• Paulo Vinicius

O normal e o desviante no trabalho de Paula Febbe

Em uma matéria completamente experimental, conversei com a autora Paula Febbe sobre como ela constrói personagens. Como ela os transforma em figuras tão reais e ao mesmo tempo tão distorcidas. Uma conversa onde entramos em uma infinidade de temas.



A autora Paula Febbe é uma autora de arrepiar. Sua escrita consegue pender do poético ao mórbido em questão de segundos. Os personagens de seus livros nos assustam não por eles terem faces terríveis, corpo distorcido ou formas assustadoras. Eles assustam por serem normais. Por serem pessoas com quem você poderia cruzar na esquina. E é nisso que está a mágica da escrita dela. Nessa troca de ideias que tivemos, procuramos abordar questões como o normal/anormal, o desviante e a sociedade em geral.


Paulo Vinicius: Paula, criar personagens é sempre uma arte delicada e complexa. Alguns autores se espelham em pessoas reais e a partir desses modelos criam seus personagens. Mas, o seu caso é diferente. Por você ter se dedicado ao estudo da mente humana através da psicanálise, seus personagens soam diferentes. Mas, ao mesmo tempo parecem normais. E ao ler Mãos Secas com Apenas Duas Mãos, me questionei o que é normal. Normal é o que eu penso que é normal ou o que a sociedade pensa que é normal. Então te jogo a pergunta crua, o que é o normal em nossa sociedade?


Paula Febbe: Bom, o normal é tudo aquilo que tem um inconsciente ainda fechado, né. É tudo aquilo que não tem um inconsciente exposto. Porque se for formos falar de um psicótico de um ponto de vista psicanalítico o inconsciente dele é completamente exposto. É como se a vida fosse um sonho. Então, pelo ponto de vista psicanalítico é isso. Mas, eu acho que acabo me espelhando sim em pessoas reais de certa forma talvez não pessoas em sim, mas trejeitos, vestimentas e coisas que eu vejo sobre uma pessoa. E aí para complementar aquilo que eu vejo sobre ela, construo a personagem, né. Construo aquilo que não existe sobre aquela pessoa. A única coisa que eu não faço de jeito nenhum é falar sobre pacientes. Mas, é isso. Tem a diferença entre o que é real do ponto de vista psicanalítico e o que é real do ponto de vista humano, talvez. Eu não sei, acho que pelo ponto de vista narrativo talvez o que não é tão usual talvez seja mais interessante, sabe.


Pensando nessa linha que você imagina os personagens me fez lembrar todas as imagens que temos sobre gladiadores na Antiguidade. A ideia do pão e circo. Quando um imperador romano queria acalmar a população e evitar revoltas civis, ele estimulava campeonatos de gladiadores ou competições cada vez mais violentas. É comum vermos em imagens (seja em pinturas, quadrinhos ou filmes) o público eufórico em um sentimento quase primal. É possível a gente dizer que temos uma propensão a observar a violência com um ar de curiosidade? Ou isso funciona apenas para um espectro de pessoas?


Eu acho que a gente gosta de observar aquilo que é mais intrínseco na gente, mais brutal e aquilo que temos que esconder também. Então eu acho que isso é grande parte da questão é a gente poder ver no outro aquilo que a gente tem, mas diz que não. É como se fosse um circo de bizarrices, circo dos horrores e eu acredito que o coletivo tem um papel grande nisso porque se o coletivo, se mais pessoas além de você estão olhando para uma coisa terrível que aconteceu ou, enfim, tem contato com essas coisas desta maneira você vê isso sendo permitido, de certa forma. Pelo menos naquele pequeno mundo daquele coletivo. Então, é como se fosse mais okay, você vê que não é o único que tem aquilo de animal e de terrível e então você deixa aquilo passar. Eu acho que essa é uma das grandes questões dos estupros coletivos, por exemplo. Talvez eles não acontecessem se o cara estivesse sozinho com a menina, né? Não todos os caras, não todos fariam aquilo, mas quando aquilo é permitido no coletivo ali naquele grupo, daqueles homens, eu acredito que, às vezes, a questão moral se torne mais flexível e aí muita coisa seja deixada, seja permitida na verdade. E, claro, não permitida por quem sofre o abuso, mas permitida pelas pessoas que estão do lado. A moral fica mais flexível mesmo.



