• Paulo Vinicius

O ano de 2018 para a literatura de gênero no Brasil

Chegando ao final de 2018, hora de fazer balanços e análises. E por que não começar comentando a respeito de como foi o ano para os autores de fantasia e ficção científica brasileiros? Os avanços, os retrocessos, as alegrias e as críticas em um ano marcado por crises. Confiram!

Capa de A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr

Se podemos dizer alguma coisa a respeito do ano de 2018 é que ele foi movimentado. Para o bem e para o mal. Ele começou com muito otimismo da parte das editoras e terminou com uma crise sem precedentes que vai se estender ao longo do próximo ano. Mas, se tem algo pelo qual o povo brasileiro é virtuoso, é na habilidade de driblar problemas e encontrar soluções inusitadas. Posso dizer com folga que este foi um ano muito benéfico para a literatura de gênero no Brasil. Duvidam? Sigam o meu raciocínio nos parágrafos a seguir. 

Começamos o ano com a novidade da publicação de obras nacionais em uma grande editora. Roberta Spindler e Gabriel Tennyson tiveram suas obras publicadas pela editora Suma, uma das grandes casas editoriais do Brasil. Ambos os trabalhos tiveram uma grande repercussão. Roberta Spindler usou seu conhecimento sobre e-sports para criar uma história muito divertida que fala muito aos jovens e pessoas que curtem este filão. A autora esteve entre os cinco livros mais vendidos da Bienal de SP em 2018. Vocês tem alguma noção do que é se destacar em um extenso catálogo como o do grupo Companhia das Letras (do qual a editora Suma faz parte)? Tivemos também o ótimo trabalho do Tennyson com seus Deuses Caídos e a habilidade de escrita do autor é visível a todos. A facilidade com a qual seus roteiros podem ser lidos lhe renderam até a compra dos direitos para se tornar uma série ou um filme no futuro. No primeiro ano de lançamento, o autor teve os direitos de seu trabalho adquiridos. Olhem o impacto disso! 

No caso da Roberta eu já conhecia o trabalho, e o Tennyson tem uma participação incrível nas redes sociais. Mas, 2018 nos apresentou também um outro personagem surgindo para gerenciar a vida dos autores: a dos agentes literários. É inegável que ambos os autores são incríveis, mas o suporte dado pela Agência Página 7 também é essencial. Não só ela, como a Increasy também está no mercado. As agências surgem como uma forma de lidar com todos os aspectos da carreira do autor. Não apenas fazem o trabalho de revisão e copidesque, o que ajuda e muito a negociar bons acordos com grandes editoras, mas lidam com redes sociais, parceiros e mídias de divulgação. Não sei vocês, mas eu já aprendi a observar quando um autor ou autora é gerenciado por um agente, e já sei que quando se trata da Página 7 ou da Increasy é para ficar de olho e que o produto vai ser de qualidade. Esse ano serviu para introduzir esse novo personagem no Brasil e vamos ver nos próximos o quanto ele vai se tornar essencial. Para mim, acabou a era do autogerenciamento e o amadorismo que tanto perseguem a publicação no Brasil. Autor que não souber o que está fazendo ou não tiver uma agência por trás cuidando de detalhes não vai conseguir sobreviver. 

Odisseia de Literatura Fantástica

Tivemos também grandes eventos de literatura fantástica no Brasil: o Prêmio LeBlanc, a Odisseia de Literatura Fantástica, o Prêmio Argos. Isso porque eu certamente devo estar esquecendo de alguns. Finalmente descobrimos a importância que premiações e eventos tem para o desenvolvimento do gênero no Brasil. Vou começar falando pela Odisseia que reforçou a qualidade dos trabalhos do grupo de autores que se situa no sul do Brasil. Um grupo que conta com mentes pensantes como o Eneias Tavares, o A.Z. Cordenonsi, a Nikelen Witter, o Bruno Matangrano e muitos outros. O grupo de Santa Maria já desponta como um formador de talentos e encara de frente o eixo Rio-São Paulo. Mas, o eixo não fica para trás, e tivemos duas importantes premiações: o LeBlanc que ocorreu na UFRJ e o Argos que ocorreu esse ano em São Paulo. O LeBlanc ampliou seu escopo e além de abraçar quadrinistas e mestres na arte sequencial, trouxe um evento recheado de atrações literárias. Tive a oportunidade de participar de uma mesa incrível onde estavam representantes de importantes casas editoriais de literatura de gênero no Brasil: a editora Suma, a editora Aleph e a Ana Lúcia Merege, representando os autores nacionais. O Argos também propôs uma série de mesas para discutir os rumos da literatura de gênero nesse país. Além de ter tido uma das premiações mais disputadas dos últimos tempos. 

