• Paulo Vinicius

Na Mesa do Escritor: O que Aprendi Organizando Coletâneas

Na coluna deste mês, Ana Lúcia Merege nos passa um pouco daquilo que ela aprendeu organizando coletâneas de contos. A arte de selecionar contos, como organizá-los e outros detalhes que parecem irrelevantes para nós, mas fazem toda a diferença no final.



Pessoas Queridas,


No post de hoje, quero compartilhar um pouco da minha experiência em algo que adoro: organizar coletâneas.


Os livrões de mil páginas e séries intermináveis que me perdoem, mas o conto é fundamental. Foi por meio deles que os leitores conheceram Robert E. Howard, H. P. Lovecraft e muitos outros. Já no Brasil foi diferente: as revistas dedicadas ao gênero circulavam em grupos restritos, e quando o mercado cresceu um pouco, na segunda metade dos anos 2000, os contos fantásticos brasileiros começaram a aparecer não em periódicos, mas em coletâneas de editoras surgidas na mesma época.


Mais de uma década depois, temos revistas se consolidando no gênero e muitas possibilidades de publicação independente, mas as coletâneas continuam firmes e fortes. Uma rápida busca na rede vai mostrar pelo menos dez editais abertos, com temas e especificações as mais variadas... E um rápido passeio pelos grupos de escritores vai mostrar muitas dúvidas e confusão envolvendo essas publicações.


- E como você, logo você, Ana, foi se meter nisso?


Meu primeiro trabalho surgiu a partir de uma conversa com a escritora Ana Cristina Rodrigues. Organizamos, pela Editora Ornitorrinco, dois volumes do “Bestiário”, cada um com seis contos de autores diferentes e seis textos escritos por nós sobre criaturas fantásticas. Depois comecei a organizar coletâneas na Draco. As primeiras foram “Meu Amor é um Sobrevivente”, coorganizada com Janaína Chervezan, e “Excalibur”, com tema sugerido por mim ao editor, Erick Sama.


Dessas coletâneas eu trouxe experiências valiosas que usei nas demais: “Medieval”, coorganizada com Eduardo Massami Kasse, “Magos” e “Duendes”. E muito do que aprendi eu partilho com quem me faz a pergunta de um milhão de shekels:


- O que levar em conta ao organizar uma coletânea?


Para começar, tenha algo em mente: não existe fórmula mágica para o sucesso. Isso depende de uma série de fatores, e não há nada que o organizador possa fazer quanto à maioria deles. O que procuro aqui é dar algumas dicas sobre o que se pode fazer para produzir algo bacana.



Então, digamos que você queira organizar uma coletânea de contos fantásticos contemporâneos (e não uma antologia de textos representativos, tipo “O Melhor da Ficção Científica Eslovena de 1900 a 1980”). Talvez você esteja por conta própria, atuando como editor, além de organizador; talvez trabalhe com uma editora ou queira apresentar o trabalho pronto a uma delas. Em qualquer caso, estes são os pontos que eu sugiro considerar:


- Tema e foco da coletânea. Isso depende do seu objetivo. Se for uma ação entre amigos, e as vendas não importarem tanto, não há o que pensar: fiquem com o tema que mais os empolgar e mãos à obra. No entanto, se a coletânea tem a finalidade de vender, deve despertar o interesse dos leitores – e aí vale a pena dar uma sondada no mercado, ver o que está em alta, descartar as temáticas muito batidas ou que apareceram em coletâneas recentes, bem como conhecer, o melhor possível, os gostos e referências do seu público-alvo.


Se você trabalhar com um editor, talvez ele não se interesse por alguns temas (como assim, você acha que “Pelicanos Telepatas” não vai vender???) ou proponha mudanças no foco. Por exemplo, minha proposta original para “Excalibur” era voltada para o público jovem, mas o Erick achou que seria melhor uma pegada adulta, e também abriu para a possibilidade de vertentes variadas dentro do gênero fantástico – daí termos Artur em cenários steampunk, space opera e no Brasil de D. Pedro III. Já em “Duendes”, ele pediu que os contos fossem todos de fantasia sombria; o edital, a campanha no Catarse (quem se lembra dos versinhos?) e o projeto gráfico do livro foram construídos em cima disso.


