• Diego Araujo

Desafio Ficções: "Corpos Secos" de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natália Polesso e Samir Machado

Corpos Secos são criaturas folclóricas renegadas tanto no céu quanto no inferno, condenadas a perambularem em seu cadáver. Os quatro autores deste livro escrevem sobre cenário semelhante a esse, só que os sobreviventes também são renegados pelas falhas expostas de nosso país.



Sinopse:


Uma doença fatal assola o Brasil e o transforma em uma terra pós-apocalíptica: sem governo, sem leis e sem esperanças. Os sobreviventes tentam cruzar o país em busca de um porto seguro.


Primeiro, o uso de novos agrotóxicos sem os devidos testes. Depois, a reação inesperada com as larvas que eles deveriam dizimar. Não se sabe quem foi o primeiro infectado, apenas que o surto começou no Mato Grosso do Sul. São os chamados corpos secos: espectros humanos que não possuem mais atividade cerebral. Mas seus corpos ainda funcionam e anseiam por sangue.

Seis meses depois, há poucos sobreviventes. Um jovem aparentemente imune à doença está sendo estudado por uma equipe médica e precisa ser protegido a qualquer custo; uma dona de casa vive em uma fazenda no interior do Brasil e se encontra sozinha precisando reagir para sair de seu isolamento; uma criança vê a mãe tentar de tudo para salvar a família e fugir do contágio; uma engenheira de alimentos percebe que seus conhecimentos técnicos talvez não sejam suficientes para explicar o terror que assola o país. Juntos, eles vão narrar suas jornadas, em busca do último refúgio ao sul do país. Escrito em conjunto por quatro autores, Corpos secos não é só um thriller, nem um romance-catástrofe. É uma narrativa sobre os limites da maldade humana, e as chances de redenção em meio ao caos.





A chegada do apocalipse é o estopim para a revelação do desespero. As falhas humanas estimulam os problemas ao extremo, tornando cada indivíduo responsável por si. O Estado abandonou seus cidadãos, sendo que nenhum servidor de boa índole superaria o obstáculo de falta de recurso e da má distribuição. A mídia jornalística enfrentava dilemas a respeito da divulgação da mensagem que havia sido divulgada, mas agora a mensagem nem chega mais às pessoas e cabe a cada um buscar as migalhas de informação ainda disponíveis, inconscientes de serem verdade ou meros boatos. Esta pandemia é nova, apesar de trazer temores recorrentes do passado, transformando os infectados em seres da lenda folclórica. Corpos Secos tem como tema o apocalipse zumbi no Brasil através de quatro autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado. Um livro publicado em 2020 durante a pandemia da covid-19.

“Não são as árvores que caminham. São homens.”

Assim como o número de autores, há quatro protagonistas inseridos em histórias paralelas, todas ambientadas no mesmo período, nos diferentes lugares do Brasil. As narrativas são posteriores ao surgimento da pandemia, o país já devastado, sem governo e portanto sem lei. Os poucos sobreviventes lutam pelos escassos recursos, isso quando ainda têm, e por onde perambulam, há inúmeros corpos secos à espreita, os humanos infectados pelo novo vírus com uma pele dura feito madeira, brotando fungos pelo corpo, e perdendo toda a racionalidade, agindo como selvagens e contaminando novas pessoas ao morderem.

Dos quatro protagonistas, Mateus é o único que se sabe ter imunidade contra o vírus dos corpos secos. Ninguém sabe por que ele tem essa imunidade ou como replicar esta imunidade na população, por isso ele é vigiado por uma equipe médica e outra militar para ser estudado e protegido a qualquer custo. Isolados em São Paulo, precisam locomover toda a equipe junto a Mateus até uma base no Rio de Janeiro, onde há sobreviventes do Exército da Marinha e profissionais capazes de colaborar na pesquisa da imunidade. Murilo é o irmão mais novo de Mateus, só que está na região sul do país. Ele tenta sobreviver com a ajuda da mãe e a companhia de um peixe de aquário chamado Baleia. A luta pela sobrevivência faz o garoto amadurecer e também poder manter seu espírito de criança quando lhe for conveniente em certos momentos.



