• Diego Araujo

Desafio Ficções Humanas: "Terra sem Males", de Maria José Silveira

Terra Sem Males é um livro cheio de exemplos de como reproduzir uma história do folclore brasileiro, tratando de suas características fantásticas e a ressoar nossa cultura em cada frase escrita.



Sinopse:


Esta história se passa em um Brasil mítico e imaginário. O Primeiro Povo é o herdeiro do segredo da Terra sem Males, procurada por todos que já ouviram falar de sua existência. A busca desse segredo é o grande conflito da trama.


O povo herdeiro sabe que o segredo para essa “terra de muita alegria, liberdade e amor” é viver da melhor maneira possível, e esperar. Mas o povo do El Dorado, o grande inimigo, acredita que o segredo é algo mais concreto e material, e planeja conquistá-lo.


Para isso arregimenta seu próprio exército, e o exército dos Homens Sem Cor, dos Mortos-vivos e Corpos-Secos. O Primeiro Povo, por sua vez, tem em sua defesa as terríveis icamiabas (conhecidas também como amazonas), e vários outros seres que são parte de nosso imaginário, como a M`Boitatá, a Uiara, o Curupira e o Saci, a Velha Pisadeira, os gêmeos Macu e Naíma, e os Homens da Chuva.


O romance conta a história do ataque do povo do El Dorado ao Primeiro Povo, com muito suspense, cenas chocantes, mortes, paixões, muito humor e nenhum compromisso com qualquer verdade a não ser a do reino da imaginação.


A narradora é Ci, Mãe do Mato que, transformada por Mario de Andrade na estrela Beta Centauro, a tudo vê de seu posto eterno em um canto do firmamento.






Ao acompanhar aventuras fantásticas brasileiras sobre o nosso folclore, é comum esperarmos histórias envolvendo criaturas sobrenaturais, ora focando toda a trama em um deles, ou então traz o amálgama de sacis-curupiras-corpos-secos-uiara-pisadeira. Graças a cultura aspirante em torno deste país de proporção continental, focar apenas nas criaturas de elementos folclóricos limita a concepção do artista ao elaborar a história. Povos diversos vivem aqui há milênios enquanto os mais novos chegaram apenas nos últimos séculos. As riquezas trazem significados distintos a esses povos, todos eles compartilhando de um espaço cheio de fantasia oriunda da natureza. E lembremos talvez do mais importante: a nossa fala, pois a língua portuguesa se entranhou nas raízes de nossas gargantas, e mesmo assim demos tonalidades distintas a da origem europeia, fomos capazes de manifestar um lirismo brasileiro. Terra Sem Males é o trabalho de ficção folclórica escrito por Maria José Silveira em 2018, foi finalista do Prêmio Kindle em 2019.

“Quer voltar para as profundezas e retomar sua vidinha tranquila de poderosa força mítica.”

Na Terra Sem Males as pessoas respeitam a natureza, pois é consciente das características de onde vivem. Só carecem de respeito à Uiara, os garotos sempre a importunam, inconsequentes mesmo cientes dos riscos proporcionados a ela, que tenta conter o ímpeto em respeito aos líderes desta Terra. Aqui também vive Macu, herói da nossa gente, aquele mesmo astuto e preguiçoso; gerou um irmão gêmeo para si chamado Naíma.

Terra Sem Males vive em paz, por outro lado longe de ser desprotegido. As habitantes da Cidade das Tendas os defendem. São as amazonas icamiabas, guerreiras de seios retirados e empunhadoras de arco. Sendo lugar exclusivo de mulheres, tomam homens de várias etnias como reprodutores, eles de estadia temporária. Quando uma icamiaba grávida gera nova vida feminina, esta é derrubada logo no chão, assim aprende desde cedo a realidade da vida. Caso a amazona conceba um filho masculino, bom, o destino dele também é contado pela narradora. Esta já foi líder na Cidade das Tendas antes de virar estrela e contar a história de todos os povos envolvidos nesta história com onisciência e preferência declarada.

Os demais povos são El Dorado, terra dos Homens Sem Cor e a península Terra da Chuva. Este primeiro pretende dominar a Terra Sem Males por meio da guerra, o Senhor de El Dorado possui grandes riquezas, faltando a ele apenas conquistar essa terra mística na perspectiva deles por ser pacífica. O exército de El Dorado tenta convencer os mercenários dos Homens Sem Cor a se juntarem à guerra, povo acostumado a tomar sem retribuir, abusam da força aonde quer eles vão. E como a guerra envolve as pessoas da Terra da Chuva? Eles apenas foram trazidos da terra distante deles à força, incapazes de voltar, tiveram de permanecer ali, vivendo e sobrevivendo, nem todos sendo habitantes conformados.



“Mas ninguém ama tudo o que acha bonito, por mais único que seja.”

Já foi dito da narradora ser na verdade uma personagem, a antiga líder na Cidade das Tendas, e por esta experiência narra sem ocultar suas preferências. Conta a história de forma tendenciosa em favor de onde viveu e protegeu, embora essa existência póstuma permita a ela revelar os aspectos desgostosos da convivência dela. Sendo a narradora aliada da região protagonista desta história, possibilita criar descrições íntimas, e assim os parágrafos se enchem de prosa poética, diria até apaixonada. Ritmo difícil de enjoar, de linguagem misturada a elementos brasileiros, moldado pelos povos representados, cada palavra reflete a cultura fantástica deste mundo criado em homenagem ao nosso.

A trama trata da guerra eminente, sendo os capítulos iniciais de apresentação de personagens em destaque de cada povo intermediados pelos preparos. A narradora também conta a história na perspectiva dos povos ávidos pela guerra, embora a preferência assumida dela provoca numa narrativa distante nessas cenas, contadas por obrigação. Desta forma cria variações de estilo ao aproveitar as características de quem conta a história, sendo ela uma pessoa, portanto é justo mostrar os sentimentos. Entre os preparativos de guerra também há jornadas individuais, vítimas de consequência entre algumas particularidades desses cinco povos. Essas pequenas aventuras seguem no mesmo encanto narrativo elogiado até o momento, infelizmente por aqui também revela uma fraqueza na história. Por abordar vários personagens de lugares diferentes em um livro de apenas duzentas páginas, nem todos os arcos poderão ter a mesma dedicação. Fica injusto ao leitor por gostar de acompanhar determinado personagem ou pelo menos tenha ficado curioso, e no fim ver o desfecho sem causar a devida transformação naquele personagem.

“[...] ainda pensa que todas as coisas no mundo existem para servir aos desejos dela.”

Ainda quanto ao enredo, chega em determinado momento a ser previsível, e apesar disso a história mantém sua qualidade, pois é quando a autora manifesta o poder da escrita à vontade. De tanto ver guerras narradas em impasses corpo-a-corpo tão comuns em obras de fantasia, em Terra Sem Males há a reação de outra forma, descrita em frases enfeitadas de brasileirismos. Aos leitores que torcem o nariz pelas narrativas brasileiras na fantasia, perdem a oportunidade de vislumbrar algo feito em total harmonia da nossa cultura.

Terra Sem Males transpira o folclore brasileiro a partir das diversas características de nossos povos continentais e oriundos de terras distantes. Há muita cultura onde moramos capaz de nos orgulhar, e a autora demonstra isso a partir da narradora tendenciosa a amar as riquezas por vezes esquecidas por nós.

“A natureza é pródiga com o que eles precisam para viver.”












Ficha Técnica:


Nome: Terra Sem Males

Autora: Maria José Silveira

Editora: Autopublicado

Número de Páginas: 190

Ano de Publicação: 2018


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