• Paulo Vinicius

O mercado de literatura de gênero em 2019

Hora de começarmos a fazer um balanço sobre como foi o ano de 2019 para a literatura de gênero no Brasil. Foi ou não foi? Como as editoras e livrarias buscaram alternativas para a crise que chega ao seu quinto ano consecutivo? Há uma luz no fim do túnel?



O início de um novo ano é aquele momento em que colocamos em perspectiva aquilo que aconteceu no ano anterior. Analisar o que houve de positivo e negativo e tentar traçar algum plano de ação para este novo ano. As editoras passaram pelo recesso, conseguiram ver como foram suas vendas no ano anterior e agora chegou o momento de montar um possível cronograma de lançamentos. Vou tentar comentar aqui sobre os altos e baixos de 2019 e tentar traçar alguma previsão sobre o que podemos esperar esse ano. Vi alguns vídeos e textos, alguns buscando ser esperançosos e outros completamente apocalípticos. Não me encontro em nenhum dos dois casos e prefiro ter uma visão pragmática sobre isso.


É fácil dizer que 2019 foi um ano horroroso para a literatura de gênero. E vamos pensar de um ponto de vista bem simples: sem um trabalho de divulgação, literatura de gênero não vende. Isso é fato. Todos os anos eu e muitos outros blogueiros e youtubers apontamos a mesma coisa. As editoras no Brasil acabam empregando formadores de opinião na internet para realizar a publicidade que elas deveriam fazer. É duro dizer isso? Sim. Blogueiros e youtubers podem ser empregados de outras maneiras. Nós não temos o mesmo alcance que uma editora possui. Uma editora que faz isso muito bem é a Intrínseca. Ela possui um blog com colunas que sempre são muito interessantes e chamam a atenção para os produtos que eles colocam no mercado, sejam lançamentos ou produtos há muito tempo no catálogo. A Morro Branco também criou um blog dentro do seu site e eu acredito que eles queiram ir pelo mesmo caminho. É uma forma.


Acabei fazendo uma longa digressão, mas tirei isso do caminho. Posso voltar à questão principal: literatura de gênero não vende. A menos que seja atrelada a um fenômeno de série ou cinema, a uma franquia respeitada, a um autor com uma boa base de fãs, as vendas vão ser baixas. Não temos um público formado para curtir esse gênero de histórias. Fantasia ainda é vista com aquele franzir de nariz como uma espécie de literatura inferior. Ficção científica precisa ser algo simplório, porque se for muito complexa afasta o leitor. O exemplo maior de que literatura de gênero não vende é que uma casa editorial grande como a Arqueiro abandonou completamente a fantasia, permanecendo apenas com Outlander, que tem uma outra lógica de vendas. Critiquem da forma como desejarem, há muito tempo a Arqueiro é uma editora que se volta para best-sellers. Eles assumem essa identidade sem qualquer vergonha e é algo de praxe deles. Como leitor, eu vou gritar e espernear e xingar a última geração deles. Como alguém que pensa com a lógica de mercado, é um movimento compreensível. É como uma série de TV: não vende, não renova. Ponto e fim.


Assim como a Arqueiro, a Leya também basicamente deixou de lado por ora o gênero de fantasia. Um dos movimentos mais surpreendentes de 2019 foi a venda dos direitos de George R.R. Martin e de Robin Hobb para a Suma. Fico meio dividido em dizer se eu esperava ou não isso. Até porque quando a Suma publicou Ferro e Sangue em 2018, ela já meio que assinalava que isso poderia acontecer. Ouvi muita gente reclamar ao longo do ano sobre o fato de a Suma estar publicando as séries que a Leya havia publicado tudo de novo. Gente, existem duas explicações óbvias: primeiro, é o colocar a identidade na Suma nos materiais publicados. Em segundo lugar (e creio que essa seja a resposta a isso), é que isso é algo contratual. A Suma até fez um trabalho bem eficiente com Crônicas de Gelo e Fogo ao publicar quatro dos cinco livros publicados em um espaço de tempo de pouco mais de 10 meses. E posso atestar que eles realmente fizeram uma nova revisão porque o texto parece estar um pouco mais dinâmico em relação à versão da Leya. Até mesmo algumas escolhas de tradução foram mudadas. É enervante ver Wild Cards ser publicado desde o volume 1? Sim. Mas, é o que temos para hoje.