- Especificações. Pense em quantos textos você quer incluir no livro ou quantas páginas espera ter (importante em qualquer caso, fundamental se for livro físico). Com isso em mente, determine o número de autores e o tamanho mínimo e máximo dos textos (uma dica: certas vertentes do fantástico, tais como a fantasia histórica, costumam se desenvolver melhor quando há mais espaço). Decida também se só aceitará inéditos ou se os contos podem já ter sido publicados, se o envio será em .docx ou PDF, faça todas as ressalvas. Ou seja, pense em tudo que você não quer na coletânea -- histórias com gore, histórias que não incluam elemento fantástico, histórias para maiores de 18 anos – e inclua isso no edital ou no convite. Seria chato ter que pedir a um autor convidado para reescrever um texto porque você queria todos em terceira pessoa. Isso ainda pode acontecer, mesmo que você tenha sido claríssimo. Mas sempre é bom tentar prevenir.


- Edital, contrato e condições. Aqui não irei me alongar; nunca lidei com a parte de direitos autorais, direitos de tradução e outras questões jurídicas e administrativas. O que posso recomendar é que tanto o contrato como o que vem antes -- edital e/ou convite -- sejam tão objetivos e transparentes quanto possível. Algumas coisas têm que ser esclarecidas logo de cara. Já vi editais dizendo que a participação era gratuita e, ao receber o contrato, os autores ficaram sabendo que gratuita era apenas a submissão: para entrar no livro, eles teriam de adquirir 20 exemplares ao preço X. Não preciso dizer o quanto ficaram felizes.


- Quem escreve. Se não estiver organizando uma ação entre amigos, você terá de fazer convites ou abrir uma seleção. Trabalhar com convidados é mais seguro: você pode reunir autores que tenham afinidade com o tema, garantir representatividade (ou pelo menos tentar) e, uma vez que já reuniu o time, combinar alguns pontos para tornar a obra mais interessante. No caso de “Medieval”, eu e Eduardo convidamos autores bons de pesquisa histórica, e cada um definiu o cenário em que iria escrever – e funcionou muito bem. Por outro lado, abrir para o público traz a possibilidade de receber textos maravilhosos de onde menos se esperava, e até revelar novos autores, como aconteceu em “Excalibur” e “Duendes”.



Aos que fazem edital aberto, recomendo incluir um ou mais convidados, por duas razões: garantir variedade (já começamos “Duendes” sabendo que haveria contos de duendes japoneses, galeses e da América Latina) e conferir um certo “peso” à coletânea por meio de um nome um pouco mais conhecido. Um prefaciador também pode ajudar, mas leve em conta o estilo e o público-alvo da obra: um prefácio escrito por um autor do gênero ou por um influenciador da mídia provavelmente será diferente do de um acadêmico.


Tenham ainda em mente a Regra Número Um: nada garante o sucesso, inclusive nesta etapa. Nem todos os convidados poderão participar; bons autores podem escrever contos fracos e/ou inadequados ao projeto (mas, se eles forem realmente bons, aceitarão trabalhar em cima!) e, na seleção aberta, é provável que cheguem muitos textos fracos ou crus. Então... Prepare-se para garimpar!


- O trabalho de seleção. Você abriu o edital, os contos foram chegando (a maior parte nos últimos dias e vários nos últimos minutos) e no final você se viu com algumas dezenas ou centenas de textos. Agora é só ler todos e escolher os melhores, et voilà: está resolvido. Muito simples, né?


Só que não é bem assim. Não se trata de um concurso de contos, que irá premiar os melhores segundo uma série de critérios (ser bem escritos, originais, surpreendentes e por aí vai). Não, uma coletânea é pensada como um conjunto, e como tal ela deve levar em conta a variedade, o equilíbrio e a harmonia entre os textos. Quer um exemplo? Quem compra a coletânea “Excalibur” deve gostar e conhecer um pouco dos mitos arturianos, por isso espera ver no livro figuras como Merlin, Arthur e os cavaleiros. E se todos os contos – apesar de ótimos – girassem em torno de Mordred? Não seria um pouco frustrante? E se, na coletânea “Duendes”, oito das onze histórias fossem sobre crianças trocadas? Meio repetitivo, não?