Mas, falando do LeBlanc, não tenho como não começar o destaque para as editoras sem falar na Avec. Para mim, das editoras que mexem com literatura nacional, é a que mais se destacou em 2018. Não apenas pelo esforço e o carinho com a qual lidam com seus materiais, mas por dar espaço (e muito espaço) para autores e quadrinistas nacionais. Não à toa a Avec dominou o LeBlanc com indicações e premiações e teve muito destaque também no Argos além de outros prêmios ao longo do ano. Não digo isso porque são meus parceiros, até porque eu só corro atrás de uma parceria quando eu acredito no projeto. E eu acredito no projeto da Avec 100%. O Artur Vecchi é um dos editores mais acessíveis deste país e ele sempre tem uma palavra sensata sobre mercado ou sua empolgação pelos futuros projetos. Para destacar alguns de seus melhores projetos em 2018 estão a Betina Vlad, do Douglas MCT e Os Desafiadores do Destino, uma HQ incrível com roteiro do Felipe Castilho, arte do Mauro Fodra e cores por Mariane Gusmão. Um projeto que não deve nada a nenhum quadrinho europeu (já que eles usam esse formato como base). Também há de se destacar a preocupação da editora em resgatar trabalhos esquecidos como o Hélio de Soveral (com seu O Segredo de Ahk-Manethon) e O Judoka (do FHAF), uma HQ clássica nacional que perdeu seu espaço. 

Posso destacar também o trabalho da Lendari e do Mário Bentes. Um baita editor que se você ainda não conhece, certamente vai ouvir falar muito dele em 2019. A Lendari tem uma produção menor por conta de uma necessidade do editor de ter obras muito bem trabalhadas para chegar às prateleiras. Eu já li três trabalhos da Lendari e posso atestar quanto à qualidade do material. O autor, que já esteve conversando conosco em uma edição do Ficções Live (Live com a Editora Lendari) e a gente consegue perceber o quanto a mente do Bentes está sempre à frente. Há de destacar alguns projetos muito bacanas: o Creepypastas é uma coletânea sensacional de contos de terror se aproveitando do saudosismo dos leitores das décadas de 1980 e 1990; oissi destacar também O Corpo, do Rodrigo Vinholo e me apresentou esse autor sensacional. Vinholo tem uma pegada de terror que vai surpreender muita gente. Para o próximo ano, o editor revelou em uma live recente que está criando um novo selo editorial voltado também para revelar novos talentos, ou seja, tem muita coisa da Lendari chegando. 

Logotipo da Editora Dame Blanche

Impossível não falar de editoras de destaque em 2018 e não mencionar a Dame Blanche. O trabalho da Anna Fagundes Martino e da Clara Madrigano só ganhou mais destaque ainda esse ano. Alguns vão argumentar que elas produzem em pequena quantidade, mas a mentalidade das duas editoras é semelhante à do Mário Bentes: para que eu vou colocar um produto nas prateleiras se ele não tem todo um cuidado no seu preparo? As meninas lançaram apenas um ebook (possivelmente mais um neste final de ano), mas ele já foi para a lista de melhores leituras do ano de muita gente. Inclusive a minha. A curadoria de ambas é muito boa e elas sabem potencializar os pontos fortes dos autores e autoras que elas publicam. Ambas souberam usar a FLIP com maestria para divulgar o ebook da Paola Lima Siviero (O Auto da Maga Josefa) e criaram um hype enorme em cima do material. Não foi apenas hype, foi realidade pura. Obra incrível do qual só tenho elogios. A Paola já era uma autora muito boa que batia na porta de vários lugares querendo seu espaço, mas agora tenho certeza de que ela encantou muita gente com as aventuras de Toninho e Josefa. 

O meu último destaque editorial fica para a Monomito. Uma editora que tem surgido com alguns bons trabalhos e nesse final de ano publicou materiais muito bons. Através de uma parceria com a Associação Brasileira de Escritores de Terror (a ABREST), eles publicaram a coletânea Confinados, fruto de um workshop da ABREST, e O Ferrão do Escorpião, da Soraya Abuchaim. Edições bonitas, uma revisão acima da média e um cuidado muito bacana com os seus materiais. São fórmulas boas para colocar a editora na prateleira e nos corações de muita gente. Fiquem ligados para o que eles vão trazer em 2019. 

