• Paulo Vinicius

O mercado editorial de literatura de gênero em 2020

Antes de começarmos a falar sobre o que pode vir em 2021, vamos falar um pouco sobre o que passou. Como foi o ano e como as editoras lidaram com um momento crítico de suas existências.



O ano que se passou vai deixar marcas nas vidas de muitas pessoas. Seja com ideias de adaptação, perdas, ressurgimentos, tristezas. Cada um de nós tem uma história diferente a ser contada. No mundo dos negócios isso também se deu com a necessidade de lidar com o isolamento social e pensar em novas maneiras de alcançar seus consumidores. O modelo capitalista encontrou saídas aonde aparentemente não havia nenhuma. Postos de trabalho foram perdidos, o home office deixou de ser uma fábula utópica para poucos privilegiados e se tornou necessário. Todos os setores produtivos foram afetados em maior ou menor intensidade. O setor cultural, em especial, foi o que mais sofreu porque ele depende da participação das pessoas. O que são os cinemas sem espectadores? O que é uma peça de teatro sem público? Como jogar futebol sem torcida? Como vender livros sem livrarias? Embora todas essas perguntas sejam pertinentes, todos esses setores se reinventaram de um jeito ou de outro. Por exemplo, as plataformas de streaming ganharam mais adesão e até se cogitam lançamentos de cinema simultâneos com tais serviços (HBO Max, estou falando de você). Houve uma série de produções teatrais feitas em casa ou em teatros vazios transmitidos online que revelaram a criatividade de seus produtores. Os times de futebol precisaram criar uma série de regras e protocolos para proteger seus atletas; a NBA criou uma bolha para seus atletas não terem muito contato com o mundo externo e se focarem nas atividades esportivas (spoiler: não funcionou). E a indústria do livro?


Bem, parece clichê, mas todos os anos cito nessa coluna que o ano corrente será melhor do que o ano anterior porque as editoras X, Y e Z planejaram surpresas A, B e C. Desde 2016 uso o mesmo discurso; desde 2016, a indústria do livro sofre perdas inimagináveis e reveses incontornáveis. Talvez há dez anos atrás com esta conformação atual de editoras vivêssemos uma era dourada da literatura de gênero, com títulos nacionais competitivos e lançamentos internacionais fortes. Algumas editoras hoje chegam a lançar um título best-seller simultaneamente em relação ao mercado americano algo impensável na década de 90 e início dos anos 2000. Esse tipo de lançamento se tornou até comum em alguns casos. Ou a diferença de tempo entre o lançamento internacional e o feito no Brasil é de poucos meses. Claro que isso, às vezes, redunda em um trabalho editorial organizado às pressas, mas, pensar nesse cenário hoje é um atestado da capacidade daqueles que trabalham dentro das editoras, sejam eles aqueles que estão em busca de direitos autorais, aqueles que organizam o projeto editorial, os tradutores, os revisores, os capistas, os copidesques. Ouso dizer que os envolvidos hoje representam alguns entre os melhores do mundo. E recebem uma mixaria das suas contratantes. Mas... isso é Brasil, né?


Até meados de fevereiro o cenário era animador. Planos eram feitos, projetos fora da caixinha surgiam. E a pandemia veio como um tsunami. Em uma questão de duas semanas, estávamos confinados em nossas casas. Mesmo que os negacionistas inflamassem alguns a continuarem suas atividades, a maioria que percebeu a gravidade da crise sanitária se adequou aos novos tempos. E uma cortina se fechou. Só para vocês terem uma ideia do impacto que foi, eu tinha 10 parceiras em 2020. Esperava um ano atribulado e negociava com a Amanda e o Diego o que iria para quem. Disputávamos amigavelmente quem iria pegar a série tal, para quem iria o autor Y. Era animador. De repente, por 7 meses não vimos a cor de nenhum livro. Algumas editoras independentes mantiveram o contato conosco e nos enviavam ebooks para tentarmos até vencer essa fase mais difícil da pandemia. O renascer editorial viria apenas em setembro, de uma forma bem tímida. Nos três últimos meses do ano, editoras buscaram tentar lançar o máximo possível de títulos para remediar parte da crise. Tentar não ficar tanto no vermelho para traçar estratégias para o ano seguinte.


