• Paulo Vinicius

Cinco dicas para a construção de personagens femininos

Neste Dia Internacional da Mulher, que tal refletirmos sobre alguns estereótipos típicos de personagens femininos? E como não reproduzi-los.


Na última década progredimos bastante na discussão sobre o papel da mulher na sociedade. Aumentaram os seus espaços e lugares sociais e isso se refletiu na literatura de gênero, algo que antes era um apanágio de um grupo de intelectuais homens. As personagens femininas ganharam ainda mais contornos e tridimensionalidade, um processo que vinha se aprofundando desde a década de 1980 e com uma pauta mais progressista, se acentuou. Contudo, os problemas ainda persistem. Desde a virada conservadora da metade da década de 2010, vemos voltando à tona os velhos problemas de sempre: mulheres submissas, sexualizadas e objetificadas. Quando colocamos a discussão e as críticas nos grupos de discussão, a acusação é sempre a mesma: pauta ideológica, ou o termo pejorativo de "lacração".


Esta matéria visa apontar cinco problemas comuns na escrita de personagens femininos. E como os autores podem contornar isso com alguns acréscimos e alguma reflexão. Antes de desenvolver isso, basta deixar bem claro que pensar com mais profundidade personagens femininos não é um ato ideológico, mas sim de respeito. E que o que está sendo pontuado em relação às mulheres, pode ser adaptado para personagens LGBT com algumas alterações. Só um adendo: não sou um especialista no assunto e acho que nem é necessariamente o meu lugar de fala. Deixo aqui três sites que também abordaram o tema:


Blog Oficina de Escrita


Canal de YouTube da Beatriz Paludetto




1 - A síndrome do tacape --> A Pré-História passou há milhares de anos. Mulheres não são seres submissos, cuja única função é reproduzir. Ou cuidarem da casa. Ou lavar a roupa. Aliás, existem diversas discussões acerca de sociedades matriarcais nos primórdios da civilização. A época de dar com o tacape na cabeça da parceira e levá-la para sua caverna já passou há muito tempo. É preciso pensar na mulher como um ser independente, passível de exercer diversas funções sociais. Por que não pensar em uma mulher líder de um grupo de assassinos? Ou quem sabe uma poderosa líder militar? Aquele sábio que o aventureiro procura pode ser uma feiticeira (não-sexualizada e sem a necessidade de biquinis mínimos, afinal por que um feiticeiro usaria roupas minúsculas?) com um profundo conhecimento das artes místicas. Ou a engenheira da nave pode ser uma pesquisadora de teorias de fluxo, capaz de discutir problemas complexos com o capitão da nave. É nesse ponto inicial que começamos a dar mais tridimensionalidade à personagem, construindo qualidades e defeitos desde o momento em que a personagem foi criada. Não há motivo para que apenas os personagens masculinos ocupem determinadas funções, tenham determinadas características. Uma personagem feminina rica na forma como foi criada pode levar a narrativa a lugares bem diferentes.


2 - Procurar leitoras/consultoras --> Se você é um autor, acredite: você só pensa que conhece como uma mulher raciocina ou reage. Ou sequer sente. Não estamos na pele de uma mulher, portanto não temos como saber suas angústias, ansiedades, alegrias, pequenos segredos. Por mais que nos esforcemos para tentar se colocar no lugar dela, não vamos acertar na maior parte das vezes. Então tente escrever a narrativa do seu jeito e envie para a apreciação de uma leitora ou uma revisora. Ah, e que a leitora/revisora não seja a sua amiga ou parente. Seja alguém de fora de seu círculo e que não tenha medo de dar uma opinião sincera. Você vai se surpreender com os toques que lhe serão dados. Não descarte tão facilmente o trabalho de uma leitora sensível. E sensível nada tem a ver com "frescura" ou "mimimi" como costuma ser dito em certos círculos. A leitura sensível visa apontar inconsistências ou preconceitos que frequentemente deixamos passar. E isso não significa que estou chamando alguém de preconceituoso (pode até ser, mas na maioria dos casos não é). Muitas vezes temos pequenas noções de gênero que são preconceituosas e nem nos damos conta disso. E isso é um problema endêmico que vem de uma sociedade marcadamente patriarcal. Certas "normalidades" só são formas de manter uma posição estrutural com um privilégio do homem branco cis hétero. Uma leitora sensível vai conseguir detectar essas inconsistências e basta trabalhar para revertê-las.


Um lembrete: a leitora sensível não te odeia. Ela está sendo profissional e te apontando problemas. Argumente com educação. E seja um bom ouvinte.