Seria esse um sintoma dos tempos? Eu sei que a gente está aqui tentando falar sobre desenvolvimento de personagens em romances, sejam eles quais forem (fantasia, policial, terror, scifi), mas parece que a gente acaba ficando atraído por um certo tipo de personagem. Estamos conversando sobre a estética da violência, e isso te fez lembrar dos casos de estupros coletivos que se tornaram recorrentes a alguns anos atrás. Ao mesmo tempo cada vez mais passamos a curtir personagens de moral duvidosa nos romances. Daí me vem a reflexão: há algumas décadas atrás os personagens eram mais maniqueístas, dualistas mesmo. Aquela coisa de o bem contra o mal. Mesmo quando o filme se situava em uma região cinza como O Silêncio dos Inocentes, a gente conseguia traçar bem essa linha. Hoje, já é um pouco mais complicado encontrar essa divisão. Essa divisão nunca existiu ou é a sociedade que amadureceu mais e as liberdades são mais afloradas?


Acho que sempre é muito tentador a gente ver o mal do outro. Falar sempre sobre o mal do outro. Achar que o mal é o outro e que está tudo bem com a gente. Mas eu realmente acredito que essa divisão nunca existiu e talvez a literatura e a dramaturgia só estejam sendo mais honestas, mais transparentes em relação ao que as pessoas realmente são e entendendo que todos nós temos não só dois lados mas tantos lados. E que toda história pode ser contada de várias maneiras diferentes, o que vai tornar alguém bom, ruim ou os dois, sabe. É muito mais a forma como você conta a história e por qual viés você enxerga do que necessariamente se a pessoa é uma coisa ou outra. É muito difícil alguém que seja, por definição, completamente ruim sem nada bom e o oposto também, né. O que é isso, o que é o bom e o ruim, por definição? Até porque a maneira como nós somos definidos está muito dentro do que a gente acredita nesta sociedade em que estamos inseridos. Então, o que é bom ou mau, o que é aprovável ou não, até o que é louvável ou não, está dentro daquilo que nós acreditamos neste contexto social, nesta era, neste nosso tempo. O que pode muito bem se modificar e sempre se modifica dependendo do lugar em que a gente nasceu e por aquilo que a gente aprendeu. A questão do que é bom ou mau não é uma verdade universal.


Você me falando em bem e mal novamente me fez pensar no lado da escrita criativa do autor. Mas, em um aspecto mais profundo da escrita. Naquele dos temas, dos scripts seguidos. Acho até que para você que é mais familiar ao gênero do crime e do policial vai encaixar melhor o questionamento. Falando em verdades universais, quando você pensa na montagem do seu romance, você pensa em justiça ou injustiça para os seus personagens? Me veio à cabeça uma frase que me lembro de ter ouvido em algum lugar de que não existe maldade perfeita e nem bondade perfeita, mas pontos de vista distintos. Como você encaixa isso nos seus enredos?


Na verdade eu acho que só penso na injustiça para as personagens (risos). Como eu estou longe de escrever qualquer coisa que tenha um final feliz, eu acho que o que vem é só essa busca pela maior injustiça pela qual o personagem pode passar. No livro Mãos Secas (Nota do Editor: tem spoiler do livro aqui!!!! Se quiser pule essa parte) tem a justiça ao contrário porque nada acontece com ele e ele é terrível e então talvez eu acredite na justiça que nada acontece para muita gente que faz muita coisa ruim, sabe. E aí como eu vejo isso na vida eu tento encaixar isso nos livros. Isso se encaixa de uma maneira muito natural porque toda a base dos meus livros é essa questão de "bittersweet" assim, de as coisas não são como deveriam ser. Então, isso acaba sendo natural. Pensando na personagem e em como isso se encaixa na história.