O ponto alto da literatura de gênero nacional em 2018 foi a FLIP e a Bienal de SP. Na primeira, surgiu a Casa Fantástica, um espaço fora do evento principal que reuniu a nata de autores e mentes ligadas ao mercado editorial no Brasil. Um evento extremamente produtivo que teve quatro dias de muitos debates profundos e acalorados que ficaram na memória dos envolvidos. Eu fui um dos apoiadores da casa e infelizmente não pude comparecer na FLIP, mas espero que este ano se repita o evento. Porque eu certamente estarei lá. O caso é que fomos capazes de chamar a atenção o suficiente para estarmos em um grande evento, muito mais ligado à chamada literatura erudita. A FLIP abriu suas portas para outras influências e o mercado de gênero soube aproveitar esse espaço. 

Já a Bienal teve uma forte participação de autores nacionais. As filas em busca deles estava enorme. Pessoas como a Íris Figueiredo, o Vitor Martins, a Fernanda Nia, o Felipe Castilho, as meninas da Dame Blanche, entre outras pessoas foram caçadas por todo o evento. Todos foram unânimes em revelar situações onde forma muito bem recebidos pelos leitores. Como não foi possível trazer grandes talentos do mercado internacional, as editoras apostaram em uma receita mais caseira que deu muito sucesso. A ausência da Saraiva deu também liberdade total para as editoras darem descontos mais agressivos, proporem atividades experimentais e apostarem no contato direto. Para mim, acerto total. 

Imagem da Exposição O Fantástico Brasileiro no ILEA (RS)

Há de se destacar também as formas alternativas de alcançar o público como a autopublicação e o financiamento coletivo. A autopublicação é a vitrine para novos autores. Hoje com a existência de plataformas como a Amazon e o Wattpad, muitos autores conseguem notoriedade simplesmente ao publicar seus trabalhos nestes espaços. Dessa forma tira-se o foco um pouco do anseio em publicar por grandes editoras e a pressão de buscar contatos. Estão aí pessoas como o Diogo Andrade, com seu A Canção dos Shenlongs, o Thiago D'Evecque com Limbo e agora A Promessa de Fogo. A autopublicação fornece uma variável que antes não era encontrada em outras plataformas: você comanda o processo. Desde a criação da capa, a formatação, a revisão, tudo. 

Logicamente que existe um calcanhar de Aquiles nisso. Se o autor é o responsável por todo o processo, logo o autor é responsável também pelo sucesso ou pelo fracasso. Já peguei muitos casos de autores com materiais mal revisados, ideias bacanas, porém mal trabalhadas. Uma coisa que os autores iniciantes precisam aprender é que uma boa revisão faz muita diferença no resultado final. Não podemos ser arrogantes e achar que tudo é fácil e é só botar a pena no papel. Existe muito por trás da publicação de um livro. E se os autores que eu citei acima foram bem sucedidos é porque eles realmente abraçaram todo o processo e perceberam passo a passo quais as necessidades que deveriam ser atendidas. 

Em relação ao Wattpad eu não tenho muito a comentar porque não consegui me adaptar à plataforma. Eu tenho dificuldade em lidar com materiais incompletos e que ainda precisam de retoques. Quase sempre eu me nego a trabalhar com materiais de lá. É algo meu, não é uma crítica. Porém, há de se dizer que tivemos bons autores saindo de lá como o Gustavo Ávila e seu Sorriso da Hiena, que teve seus direitos comprados para produção de filme ou série de TV. A vantagem do Wattpad é poder contar com um público participativo funcionando como dezenas de leitores beta simultâneos. Logicamente que o autor precisará saber como as opiniões dos leitores podem impactar na sua escrita final. Há de se ter equilíbrio. 

E se estamos falando de formas alternativas de publicação, não há como não mencionar os financiamentos coletivos. Esse foi o ano deles. Com a crise se espalhando por todo o mercado editorial, vários autores precisaram se embrenhar no Catarse ou no Kickante para encontrar saídas para seus problemas. E o resultado foi excelente. Tivemos algumas obras que foram contempladas com sucessos estrondosos como o segundo volume de Araruama, do Ian Fraser, e O Sangue do Dragão do Denis Ibañez. Na campanha de financiamento coletivo o autor tem um contato direto com os fãs e precisa lidar com eles o tempo todo. Pedir opiniões, apresentar o processo de desenvolvimento: é como se fosse um pitch de trabalho. Os apoiadores são como os entrevistadores em uma oferta de emprego. Cabe ao autor saber passar pelo processo. Fiquei muito feliz ao ver como os autores brasileiros perceberam as possibilidades dessas plataformas. Tivemos até uma obra de afrofuturismo, da Lu Ain Zaila, sendo financiada pelo Benfeitoria. Sensacional!

