludido, um revolucionário sonhador e uma misteriosa mulher. Tudo isso em um lugar marcado pela desigualdade social e por um confronto entre o velho e o novo.




"Como contar uma história estilhaçada? Aos poucos se tornando todo mundo. Não. Aos poucos se tornando tudo."

Como obter a felicidade? Esta é uma pergunta que nos fazemos todos os dias de nossa vida. Somos seres humanos em uma eterna busca pela felicidade absoluta. Acreditamos naquele mote dos contos de fadas quando as histórias terminam. Mas, na vida real isso é uma tarefa complicada. Somos seres inquietos e em constante transformação. O Ministério da Felicidade Absoluta é um livro que trabalha todo um elenco de personagens mostrando que as circunstâncias transformam os nossos objetivos para nós mesmos. E que a felicidade pode ser desde um simples momento até toda uma condição.


Os conflitos em uma região disputada


Primeiro é preciso contextualizar a obra de Roy. A narrativa se passa em dois lugares distintos: em Nova Délhi e na Caxemira. Lidamos com personagens que ou fazem parte da linha urdu da religião muçulmana ou são simples hindus pertencentes a alguma casta específica. Lembremos que na Índia existe um sistema de castas que determina o destino das pessoas nesta vida. Eles entendem que passamos por um ciclo de reencarnações onde buscamos cumprir nossas funções no universo a cada nova vida. Eventualmente entramos em um ciclo final para alcançar o nirvana, ou seja, uma transcendência absoluta. Esse sistema cria uma forte desigualdade social entre os brâmanes (aqueles que estão no topo da cadeia), as demais castas que se encontram no meio do caminho e os dalits (que representam os párias da sociedade). O islamismo urdu é praticado por fieis que pertencem à região da Caxemira, que pertence à Índia e faz fronteira com o Paquistão e Bangladesh. É uma região que é disputa pelos três países e muitos dos habitantes locais desejam passar para o lado paquistanês que possui a religião muçulmana como maioria. Para a Índia, a Caxemira é uma importante região econômica fornecedora de alimentos para abastecer as cidades do norte da Índia. Porém, os urdus são uma minoria que sofre com um forte preconceito da parte dos hindus que não os veem com bons olhos.


Logo de cara podemos comentar sobre o quanto a autora trabalha bem essa relação entre hindus e urdus (vemos outras minorias sendo comentadas também, mas como uma das personagens é urdu, vou manter o foco nela). A relação é muito complicada porque a Índia é um país vastamente populoso. E muito atento às tradições. O elemento religioso está presente no cotidiano da população. E quando você tem um vizinho que não compartilha das mesmas coisas que você, a vida se torna complexa. Então todo tipo de situações são ilustrativas de o quanto os dois lados não se suportam. Mas, tem um porém nisso: os hindu fazem parte do sistema político do país. Durante a narrativa somos colocados diante de algumas situações bem complicadas como o genocídio praticado por membros do governo durante uma vingança contra um oficial morto. Ou a maneira como o governo aplaca as manifestações em prol de direitos humanos. Se existe um exagero na forma como os urdus e outras minorias não conseguem dialogar com o governo, não podemos tirar a reação dos mesmos contra os assassinatos e injustiças cometidas pelos oficiais.




"Na Caxemira, "interrogatório" não era uma categoria real. Havia o "inquérito", que consistia de tapas e chutes, e o "interrogatório", que significava tortura."