Então eu volto ao começo do debate. Estamos divagando nesta conversa, mas acho importante pontuar essas coisas para o autor que procura fazer um estudo psicológico do seu personagem. Falamos de normal/anormal e justiça/injustiça. Dois conceitos, duas dicotomias. Fui aqui consultar nas minhas colas de Sociologia, e ambos são conceitos históricos, não sociológicos. Ou seja, são conceitos que mudaram ao longo dos tempos e que possuem leves diferenças de acordo com a cultura da qual fazem parte. Por exemplo, para um indivíduo que morava na Marselha durante a Idade Média a vida é algo sagrado fornecido por Deus enquanto que outro indivíduo que morava em Tenochtitlán, era preciso realizar sacrifícios cortando cabeças para agradar Quetzalcoatl. Mesmo período, diferentes noções de normalidade e de justiça. O mesmo podemos dizer hoje e isso vivendo em um país em que mudando de bairro as noções de justiça e normalidade podem mudar em um piscar de olhos. Eu ouvi uma vez uma frase que dizia assim "Realidade é percepção". Você concorda com ela?


A primeira coisa que vem à minha cabeça com esta pergunta é que a psicanálise, por exemplo, só é possível, a partir do momento em que a pessoa entende aquela realidade. É como se você só fosse sonhar, por exemplo, com aquilo que faz parte do seu imaginário. Ou seja, com aquilo que você vê e consegue ter contato, pelo que você teve contato de alguma forma. Se não, o acesso ao inconsciente não é compreendido. Está tudo nessa base da linguagem, é tudo parte da linguagem e a linguagem parte da nossa percepção da realidade. Sem dúvida, tem pessoas que acham que são superjustas, mas vivem em um privilégio e não conseguem enxergar quem não consegue ter esse privilégio. Tudo é percepção e a gente só tem a nossa. No final das contas, a gente pode ler, a gente pode pesquisar, mas tem aquela frase clássica de não vermos o mundo como ele é, vemos o mundo como nós somos. E na verdade cada um de nós está em uma prisão, uma prisão das nossas limitações, do que a gente consegue entender como realidade, do que a gente consegue ver. Não tem como a gente se distanciar disso por mais que a gente estude, por mais que a gente tente ser capaz de ser cabeça aberta com trezentas milhões de coisas. Temos nossas limitações porque cada um de nós é só um.


Você sente que tem um papel social na sua escrita? Pergunto isso porque você lida com os recantos mais sombrios da mente humana, e muitas vezes se fala em papel social do escritor. A forma como você coloca os temas é uma expressão das suas angústias ou tem um pouco de abordar aquilo que aflige a sociedade contemporânea?


Em alguns momentos eu acredito que o que eu faço pode ajudar as pessoas a entenderem que elas querem ser melhores do que os personagens dos meus livros. Mas, eu acho também que isso seria muito vaidoso da minha parte achar que isso acontece. O que eu acho talvez é que existe algo muito bonito em você levar um leitor pela mão para conhecer os lados mais escuros da sua mente daquilo que você aprendeu, daquilo que você viu. Porque, de certa forma, lá no livro sempre vai estar aquilo que você viu de alguma forma, ou interpretou daquela forma. Então, eu acho que isso já é, não sei se social, mas é muito bonito. E esse compartilhamento do que existe de mais íntimo em você eu acho que talvez seja porque estamos aqui. E você expor a intimidade da sua visão, eu acho muito bonito.