Plataforma de financiamento coletivo

Mas, nem tudo são flores. Preciso dedicar essa última seção da minha postagem a fazer algumas críticas a algumas posturas muito feias de autores. E que precisam ser repensadas para que o próprio mercado de publicações no Brasil possa prosperar. Por conta da polarização advinda das eleições presidenciais em 2018, houve inúmeros problemas entre autores e leitores, ou autores e outros autores, ou autores e membros do mercado editorial. Seja que governo for, é impossível defender quem ataca a cultura. Isso em um país onde cultura é algo voltado para uma pequena porcentagem da população. No entanto, houve diversas situações em que autores revelaram posturas reprováveis defendendo a elitização da cultura, escarnecendo do próprio público que compra seus materiais ou exercendo preconceito e/ou xenofobia. Independente das convicções políticas, é preciso entender que o público é o ganha pão. Quando eu humilho, diminuo ou desfaço daquele que me dá o ganha pão ou me fornece a popularidade, eu estou fazendo um trabalho ruim como autor. Vou usar um exemplo extremo: por mais que o Orson Scott Card seja um fascistóide e machista, ele respeita o seu público. Nunca vi o autor ofendendo ou diminuindo um leitor. No entanto, durante o período eleitoral não foram raros os momentos em que autores saíram para a ofensa pessoal a leitores. 

Outra mudança de comportamento necessária é o excesso de paternalismo em relação a uma obra. Não há mais espaço para um autor tratar o seu livro como um bebê lindo e maravilhoso. Todo livro é passível de críticas e toda crítica é subjetiva. Eu posso gostar de um livro, mas o meu vizinho não. Nem por isso um autor precisa perseguir ou rechaçar violentamente um detrator. É um comportamento infantil que se repete a torto e a direito na internet. Precisamos de profissionalismo urgente. Enquanto não formos capazes de entender que um livro é um produto, vamos continuar com essa postura tosca e rudimentar. Mesmo quando um leitor faz uma crítica injusta, quando um trabalho é bem escritor, o próprio corpo de leitores vai defender o autor. Não há necessidade de se envolver diretamente no problema. Ninguém é unânime... aliás, a unanimidade é burra, já dizia o saudoso Nelson Rodrigues. 

Por fim, influenciadores digitais são necessários sim. Não é porque eu sou um blogueiro que eu vou defender o que eu faço. Aliás, no momento em que eu não servir mais como produtor de conteúdo, eu vou para a esquina da minha rua e passo a cuspir fogo ou vender balinhas para passar o tempo. O que os influenciadores fazem é atrair um novo público para uma determinada obra. Toda vez que eu apresento uma resenha ou elogio um autor ou trabalho, estou atraindo meus seguidores para prestarem atenção a um determinado produto (e isso porque eu sou um blogueiro minúsculo). A crítica literária profissional anda em franca decadência há anos e não se renovou para buscar despertar o interesse das novas gerações. Eu estou quase na casa dos quarenta anos e não tenho saco para os colunistas literários dos jornais de grande circulação. Eles não falam sequer a minha língua, quanto mais a dos mais jovens. Sim, senhor autor, aquele blogueiro que você detesta é necessário para você. Ele vai te dar mais vendas. Pessoas como o Felipe Neto, a Tatiana Feltrin, a Isabella Lubrano, a Mel Ferraz, o Vitor Martins, todos são importantes. Vão abrir as portas para outras pessoas poderem conhecer o seu trabalho. Goste você ou não. 

Enfim, apesar das críticas finais, eu tendo a pensar em 2018 como um ano muito bom. Certamente não fui capaz de abordar um ou outro assunto (e isso porque esta matéria já está enorme), mas eu queria destacar os pontos principais que estiveram em destaque. Só tenho boas expectativas para o ano que vai se seguir, apesar de achar que ainda sofreremos e muito com a queda do mercado. Mas, persistir sempre e não desistir jamais é um mantra do brasileiro. ​


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