As torturas praticadas pelos oficiais durante os interrogatórios também são comentadas ao longo da narrativa. Até em detalhes que podem incomodar alguns leitores. Os excessos cometidos em interrogatórios como o tratamento dado a Tilottama para saber o paradeiro de Musa. A autora trabalha bem o quanto as torturas afetam a psiquê daqueles que passam por isso. E se alguém espera alguma postura heroica de resistir para salvar inocentes, isso aqui é o mundo real. Todos se dobram. Alguns mais cedo, outros mais tarde. Falando ainda sobre o governo é preciso destacar a narrativa de Biplap Dasgoose. A narrativa dele é diferente até em relação às outras: enquanto todos os outros capítulos são contados em terceira pessoa, a dele é em primeira pessoa. Fiquei reflexivo sobre o motivo pelo qual Roy fez essa opção, mas acabei não descobrindo o motivo. Pode significar várias coisas: uma relação de associação com a própria autora ou com alguém próximo a ela, ou uma vontade de personalizar mais o aspecto narrativo.


Biplap é uma pessoa nitidamente insatisfeita com sua própria vida. Sua narrativa é um réquiem de escolhas seguras e mal feitas, o que o levou a uma vida estável, porém infeliz. Ele tem uma tranquilidade com um bom cargo no governo, uma esposa que ele pelo menos gosta e filhas. Mas, nada disso atende aos seus anseios. Seu amor platônico nunca correspondido ou sequer estimulado por Tilottama o deixa frustrado porque ele sequer tentou algo. Sua narrativa transborda frustração por toda a parte, mas vale a pena acompanhar até o final para entender os meandros do governo indiano. Aqui temos fortes críticas à condução das coisas pelos governantes e o quanto a divisão social se tornou um abismo de algumas décadas para cá. Em muitos momentos percebemos o quanto todos estão perdidos e confusos.


"Importava alguma coisa eles terem sido esmagados na grama em que dormiam? A quem importava? Aqueles a quem importava importavam?"

Por outro lado, o movimento revolucionário também é muito simples. Pelo menos isso passa uma mentalidade mais de guerrilha do que algo mais organizado. Aí eu não sei se isso vem do fato de Tilottama ter apenas um contato muito sutil com alguém ligado ao grupo ou se isso é o pensamento real da autora. As tragédias são apresentadas do ponto de vista das pessoas comuns, daqueles que estão sabendo do que acontece pelo mundo seja através de notícias ou pelas reações no cotidiano. A Hospedaria Jannat, onde o núcleo de Anjum permanece, é o termômetro para entender isso.




Não podemos deixar de comentar a respeito de Anjum. Anjum é uma hijra, uma transsexual muçulmana. A história de Anjum começa trágica até ela encontrar o Kwagbah. Sua mãe acreditava que ela era um menino, mas vemos claramente desde o começo o quanto estávamos diante de uma mulher presa em um corpo de homem. A angústia que ela sente nesta prisão é algo que vai permear toda a obra de Arundhati Roy. O que eu acho engrandecedor é o quanto a personagem não se abate diante das situações adversas que lhe são apresentadas. Ela luta para encontrar o seu lugar no mundo. E esse lugar pode mudar de acordo com as necessidades. Inicialmente o Kwagbah foi o seu lugar, ensinando a ela o que ela precisava para sobreviver. Quando ela sentiu que aquele espaço não a completava mais, ela não se intimidou e saiu em busca de sua felicidade.


"A carótida de Deus explodiu na fronteira entre Índia e Paquistão e um milhão de pessoas morreram de ódio."

E eu chego aqui e pergunto a vocês: onde encontramos a felicidade? Os personagens criados pela autora saem em busca disso. Seja apenas alguns momentos ao lado de seu amor, criar um lugar que receba as pessoas independente de sua origem ou escolha, encontrar um grande amor ou apenas viver, todos estes personagens são incríveis em suas individualidades. O que temos são seres humanos com qualidades e defeitos, que acertam e erram. Por exemplo, Tilottama percebe que precisava visitar sua mãe após anos sem ter contato com ela. Resgatar esses laços era importante para ela naquele momento. Ou Saddam que buscava sua vingança contra aqueles que lhe fizeram mal. Em um dado momento ele se pergunta: será que eu realmente preciso disso? Achei este livro emocionante ao mesmo tempo em que nos coloca em um cenário incomum.




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