Regina era fazendeira na região Centro-Oeste. Ela tem um rádio em sua casa que capta comunicados oficiais do que restou do governo, cortados por chiados. Traça um plano a partir do pouco que foi capaz de ouvir, mais ainda devido ao desespero batendo à porta. E Constância começa sua jornada apenas com o irmão gêmeo Conrado. Ela é formada em engenharia de alimentos, já ele conquista sua individualidade de ser quem quiser. Conrado fazia shows como drag queen, além de ser um homossexual assumido ― assim como a irmã ― e influenciador digital sobre práticas veganas. Não que essas características os ajudem a sobreviver, nem o conhecimento de engenharia da Constância parece ser o bastante, por mais que a infecção comece a partir da disseminação de agrotóxicos sem o devido licenciamento sanitário, ou assim as raras fontes afirmam.

“Quem é que leva espumante pro fim do mundo?”

Os autores tiveram a liberdade de escrever suas histórias de maneira distinta. Um dos autores pode optar por conjugar os verbos no presente, enquanto outro autor pode usar no passado. Murilo conta sua própria história, enquanto os demais narram em terceira pessoa. Variam também nas estratégias de contar a história, podendo empregar um discurso indireto livre em conversas ou demonstrar os sentimentos do protagonista no contexto geral da narrativa, outros optam por serem descritivos, ou manipulam a pontuação e quebras de parágrafo de acordo com o que desejam para a história. Ao refletir sobre essas diferenças, parece que o livro é na verdade quatro novelas alternadas entre capítulos, e seria possível analisar cada narrativa de forma individual nesta resenha. Só que é preciso atentar ao fato de elas estarem entrelaçadas. Enxergando a partir do todo podemos perceber como o contexto da ambientação interfere na vida de cada protagonista. Isso é possível ao colocar um personagem que não tem acesso a mesma informação do outro, ou ao retratar alguém possuindo outro aspecto social e o quanto essa nova realidade determina a tomada de decisões, de todos os problemas particulares fazerem, na verdade, parte do todo. Há o lado negativo de compor quatro histórias em um livro de duzentas páginas, pois encurta a narrativa delas, fazendo cortes de cenas e impondo pontos de virada abruptos. Desfavorece a elaboração de quatro jornadas, em vez disso criando enquadramentos momentâneos dos protagonistas.


Quanto aos corpos secos, há muitas características comuns a zumbis. Mobilidade inferior a de humanos sadios, sendo que uma grande quantidade os tornam perigosos. Provocam medo por contaminar outras pessoas a serem iguais a eles, perdendo a sanidade e demais consequências abordadas na história. Eles povoam as ruas, enquanto os sobreviventes esgueiram nos lugares menos prováveis de os confrontarem. Dentre as características folclóricas estão a pele endurecida remetendo ao nome corpo seco, e de se assemelhar a aspectos naturais da selva, como os fungos brotando neles. Quanto a origem da infecção se originar da agroindústria nesta ficção, na lenda os corpos secos são pessoas tão desprezíveis quando estavam vivas, que ao morrer nem o paraíso e nem mesmo o inferno aceitarem recebê-las, por isso perambulando com a alma definhada presa ao cadáver. A versão folclórica de certo modo permeia na história também, mas nos sobreviventes ao reagirem de forma nada condizente aos bons costumes.

“’Já estamos todos mortos, agora é só continuar andando para ver até aonde chegamos.’”

Corpos Secos vai além do apocalipse zumbi ao distribuir elementos brasileiros nas quatro histórias. A condução da narrativa aponta diversos pontos do Brasil, acusa problemas nacionais decorrentes da desinformação, um governo desestruturado e os vícios egoístas condizentes ao jeitinho brasileiro. Usar a figura do folclore no título do livro sugere, de maneira indireta, todas essas abordagens. Tratando do final ― apenas a quem não se importar de uma breve menção sem detalhar, continue o parágrafo ― de estilo aberto, podendo desapontar leitores e fazê-los torcerem o nariz quando é assim, em contrapartida até nesta parte há o retrato nacional no aspecto desolador quanto ao futuro do país.

“― Acho que dá para suspender os princípios no apocalipse”









Ficha Técnica:


Nome: Corpos Secos

Autores: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Oliveira

Editora: Alfaguara

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a editora Alfaguara