O que mais me irritou como leitor foi o surgimento da impressão por demanda. E o emprego disso por grandes casas editoriais como a própria Suma, a Mythos HQs e a Plataforma 21. Novamente: do ponto de vista comercial, compreensível. Mas, isso não vai deixar de me irritar como leitor. Principalmente no caso de uma série fenomenal como O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu. É preciso ser bem transparente nesse caso aqui: a série não deu certo. Não vendeu. Foi um fracasso colossal. A ponto de a editora não considerar tão cedo publicar qualquer coisa do autor. A Suma publicou a série no prejuízo total, apenas com a intenção de completar a série. Mas, não posso deixar de criticar a escolha pela impressão por demanda. Os preços dos livros físicos já aumentaram demais por conta do aumento do preço do papel, e a impressão por demanda faz o preço aumentar ainda mais já que são feitas tiragens bem pequenas de um livro. Na época achei uma decisão acertada. Hoje não acho mais. Entendo que é o único meio de viabilizar um material, mas não consigo aceitar como cobrar quase 90 reais em um material que vai levar quase dois meses para chegar na casa do leitor possa ser atrativo. E isso sem qualquer tipo de publicidade e/ou divulgação. A Mythos pelo menos divulga o seu serviço de impressão sob demanda. Para mim, a melhor solução nesse caso seria um financiamento coletivo mesmo. Com o resultado disso, seria possível veicular uma quantidade x de unidades e permitiriam até mesmo imprimir algumas unidades a mais. Fora a capacidade de poder mensurar qual o interesse do leitor no mercado para a aquisição daquele livro em particular.


Mas, é preciso dizer que em questão de lançamentos internacionais, Suma, Morro Branco e Rocco foram as melhores. Aliás, o scouting de títulos da Rocco é algo de outro mundo. Posso reclamar do que for da editora, menos da habilidade de saber o que eles querem lançar. A Companhia das Letras soltou um comunicado aos assinantes da newsletter no início do ano informando que, por causa da crise, os lançamentos seriam minguados em 2019. Mesmo assim, a editora conseguiu surpreender e lançar materiais excelentes como o primeiro livro da Silvina Ocampo no Brasil (A Fúria), a manutenção da publicação veloz dos livros de Stephen King, Heimat (um livro ilustrado que é fabuloso), o mais recente livro do Haruki Murakami e a edição belíssima de 1984 que foi lançada no apagar das luzes de 2019. Palmas para a Cia das Letras pela postura correta com os leitores, a manutenção de sua filosofia como editora de livros e a eficiência.


A melhor editora de literatura de gênero no Brasil hoje é a Editora Morro Branco. Suas publicações em 2019 a colocaram em outro patamar. Mesmo publicando alguns materiais fora desse nicho como A Seca, da autora Jane Harper, 11 dos 12 títulos publicados em 2019 foram ou de fantasia ou de ficção científica (e teve Changeling que é uma fantasia com flashes de terror). Sempre pensando fora da caixinha, eles criaram também o Projeto Cápsula. A ideia é publicar contos de autores famosos que vão servir de porta de entrada para novos leitores. Esses contos são disponibilizados de forma gratuita em uma plataforma dentro do site da editora. Estar na plataforma deles funciona mais para mensurar o grau de interesse do leitor naquele conto, por isso que eles não liberam completamente. Mas, isso é um detalhe. A plataforma é super tranquila de usar, leve, e funciona bem tanto em tablets como em smartphones (eu testei no meu Kindle Fire e no meu Motorola G4 e funcionou como uma luva). Ah, sim, eles já anunciaram boa parte dos títulos para 2020, criando expectativa nos leitores. Uma ótima ação pensando já em formar novos leitores e fãs. Não à toa a editora se tornou uma queridinha entre os blogueiros.