Se alguém ainda duvida da capacidade inventiva do brasileiro, descobriu o quanto ela pode ser incrível durante uma crise. Tivemos um boom de ebooks grátis por uns dois ou três meses fornecidos por várias editoras, inclusive as grandes, de forma a tentar amainar a depressão e a tristeza. Funcionou de duas vias: manteve parte das vendas das editoras já que aquele que pegava um ebook grátis, na maior parte das vezes, pegava outro também; e destacou as possibilidades por trás dos ebooks. A indústria de livros digitais e de audiobooks cresceu bastante durante esse período. Já que não era possível ir atrás do livro físico, o livro digital se mostrou útil. O que representava 3 ou 4%, hoje chega a 9 ou 10%. Ainda é tímido, mas os leitores estão cada vez mais se rendendo a essa opção. Principalmente com os aumentos sucessivos do valor do papel, os problemas de distribuição, a falta de insumos que encarece o produto, a iminente privatização dos correios. Livro físico vai se tornar novamente objeto de luxo. E para poucos. O meu destaque fica para duas editoras que souberam trabalhar seu público muito bem: a L&PM e a Avec Editora. Ambas conseguiram ampliar sua base de fãs com atitudes simples: deixar ebooks de graça por um pequeno período de tempo. O leitor que tinha contato com estes trabalhos espalhava o quanto os livros eram divertidos para outros. Com isso criava-se todo um mar de pessoas à espera de novos lançamentos ou pegar os livros que deixaram de ser de graça, mas estavam a um bom preço. Como parceiro da editora, só tenho a aplaudir os esforços do Arthur Vecchi para tocar o seu negócio e prosperar em um momento difícil. Pode até ser que as finanças não estejam nas melhores condições (e isso ele tem em comum com quase todas as editoras), mas ele e outros empreendedores fizeram o melhor.


Um segundo problema para as editoras foi a falta de grandes eventos. Pode parecer incoerente, mas uma das maiores fontes de vendas para editoras são a Bienal, a FLIP, a Festa da USP. É nesses lugares que eles conseguem lucrar bem. E sem intermediários. Mas, se eu não tenho os eventos, como fazer? Bem, algumas editoras entenderam o potencial presente na internet e no contato direto com o consumidor. Organizar eventos, lives, mesas de debate (com cada um em suas casas) era uma possibilidade. Tudo o que precisava era de um computador, acesso a internet e boa disposição. As editoras que se adaptaram mais rapidamente a essa realidade foram as pequenas e as independentes. A própria Avec que eu citei antes organizava lives semanais com a participação de autores e alguns de seus parceiros (eu mesmo participei de uma com o Duda Falcão, o que eu adorei fazer). Mas, as grandes viram o filão que era a divulgação mais direta e passaram a organizar grandes eventos. Record e Companhia das Letras possuem eventos constantes em seus canais nas redes sociais. Alguns sendo lives simples no Instagram, enquanto outros são verdadeiras semanas de debate como a Companhia fez com os livros do Orwell. E agora temos uma tendência que vai perdurar daqui em diante.


Mas, é preciso dizer que editoras deixaram de existir ou se retraíram bastante durante a crise. Em uma indústria desafiadora como a brasileira, um golpe desses é quase um tiro de espingarda no meio da testa. Algumas editoras com bom potencial simplesmente não conseguiram levar adiante seus negócios. Sem falar na morte lenta e dolorosa que as livrarias Saraiva e Cultura tem sofrido desde que iniciaram seu processo de recuperação judicial. Sinceramente, alguém espera de verdade que elas se recuperem? Hoje eu enxergo a situação toda como um adiamento do inevitável. Uma tentativa tosca de esperar um milagre, uma luz celestial abençoar a mente de algum messias livresco que salve as livrarias do colapso. O pior é que os administradores são responsáveis por centenas de postos de emprego que tem diminuído dia após dia. Duas redes que eram responsáveis pela venda de livros em todos os recantos do país se tornaram duas tímidas ocupantes de espaço que nenhuma editora em sã consciência distribui livros para, já que elas não tem como pagar por aquilo que estão colocando nas vitrines. Diga-se de passagem, o calote milionário das duas lindas livrarias também foi o responsável pelo fechamento de algumas editoras menores. Dinheiro esse que jamais será pago por ambas as devedoras já que seu plano de restituição de valores chega a ser pornográfico, para usar uma palavra que traduz minimamente a situação.


Antes de dar os destaques de editoras (2 positivos e um negativo), queria entrar no que esperar para 2021. Desculpem ser o arauto do apocalipse, mas não espero nada desse ano. Se a indústria do livro sair viva, já ponho as mãos para o céu. Os motivos?


a) o preço do papel aumentou em dezembro (em 15%) e vai aumentar de novo em março. A Suzano, que é a empresa que detém uma grande fatia do fornecimento de papel no país acha mais interessante vender papel para fora do Brasil, já que o dólar está com o valor nas estrelas. O que vale mais a pena? Vender a tonelada de papel a 100 reais para o Brasil ou 1000 reais para outros mercados? (estou chutando um valor aleatório, gente).

b) o preço dos insumos para a fabricação de livros aumentou: tinta para imprimir texto, papelão para capa dura e até outras coisas menos relevantes como verniz e pintura.

c) problemas logísticos. Quem leva os livros até a Amazon, por exemplo? Os Correios devem ser privatizados, o que vai encarecer o valor do frete. Empresas particulares não entregam em todos os cantos do país, o que pode levar a uma situação de Triângulo das Bermudas no norte e nordeste do Brasil. Em termos leigos, só confio em privatização dos Correios se a empresa que assumir levar uma caixa de palito de fósforos na ilha de Marajó.

d) falta de livrarias físicas. Apesar de a Amazon ter se beneficiado da pandemia, as livrarias físicas ainda representam mais de 30% das vendas de livros. Sem Saraiva e Cultura, quem poderá nos defender? Embora a rede Leitura e Curitiba tenha crescido bastante nos últimos anos, ainda não pode se responsabilizar por isso.