3 - A síndrome do espelho invertido --> Comumente vemos autores se enrolarem no momento de criar personagens femininos e acabarem criando mulheres que são homens. Ou seja, no momento da criação do personagem, o autor colocou todas as características que ele havia pensado para seu protagonista masculino, mas inverteu o gênero. E isso é uma armadilha criativa porque de forma alguma foi criada uma mulher com características específicas e tridimensionais. É uma falha criativa apenas. Dando um exemplo curioso, a Marvel tentou uma iniciativa na metade da década de 2010 chamada de All-New Inclusive, quando ela repensou seus personagens seja com etnias diferentes ou com gêneros invertidos. Seja personagens como a Iron Heart, ou a Lady Loki, ou uma Carnificina feminina. Alguns personagens se tornaram parte integrante do universo Marvel como a Ms Marvel (Kamala Khan), mas outros não tinham profundidade ou histórias interessantes o suficientes para sustentá-los na mira dos leitores. A iniciativa foi um fracasso e algumas das críticas eram justamente essas: personagens femininas que eram os mesmos personagens anteriores só que mulheres ou personagens femininas hiperssexualizadas.


Mulheres agem diferente, pensam diferente. A igualdade de gênero não significa esse tipo de "macete" criativo. Pense em uma personagem feminina como um indivíduo portador de suas próprias características, que não são as mesmas daquele protagonista masculino que você iria criar. Ser uma personagem badass não significa que ela vai coçar a virilha, cuspir no chão e dar uma bicuda na cara do oponente (só falta ela pedir a cerveja enquanto está no sofá). Minha sugestão é consultar uma leitora beta ou uma leitora sensível que possa bater a sua construção de personagem. Verifique se faz sentido e se se enquadra dentro do comportamento de uma mulher.


4 - A síndrome da conversa de banheiro --> Acreditem: mulheres conversam sobre muito mais do que homens ou possíveis parceiros sexuais. Pasmem: elas sabem falar sobre família, sobre problemas cotidianos, sobre a crise na Ucrânia, sobre pastel de queijo e muitos, muitos outros assuntos. Não caiam na velha armadilha do teste de Bechdel. Sejam criativos. Saiam da zona de conforto. Acho inacreditável perceber em vários livros ainda essa máxima de que mulheres precisam conversar sobre homens. Ou que eles estejam envolvidos indiretamente. O mundo não é machocêntrico; é possível enriquecer tanto a narrativa a partir de um ponto de vista distinto. No momento da escrita de um diálogo, se você perceber que sua personagem feminina está falando direta ou indiretamente de um homem, repense-o. Por que ela entrou nesse assunto? Ele é necessário mesmo? Ela não tem nenhum outro assunto a ser tratado? Talvez algum elemento da narrativa, algum mistério recorrente?


5 - A síndrome da ruiva/loira escultural --> Não existe só um biotipo feminino. Ou dois, no caso. A frequência com a qual leio autores descrevendo loiras fatais ou ruivas selvagens é maior do que vocês imaginam. Só que o planeta Terra é formado por uma infinidade de biotipos femininos. Altas, baixas, gordas, magras, brancas, negras, miscigenadas. Tem de todo o tipo possível. No entanto, é sempre loira de olhos azuis ou ruiva de olhos verdes. É possível variar, basta uns 5% de criatividade. Sem falar que muitas personagens femininas possuem a fisionomia perfeita, com corpos de modelos do Fashion Week. Ninguém precisa ser o tipo ideal de ser humano, ou o autor não está entendendo a diversidade do planeta. Representatividade também tem a ver com a valorização de diferentes tipos físicos. A perfeição é chata; todos os seres humanos possuem alguma imperfeição e isso é o que nos torna únicos. Por que não aproveitar alguma imperfeição para aprofundar mais a personagem? Talvez ela tenha insegurança a respeito do seu corpo? Talvez ela tenha alguma característica física que a torne distinta dos demais e possa fazer parte da trama? Uma queimadura no braço, de algum acidente doméstico? Pontos no joelho porque caiu de bicicleta quando era mais jovem? Uma tatuagem ridícula que ela não consegue mais cobrir? São tantas as possibilidades e uma personagem fica tão mais verossímil dessa forma.


Coloquei algumas dicas de clichês/estereótipos que podem ser subvertidos, mas de forma alguma esgotei o tema. Existe uma série de outras questões que podem ser abordadas e que frequentemente são apagados ou esquecidos em uma narrativa. Esse tipo de assunto precisa vir à tona para suscitar a discussão sobre como entendemos esse assunto. Não dá mais para se esquivar dele e esta é até uma forma de exercer o respeito. Não abordei especificamente a temática LGBT porque, no meu entendimento, embora algumas temáticas são semelhantes, existe todo um outro universo de falta de representatividade existente. E eu precisaria estudar com mais calma e consultar alguma pessoa para poder pontuar tais questões (lembram o que eu disse lá atrás? Na dúvida, consulte alguém de fora de seu círculo e que conheça a temática). Também gostaria de convidar nossas leitoras a deixarem seus comentários apontando que clichês/estereótipos vocês identificam nas histórias de fantasia, terror e ficção científica? Isso com certeza irá ajudar outros autores a entender pontos que eles nem sabiam que existiam.


E um feliz Dia Internacional da Mulher a todas!











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