Outro complicador no ano de 2019 foi a situação político-econômica do Brasil. Não quero entrar em discussões ideológicas que não levam a lugar algum (sou bem transparente nesse sentido, me situando em uma posição de centro-esquerda no debate ideológico... gostem ou não), mas é fato que a entrada de um governo cujo viés é claramente direitista-conservador complicou muito a área cultural. A questão não é se as publicações estão certas ou erradas, são pecaminosas ou tortas, influenciam ou não influenciam... o problema é a inércia que isso ocasionou. Enquanto o governo debate o sexo dos anjos, a cultura se encontra parada e atendendo a noções absurdas. É preciso pensar de forma mercadológica: a indústria de livros precisa vender livros. Para vender livros, precisamos de leitores. Para termos leitores, precisamos investir na formação deles. Para formá-los, precisamos de escolas. Para termos escolas, precisamos investir em educação. E hoje não se investe nem em educação, nem em formação de leitores, nem em aporte das editoras em atividade no Brasil. Não é dar subsídios, mas auxiliar com leis de incentivo, com o apoio a eventos. E tudo o que vemos são espetáculos circenses como o que ocorreu no RioCentro durante a Bienal. É as forças policiais sendo usadas para aquilo as quais ela não foi criada para fazer. Resolveu alguma coisa? Apenas criou balbúrdia (usando as palavras do ilustríssimo ministro) desnecessária, causando danos desnecessários à imagem da própria instituição Estado e criando um antagonismo estúpido.


As livrarias continuam fechando. A Cultura encolheu, fechando todas as suas unidades existentes no Rio de Janeiro. A Saraiva está no CTI, tendo fechado a maioria de suas Megastores espalhadas pelo Brasil. Não acredito que a Saraiva saia do buraco. E todo e qualquer investidor com um mínimo de inteligência já percebeu isso, as editoras também já perceberam isso e a livraria sobrevive por aparelhos. Mas, ainda tem uma forte penetração em várias grandes capitais. Esse cenário pode mudar com a entrada de dois novos players: a Leitura e a Curitiba. Ambas cresceram muito no último semestre de 2019, se aproveitando do vácuo deixado pelas que fecharam. Possuem uma visão de mercado mais pés no chão e eu enxergo a Leitura muito como a antiga Laselva, entrando em lugares pouco usuais e até montando uns quiosques bem interessantes. Acredito que essa tendência se mantenha em 2020.


2019 foi um ano também dos financiamentos coletivos. Para bem e para mal. Isso porque tivemos tanto o ponto mais elevado (com o sucesso de Tormenta) quanto o mais baixo (com o crescimento de projetos que não vingam). O diagnóstico básico é que hoje temos muitos cases todos os meses. Era algo que eu havia previsto. Isso criou uma bolha que começou a estourar agora no final de 2019. Não é possível apoiar tudo. E a partir do momento em que se pulveriza demais os apoios, é natural que os projetos não aconteçam. Isso aconteceu pela primeira vez com a Figura Editora, com a publicação de Kraken e quase aconteceu com a Wish, com a caixa de Obras Raras. A partir de 2020, isso pode se tornar mais comum, e vai obrigar aqueles que estão pensando em apostar no Catarse em criar melhores estratégias de divulgação, buscar apoios em formadores de opinião. E o principal: formar um público-base. Isso só é possível a partir da publicação dos materiais, o investimento qualitativo e a constância.


Ficou faltando falar sobre a literatura de gênero nacional e as editoras independentes. Mas, vou deixar para comentar isso em uma nova oportunidade. Por ora, quero ficar por aqui e dizer que 2020 vai ser um ano de recuperação. Enquanto que 2019 foi um ano de pisar no freio e repensar estratégias, acredito que estamos em um momento melhor. A menos que aconteça uma Terceira Guerra Mundial. Aí já é um papo para outro momento. Preciso dizer que tenho boas expectativas para o que vai sair esse ano e vocês verão o quanto eu estou mais otimista nas minhas Previsões de Lançamentos que chegam a partir de fevereiro.


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