• Paulo Vinicius

Mestres das Ficções: Octávia E. Butler

No aniversário da autora, vamos falar um pouco sobre os principais temas e inovações que ela trouxe para seus livros. Por que ela é tão importante para o cenário da ficção científica? O que a torna diferente?

A Chegada da autora no Brasil

​Já há uns dois anos, os leitores de ficção científica tem sido presenteados pela editora Morro Branco com a publicação no Brasil de um dos maiores símbolos do gênero no século XX: Octávia E. Butler. Anteriormente desconhecida no Brasil (apenas aqueles mais ligados ao gênero tinham contato com seus trabalhos), a autora ainda não havia sido abraçada por uma editora. Com uma bibliografia que beira os vinte romances, a autora é vencedora do Nebula, do Hugo, do Locus e de vários outros prêmios. Faz parte do Hall da Fama da Ficção Científica, além de até ter uma montanha em uma das luas de Plutão (Caronte) com o seu nome. 

Geralmente associada ao movimento do afrofuturismo, suas temáticas sempre foram impactantes em seus trabalhos. Seja uma crítica ao colonialismo, ao preconceito, à religião, nada escapava de seu olhar crítico. Já manifestei em outros momentos o meu espanto de a autora ter demorado tanto tempo para encontrar terras tupiniquins. Alguns de seus livros parecem realmente terem sido feitos para o público brasileiro como o icônico Kindred - Laços de Sangue. Quem se depara com uma obra da autora, raramente sai ileso. São frases poderosas, que entram em nossos corações como agulhas, mostrando a nós o que geralmente não queremos ver. Apesar de terem sido escritos em uma outra época, com outros problemas, são livros atemporais, cujas narrativas ecoam décadas no futuro. Ressoam, incomodam, cutucam. Esse talvez seja o maior legado da autora: uma obra sempre pertinente, capaz de nos fazer pensar em como tratamos o outro, em como identificamos a nós mesmos dentro de uma sociedade eivada de diferenças sociais e desigualdades. 

Infelizmente ela faleceu aos 58 anos, em 2004, tendo deixado uma de suas maiores séries incompletas: o Semente da Terra. Originalmente pensada para ser uma trilogia, somente dois volumes foram publicados: A Parábola do Semeador e A Parábola dos Talentos. Para os leitores de ficção científica, fiquem despreocupados. Ambas as obras possuem finais fechados, mas ela havia deixado algumas ideias para serem desenvolvidas em um terceiro volume. Acredito que a autora ainda tinha muitas histórias a contar, mas infelizmente seu tempo na Terra havia chegado ao fim. No Brasil já foi publicado Kindred - Laços de Sangue, a série Semente da Terra completa e Despertar, primeiro volume da série Xenogênese (com mais dois volumes a serem publicados sendo que Ritos de Maioridade é o próximo da fila). Todos os títulos foram publicados pela editora Morro Branco que possui os direitos de publicação da autora no país. E tem feito um trabalho excelente, com muito esmero na tradução e na forma de publicação. 

Sua Importância para a Literatura Mundial

​Mas, por que a autora é tão importante. Vou lhes dar três motivos: 

1 - É possível publicar uma ficção científica mais provocativa? Sim!

Octávia Butler começou a ter seus títulos publicados em 1976 (apesar de haverem alguns contos soltos publicados antes), mas Patternmaster foi sua porta de entrada. Logo de cara ela nos apresenta uma narrativa sobre divisão social em um mundo dominado por telepatas. Philip K. Dick e Samuel R. Delany haviam nos mostrado o quanto era possível avançar em discussões sociais no campo da ficção científica. Mas, Butler levou isso a um novo patamar. Deixou até um pouco de lado as convenções do gênero para apostar em algo mais literário (por isso ela recusava um pouco o rótulo de escritora de scifi). Ao chegar ao grande público, apresentou uma nova forma de contar histórias futuristas. Sem muito laser e com maior reflexão. Como eu disse, não era nada novo e outros autores já haviam feito isso antes, mas ao lidar com assuntos provocativos e polêmicos (como seu professor, Samuel R. Delany) ela foi capaz de aproximar o gênero. 

2 - É possível tocar em temas caros à comunidade negra na ficção científica? Sim!

Três anos mais tarde, em 1979, ela publica Kindred. Se ela já havia alcançado algum interesse com seu romance anterior, é com este livro que ela alcança um outro degrau. O romance é visto até hoje como um clássico da literatura norte-americana, figurando entre nomes como Charles Dickens, F. Scott Fitzgerald entre tantos outros. Ele é parte do currículo de várias escolas nos EUA por tratar de um período importante da história do país: o século XIX nos territórios confederados. Falar da escravidão negra é importante para que possamos relembrar e refletir sobre o que aconteceu no passado. Uma das funções da História é servir como mestra da vida, como dizia Heródoto (um dos pais da disciplina). É tentar aprender com nossos erros, mesmo que nunca o façamos. Relembrar é perceber através de um debate honesto aonde erramos. A autora faz isso dentro do gênero da ficção científica, como uma história absolutamente impactante. 