Agora vamos a dois destaques positivos de 2020. Sem dúvida alguma a editora que mais se destacou foi a Antofágica. Com um projeto diferente de resgate e publicação de clássicos, a fórmula pode até ser conhecida, mas a execução é muito competente. Provavelmente inspirados no trabalho da extinta Cosac & Naify as edições são luxuosas e possuem vários detalhes a mais. Primeiro a ideia de trazer figuras contemporâneas para escreverem os textos de apoio das edições: sempre um prefácio e três textos como posfácio. Contém sempre um especialista na obra, um influenciador literário e o artista que trabalhou nas ilustrações internas. Vão ter vários títulos conhecidos, mas achei o trabalho de texto, o gráfico e os extras incrível. Meu destaque vai para a edição de Drácula, de Bram Stoker que possui um acabamento gráfico belíssimo e o de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Embora nem sempre tenha clássicos de gênero, vale demais a pena conhecer o catálogo. Sem falar no trabalho que eles fazem nas redes sociais que aproxima o leitor das obras literárias. O canal do Youtube da Antofágica tem vários vídeos interessantes contando bastidores da vida desses autores e de suas obras. E até o impacto cultural dos mesmos.


Uma segunda editora que também teve uma atuação competente em 2020 foi a Plutão Livros. Manteve um catálogo consistente e buscando ora o resgate de autores nacionais de scifi clássicos e publicando material atual. A opção pela coleção ZigueZague que contém novellas e noveletas manteve o público sempre atrás de novidades. Fora o trabalho editorial nos ebooks que faziam de sua formatação bastante elegante. O detalhe é que todos os títulos da editora podem ser encontrados a preços bastante competitivos. Não me recordo de nenhum deles acima de 10 reais. Ou seja, o leitor pode ter bons títulos com histórias incríveis a um preço baixo. Esse ano parece que a editora promete ser mais agressiva com títulos que prometem apresentar mais novos autores e clássicos do scifi mundial.


Minha decepção do ano esteve na Rádio Londres Editora. Quando a editora apresentou o seu projeto de clube literário que continha alguns títulos bem curiosos de ficção científica, como High-Rise, do autor J.G. Ballard, imaginei que finalmente teríamos uma editora séria trazendo títulos de vanguarda do gênero. Não entrei no clube porque eu meio que sou desconfiado em relação a essas propostas. Me mantive adquirindo os livros que me interessassem. Tenho aqui um do Kurt Vonnegut, um dos irmãos Strugatski e outro do Walter Tevis. As previsões de próximos títulos prometiam bastante. Veio a pandemia e a editora naufragou. Literalmente. O que me incomodou foi a maneira como eles lidaram com aqueles que buscavam informações. A editora submergiu das redes sociais e não respondia a ninguém. Absolutamente ninguém. Publicações programadas pipocavam aqui e ali e eram usadas como verdadeiro bate-estacas pelos fãs inconformados. E nada de posicionamento. Entendo que a crise abalou a todos, mas um simples comunicado nas redes sociais poderia ter solucionado o problema. Não é possível que ninguém imaginou que a falta de contato com os clientes poderia destruir a imagem da editora. Até hoje eu comprei um livro na pré-venda da editora pelo site dela, que nunca veio, e ninguém me perguntou se eu queria o meu dinheiro de volta. Uma péssima postura e é algo que só complica a gente apostar ou falar bem da mesma. Fica a lição para outras editoras: comunicação é a chave do negócio. Ninguém vai criticar outro por demonstrar estar passando por um momento difícil. Ser honesto é uma virtude.


O ano que se passou se mostrou mais desafiador do que imaginávamos. Fez com que precisássemos rever nossos planos. A indústria do livro sobreviveu aos trancos e barrancos. As editoras que sobreviveram saíram mais calejadas e espertas de um momento difícil. Ou até saíram mais fortes do que antes. Para este ano que chega não tenho boas expectativas. Espero ser surpreendido. Mas, enquanto estivermos sob o jugo de um Estado que não se interessa pela cultura e se pudesse manipular todas as informações, assim o faria, não sairemos disso. Minha esperança no futuro reside no amadurecimento da população brasileira como democracia, algo que é cada vez mais remoto. Enquanto isso esperamos salvadores da pátria se tornarem mitos, endeusando aqueles que agem contra a cultura do nosso povo. Mais um ano e mais um grande desafio aguarda nossas editoras e livrarias. Torço para que atravessem.



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