Assim, eu sugiro dividir o trabalho de seleção em duas etapas. Na primeira, boa parte dos contos será eliminada por uma série de critérios: uns por estar mal escritos, outros por ter furos graves na trama ou fugir da proposta (no caso de “Duendes”, isso incluiu excelentes contos com pegada juvenil). Durante a leitura, você verá alguns textos que se sobressaem, prendem a atenção, têm tudo a ver com o espírito da coletânea: esses você já separa para incluir. Então, se não tiver completado as vagas, procure, entre os remanescentes da segunda leva, os que confiram equilíbrio, deem uma nota variante, tragam uma narrativa diferente ou um novo cenário.


- A organização interna. Escolhidos os contos, resta uma tarefa que eu, pelo menos, considero importante: determinar sua ordem na coletânea. Já ouvi organizadores dizendo que começam e terminam com os melhores, que usam a ordem alfabética, que alternam os contos mais narrativos com os mais dinâmicos. Eu sigo uma estratégia: abro com o conto que irá evocar algo conhecido dos leitores (cruzadas em “Medieval”, um Artur baseado em Thomas Mallory em “Excalibur”) ou vá ao encontro de suas prováveis expectativas (em “Magos” e “Duendes” foi mais o estilo de escrita). E fecho com a obra que dá mais sensação de portas abertas, deixa um restinho de indagação no ar (o de “Excalibur” é o melhor exemplo). Nem todos vão concordar com minhas escolhas, mas... é o critério que me parece funcionar melhor. Também prefiro que as biografias dos autores venham no final. Já textos complementares, caso haja (textos dos autores sobre a experiência da escrita, por exemplo, ou informativos, como os que tratavam das criaturas nos volumes do “Bestiário) podem estar no final ou intercalados. Vale uma análise, caso a caso, para decidir como fica melhor.


Após a seleção, seguem-se as idas e vindas da leitura crítica, copidesque e revisão. Não vou me alongar aqui, porque não é específico de coletânea; também não vou tratar de questões de orçamento, financiamento ou divulgação, que em princípio cabem à editora e não ao organizador. No entanto, para todos que começam a navegar nestas águas, quero tocar num último ponto:


- Capa, projeto gráfico e apresentação. Peço desculpas se isso parece óbvio, mas, pelos tópicos que vejo abertos em grupos de escritores, percebo que muitos têm dúvidas. Então, eis o que penso: uma coletânea pode ter um tema instigante e os contos mais incríveis, mas apresentação conta muito sim. Há quem compre livros pela capa sim. Às vezes não compram na hora, mas dão um jeito de comprar depois. Perdi a conta de quantas pessoas, em eventos, correram para agarrar (literalmente) nossas coletâneas por causa das capas; vi livros com contos muito bons ficarem de lado por causa de capas inadequadas. E quando digo inadequadas não quero dizer necessariamente feias ou malfeitas. Às vezes uma capa é bonita, mas não traduz bem a obra: remete a algo juvenil num livro adulto, por exemplo, ou é muito genérica. Vale a pena pesquisar, para ter uma ideia do que funciona, e contratar profissionais para o projeto, capa e diagramação (sim, isso tem um custo; eu disse que não falaria sobre a parte de orçamento, mas que ela existe, existe). E o mesmo se aplica à revisão. Um errinho ou outro sempre passa, mas frases truncadas, pontuação malfeita e um piano de calda espreitando a cada parágrafo irão depor contra o livro, os autores e os responsáveis pela edição.


Eu teria mais a dizer, mas já me estendi bastante. Fico por aqui, à espera de comentários, dúvidas, questionamentos. E se algum outro organizador quiser se juntar ao debate, será muito bem-vindo.


Fiquem bem, e até a próxima!


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