3 - É possível uma mulher escrever ficção científica? Sim!

Haviam mulheres que escreviam ficção científica antes dela. Tivemos Leigh Brackett, Claire Winger Harris e a sensacional Úrsula K. Le Guin. Mas, elas ainda eram poucas e precisavam de mais exemplos para adentrarem nesse universo. Não digo que Octávia abriu essas portas, mas ao lado de Le Guin fora as principais incentivadoras e propagadoras da entrada de mulheres no gênero. Frequentemente Octávia aparecia em grandes programas de entrevistas, participava de congressos e palestras. Ela foi um marco para o gênero. Se hoje temos nomes incríveis como Nnedi Okorafor, N.K. Jemisin, Tomi Adeyemi entre tantas outras, é porque tivemos a publicação de um Kindred, de um Despertar, de um Patternmaster, que fez parte certamente da vida dessas mulheres que foram inspiradas pela autora. 

Suas Protagonistas Fortes

​Nesse aniversário dessa grande autora eu gostaria de agradecer a ela, onde quer que ela esteja, por ter nos apresentado a personagens maravilhosos como Dana e Lauren. Dana com sua ida ao passado e seu questionamento de por que o homem sente a necessidade de escravizar o próximo. Através de uma narrativa cercada de muita violência, ela nos mostra as agruras passadas por eles: da chicotada à objetificação. Ao ser escrito em primeira pessoa, Kindred abala nossas convicções, nos transporta para um ambiente hostil onde a sua cor de pele te torna automaticamente inferior. Onde você representa menos que um ser humano. Ao nos mostrar essa realidade, ela nos conta por que a comunidade negra ainda sente rancor pelo período em que esteve subjugada pelo homem branco. 

Ou Lauren e seu mundo apocalíptico. Onde basta uma pequena fagulha para fazer com que toda a ordem social vá pelos ares. Ela escreve uma obra sobre crise climática em uma época onde apenas engatinhávamos sobre o tema. Em um mundo onde a desesperança tomou conta do coração mesmo do mais otimista, a protagonista surge com uma nova percepção da religião. De como a fé pode ser direcionada a outras coisas. Em toda a sua criatividade, Octávia cria toda uma filosofia baseada em ideias que ela acreditava serem construtivas para a humanidade. Como eu mencionei, mesmo obras de ficção científica podem nos deixar algo para trás. A luta de Lauren é a luta de todos nós para dar sentido ao nosso viver. 

Isso sem falar em outros personagens como a Lilith Iyapo de Despertar. Sem dúvida alguma, a autora deixou uma marca indelével para nós. Com uma escrita provocativa, com um estilo único e com livros que se tornaram fundamentais para a literatura mundial. É por esses e tantos outros motivos que a autora é uma Mestra das Ficções. E é por isso que suas obras devem ser celebradas por todos nós. 



Livros mencionados:


Ficha Técnica:


Nome: Kindred

Autora: Octávia E. Butler

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Carolina Caires Coelho

Número de Páginas: 448

Ano de Publicação: 2017


Link de compra:

https://amzn.to/2DSk9mA


Resenha no Ficções:

https://www.ficcoeshumanas.com.br/post/resenha-kindred-de-oct%C3%A1via-e-butler


*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco



Ficha Técnica:


Nome: A Parábola do Semeador

Autora: Octavia E. Butler

Série: Semente da Terra vol. 1

Editora: Morro Branco (no Brasil)

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Carolina Caires Coelho

Número de Páginas: 416

​Ano de Publicação: 2018


Link de compra:

https://amzn.to/2YEHeAW

Resenha no Ficções:

https://www.ficcoeshumanas.com.br/post/resenha-a-par%C3%A1bola-do-semeador-semente-da-terra-vol-1-de-oct%C3%A1via-e-butler

*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


Ficha Técnica:


Nome: A Parábola dos Talentos

Autora: Octávia E. Butler

Série: Semente da Terra vol. 2

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Carolina Caires Coelho

Número de Páginas: 560

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

https://amzn.to/2XPpea9


*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco





Ficha Técnica:


Nome: Despertar

Autora: Octavia E. Butler

Série: Xenogênesis vol. 1

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Heci Regina Candiani

Número de Páginas: 352

Ano de Publicação: 2018


Link de compra: 

https://amzn.to/2EbwrrQ


*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco






Tags: #mestresdasficcoes #octaviaebutler #ativismo #feminismo #protagonistasfortes #desigualdadesocial #preconceito #xenofobia #lutasocial #kindred #paraboladosemeador #paraboladostalentos #despertar #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.