• Paulo Vinicius

As livrarias de bairro voltam a ganhar espaço

A pandemia fez com que vários negócios quebrassem. Lojas fecharam, negócios faliram. Mas, nesse período de recuperação, o mercado editorial resgatou o charme e o prestígio das antigas livrarias de bairro. Saibam mais nesta matéria.


Imagem da Gazeta do Povo

O mercado editorial vem sofrendo crise após crise nos últimos tempos. As livrarias foram umas das mais afetadas por esse baque. É inegável que o poder aquisitivo do brasileiro foi drasticamente reduzido. Com a pandemia veio um outro problema: a impossibilidade de sair de casa e manter um isolamento social. Mesmo com a desobediência civil, o movimento caiu bastante nos últimos meses. Nesta reportagem do Correio Braziliense, podemos avaliar o estrago que isso produziu nas vendas a varejo. Isso sem falar que as grandes redes livreiras haviam passado para os shoppings e centros comerciais, que estavam proibidos de funcionar durante a pandemia por serem focos de aglomeração.


Mas, isso produziu um fenômeno curioso. Havíamos visto nos últimos anos uma concentração das livrarias nos shoppings. Era o fenômeno megastore provocado pelas redes Cultura e Saraiva. Mas, ambas estão em recuperação judicial e se enfiando em um buraco cada vez mais fundo. Ficou um vazio que de alguma forma precisa ser preenchido. Acredito que quando a pandemia passar e os shoppings voltarem a funcionar a todo vapor, as redes Curitiba e Leitura possam ser prováveis candidatas ao posto. Ao mesmo tempo, com os shoppings fechados, as livrarias de rua voltaram a ganhar espaço. Estas se articularam durante a pandemia e utilizaram estratégias diferentes para recuperar um público que haviam perdido durante anos.


Conversando com Thiago Tizzot, dono da Arte & Letra (uma livraria que também funciona como gráfica e editora), ele destaca a importância das livrarias de rua. "As livrarias de rua são essenciais para a cadeia do livro. São elas que trazem diversidade e possibilitam autores e pequenas editoras levarem seus trabalhos até os leitores. As livrarias de rua também se transformam em um espaço cultural de debate, troca de ideias e encontro não só de pessoas ligadas ao livros, mas outras áreas culturais." O leitor que acaba frequentando as livrarias de rua é alguém que não está indo necessariamente para comprar um livro. Ele pode acabar comprando um livro. Esta pode ser um espaço de reunião, de debate, de lazer. Essa ressignificação da livraria como um lugar social foi importante durante a pandemia. Algumas como o Sebo Clepsidra se voltaram até para o Catarse para publicar livros e se tornaram referência em um gênero.



Em muitos casos o leitor também busca uma curadoria especializada. Os livreiros que trabalham em lugares como a Arte & Letra, o Sebo Clepsidra, a Livraria da Vila, a Berinjela e tantos outros conhecem o material que vendem. Possuem até registros de clientes regulares os quais conhecem seus gostos e sabem o que indicar a eles. Não se trata de uma ida às cegas. Às vezes até em um papo informal com outros frequentadores do lugar podem-se descobrir novas histórias e possibilidades. As livrarias de rua também aproveitaram a pandemia para realizarem eventos online para lançamento de livros, algo que elas já vinham fazendo fisicamente (a Blooks é um ótimo exemplo disso).


Nesse momento maluco de isolamento social, não houve uma preparação ou estratégia. Como se preparar para algo de escala mundial? Por mais cautelosos e preparados que fôssemos, isso foi devastador. "Tivemos que nos adaptar. Encontrar uma nova forma atender os leitores. Usar as redes sociais e parceria com as editoras.", diz Thiago. Eventos nas redes sociais não foi o que faltou nesse momento, mas o segredo está em usar bem essa ferramenta. Não é apenas atender àqueles que já pertencem ao seu grupo de consumidores. É também trazê-los e dizer a eles que está tudo bem e vai passar. Mas, trazer também um novo grupo de pessoas de fora da bolha. Apresentar novas possibilidades de consumo de livros. A Arte & Letra é um ótimo exemplo disso. Durante a pandemia, Thiago participou de vários eventos online onde demonstrou suas múltiplas habilidades, desde comentar sobre o mercado editorial até falar sobre cultura em geral.


A verdade é que o modelo megastore está esgotado per se. Ele vai continuar existindo na medida em que ele se torna necessário para o consumidor comum que precisa de uma compra rápida. Só que ele não tem mais para onde crescer. O próprio modelo de vendas consignadas é algo não atrativo mais para as editoras. Elas precisam sim do ponto físico, mas a possibilidade de ter sua loja virtual ou de ter uma garantia no pagamento com a Amazon ou com uma livraria de rua é bem mais atrativo. Por essa razão é que as megastores vão precisar se reestruturar dentro do seu modelo. Saraiva e Cultura são dois casos à parte. Tudo vai depender de como elas vão sair de seus respectivos processos. Como um observador leigo e vendo a tendência de mercado nos últimos doze meses, não acredito que eles consigam sair do buraco. Tanto que as editoras já se preparam para uma vida pós-Saraiva e pós-Cultura.


Imagem da Veja São Paulo (Créditos: Leonardo Finotti)

E a vida pós pandemia? Estamos em agosto e 2020 está chegando em seu moroso final. Thiago é otimista quanto às perspectivas para o futuro. "O mercado vai seguir em frente, os livros acabaram ganhando espaço durante a pandemia. A procura e interesse se manteve, a esperança é que quando as coisas fiquem mais seguras, as pessoas retornem as livrarias. Talvez até tenha um aumento." Corroboro a fala de Thiago com dados. Dados do Uol de junho de 2020 apontam um crescimento na venda de livros durante a pandemia, mesmo os valores sendo menores do que em 2019. Para quem esperava um cenário de desastre total são números animadores. Números que permitem projetar alguma esperança para o amanhã. E isso sem qualquer apoio governamental. Sendo um dos setores mais sensíveis do mercado cultural e tendo sido abalado por várias crises nos últimos anos, era de se esperar algum tipo de socorro ou ajuda da União. Mas, o que se viu foi a falta de interesse e até o assunto do momento que é a taxação dos livros. Caso isso vá para frente, aí sim a gente pode colocar o último prego do caixão de vários negócios.


Sejamos esperançosos. Houve grande comoção o que pode fazer com que isso não vá para a frente. Como um historiador, acho as livrarias de rua charmosas e repletas de história. Se você ainda não teve a oportunidade de visitar uma, vá. Tire um dia. Converse com o livreiro. Peça dicas a ele. Diga do que você gosta e você vai se surpreender com o resultado. Se você mora próximo a alguma das livrarias citadas no artigo, não deixe de visitá-las. Sem dúvida alguma será uma experiência diferente.


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