Entrou hoje naquele jargão daqueles que ensinam escrita criativa o classificar escritores como arquitetos ou jardineiros. Aqueles que planejam seus roteiros ou aqueles que vão escrevendo e o roteiro vai se desenvolvendo sozinho. Mas, como estamos falando de personagens, eu quero mudar o ângulo da nossa câmera. Já ouvi vários autores dizendo como seus personagens ganharam vida própria e interferiram no próprio processo criativo da narrativa. Personagens que não aceitavam mudanças X ou Y na narrativa e o autor entendeu isso como algo que fazia sentido. Por outro lado, uma autora que eu gosto chamada Mary Robinette Kowal diz que ela não aceita isso. Além de escritora, ela trabalha com marionetes e ela manipula seus personagens como marionetes. Ele faz aquilo que ela quer que eles façam. Minha pergunta é: você controla seus personagens ou seus personagens te controlam? Ou é um equilíbrio das duas coisas?


O meu processo parte do inconsciente. Às vezes eu não sei que rumo a história vai tomar e acaba fazendo sentido para um lado que eu não imaginava e não pensei antes e da mesma maneira são os personagens. Eu diria que eles controlam alguma coisa e talvez isso fosse bem esquizofrênico da minha parte. Se eu quiser eu controlo, mas a questão é que os personagens estão lá para servir a narrativa. Então eu acho que eles estão lá no contexto do todo. Eu acho que existe um equilíbrio e não é uma questão de que os personagens conseguirem um rumo próprio, mas da narrativa acontecer de uma maneira que não vai fazer sentido os personagens passarem por certas coisas, entende? Então eu acho que é mais os personagens sendo peças em um jogo de xadrez.



Pensando nesse lado de dar vida aos personagens e do controle narrativo, o quanto os personagens podem ser realistas? Fico pensando nisso no que diz respeito a autoras como você que lidam com narrativas com dois pés fincados na realidade. Provavelmente já te fizeram essa pergunta diversas vezes, mas algum personagem foi tão marcante para você a ponto de você conseguir enxergá-lo no mundo real?


Na verdade nunca me perguntaram isso. Se foi tão marcante a ponto de eu enxergar no mundo real. Eu acho que eu enxergo um pouco de cada um destes personagens. São trechos de pessoas que eu soube ou já convivi ou já vi. O personagem inteiro eu prefiro que não até porque a maioria não é lá muito amável. Talvez eles sejam trechos das piores pessoas que eu já encontrei, sabe. Acho que essa é a relação deles com a realidade.


Já chegando em um ponto final desta fantástica conversa, é verossímil um personagem heroico? Digo daqueles virtuosos, típicos heróis de cavalaria? Você escreveria um personagem desse tipo? Aliás, em um ponto mais profundo da realidade, será que não vivemos um momento em que personagens sombrios e pouco heroicos acabem sendo mais louvados do que os tipos virtuosos? E quero aproveitar para deixar o meu muito obrigado pelo seu tempo e pela sua paciência para com o Ficções e para com os leitores. Aproveita e fala um pouquinho de como as pessoas podem te achar nas redes sociais e de alguns de seus projetos.


Eu sei que você está perguntando em relação aos personagens virtuosos e de cavalaria, mas eu acho que o heroico existe e está presente em tudo. Somos heróis e não-heróis o tempo inteiro. Eu acho que herói é mais fácil do que um bonzinho. Por exemplo, um personagem que seja completamente bom. Isso é uma coisa com a qual eu não consigo me relacionar, não consigo achar que exista completamente. Mas, o personagem heroico pode ser verossímil sim, e para isso podemos colocar como antagonista uma doença, problemas com a família, alguma coisa que a pessoa tenha que superar. Um herói não é nada além disso na verdade. No caso dos personagens sombrios entra de novo a interpretação do que é ser heroico. Eu acho que os vilões tem tido mais espaço, mas acho que é porque a gente se reconhece nesta frustração, nesta loucura. Eu acho que os personagens pouco heroicos acabam sendo mais louvados porque eles são mais relacionáveis. As pessoas tem dificuldade em enxergar o próprio heroísmo. Exatamente por causa desta história do herói clássico, do herói deste jeito clássico. E na verdade tem muito heroísmo nas coisas mundanas. Mesmo com falhas, porque o herói tem falhas.

A rede social que eu mais uso é o Instagram que é o @paula_febbe e tem o meu site www.paulafebbe.com .


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