• Paulo Vinicius

A justiça divina, Malala e Ted Chiang

Na matéria de hoje vamos conversar um pouco sobre justiça divina. O que nos move? Boas ações são recompensadas? Fazemos uma relação entre um conto de Ted Chiang (do livro História da Sua Vida e Outros Contos) e a biografia de Malala Youszafai (Eu Sou Malala).

Atenção: Tem spoilers do conto O Inferno é a Ausência de Deus, de Ted Chiang.



Todos os dias seguimos nossa vida com esperanças no futuro. Alguns de nós procuram fazer o bem, se engajar em causas sociais, participam de cultos para serem corretos com sua religião. Quem de nós já não se perguntou se, após nossa morte, iríamos a um lugar melhor? Isso baseado em nossas ações na Terra. Já colocamos até ações em uma espécie de balança universal do destino tentando pesar boas e más ações. Ao ajudar alguém, um vizinho ou um amigo necessitado, quem sabe nossos erros do passado sejam apagados e possamos aspirar a uma eternidade melhor. Ou até pessoas que abandonam sua vida atual para seguir em peregrinação buscando a redenção e uma nova linha de vida.


Por outro lado, temos pessoas que, mesmo sendo boas, sofrem com algum tipo de injustiça. Pessoas dedicadas a ajudar o próximo, cujas vidas são tão sofridas que não é possível que exista alguma força cósmica que não olhe estas pessoas. Homens e mulheres que se encontram em situações trágicas e mesmo assim possuem a força de caráter necessária para ajudar o próximo. Isso até que algum acidente limita ainda mais a capacidade dessa pessoa de ajudar. Por exemplo: como é possível existir justiça divina para alguém que ajuda crianças carentes quando subitamente esta pessoa sofre um acidente que a deixa paralítica? É uma pergunta válida para compreendermos o funcionamento das coisas. Mas será que existe uma lógica por trás disto ou estamos diante de forças universais que rolam dados com os nossos destinos?


Vocês já ouviram falar da história bíblica de Jó? Jó era um pastor que possuía sete filhos e três filhas. Possuía milhares de cabeças de gado, jumentos e ovelhas. Sua reputação era muito conhecida no mundo antigo, sendo ele considerado um pastor muito próspero. Um dia, Deus apresenta a Satanás o quanto ele ama seu filho Jó. Diz a ele o quanto é honesto, próspero e feliz, mas Satanás desdenha das palavras de Deus e até questiona a integridade de Jó. Deus então permite a Satanás intervir na vida dele. O demônio faz com que Jó perca seus bens, sua família, sua integridade e até sua saúde. O objetivo era ver quando ele iria renegar a Deus. Aí, então, Satanás venceria sua aposta. Mas, para a consternação de Satanás, Jó sacode a poeira, rasga seu manto e passa a orar em adoração a Deus.


Em um último desafio, Deus permite a Satanás encher Jó de úlceras malignas, fazendo-o sofrer de dores agudas. Após isso, Jó debate entre seus amigos Elifaz, Bildad e Sofar sobre a grandeza de Deus e seus propósitos. Seus amigos rebatem a adoração de Jó chamando-o de tolo, mesmo quando Ele retirou tudo o que ele tinha de bom e grandioso. Deus repreende os amigos de Jó e o escuta ressaltar Deus em tudo o que ele tinha de bom. É então que Deus o recompensa, devolvendo em dobro tudo o que ele havia perdido. Esta história é conhecida como as tribulações de Jó e testam a capacidade do fiel de até onde vai sua fé. E, principalmente: o de acreditar que boas ações recebem recompensas divinas.

Mas, o que isso tem a ver com Malala Youszafai e o conto de Ted Chiang?


Para quem não conhece a história de Malala, precisamos seguir em direção ao Paquistão, em uma pequena vila no vale do Swat. Lá, temos um local de maioria muçulmana e precisamos entender que certas vertentes da religião islâmica não permitem que mulheres frequentem a escola. Segundo estas vertentes mais tradicionais, o papel da mulher é o de ser submissa ao marido e tomar conta dos assuntos da casa. É vedado sair à rua sem o pai ou o marido. Mas, Malala foi beneficiada por estar em um vale aparentemente calmo e seu pai ser dono de uma escola para meninas. Ele acreditava na necessidade de estender a educação a todos.


Um dia, o Talibã (um dos diversos movimentos fundamentalistas muçulmanos) chega até o vale na forma de um radical chamado Fazlullah. Ele começa a exigir o cumprimento da sharia (das leis corânicas) e um de seus primeiros alvos é a presença de meninas nas escolas. A ação do Talibã no vale envolve a explosão de escolas e o assassinato de figuras-chave na vila. A atuação do governo não é suficiente para inibir a ação do movimento. Com seu espírito de ação, Malala passa a vocalizar suas opiniões quanto à proibição da ida de crianças e mulheres à escola.


Seu amor pela escola e pelos livros a transforma em uma voz de combate contra aqueles que querem tirar algo que poderia dar oportunidades às pessoas. Seu combate é com palavras e com o diálogo. Tamanho foi o seu alcance que ela se tornou uma ameaça para os planos do Talibã para a região. Em uma vingança contra Malala e seu pai, a menina levou um tiro enquanto voltava para casa após uma aula. Por muito pouco o tiro não pegou em seu cérebro. Malala saiu marcada, mas se tornou uma importante voz para as mulheres muçulmanas, chegando inclusive a discursar na ONU e receber um Prêmio Nobel da Paz. Justiça divina?


Mas, a pergunta que eu faço é: e se Deus não tivesse devolvido nada a Jó? E se Malala tivesse levado um tiro fatal na cabeça? Diariamente escutamos histórias semelhantes à de Malala em várias partes do mundo com um final bem menos feliz do que a história de Jó ou a da jovem paquistanesa. Pessoas são injustiçadas todos os dias sem nenhum motivo aparente. Seja alguém que perdeu um emprego porque seu chefe acordou de mau humor, um casamento que acaba sem mais nem menos ou uma vida devastada em um dia de fúria. Diante de tamanhas injustiças, algumas pessoas se revoltam e passam a adotar uma postura semelhante à de Nietzche ao afirmar que Deus está morto. Ou que vivemos em uma época em que o divino não entrega mais respostas às nossas dúvidas. Se formos fazer uma rápida enquete sobre os motivos que levaram uma pessoa a se tornar ateia ou agnóstica, muitas vão responder que algum acontecimento passado as levou a tomar esta atitude.

Em O Inferno é a Ausência de Deus, Ted Chiang nos coloca em um mundo onde anjos fazem uma quantidade grande de bençãos para as pessoas. Existem até caçadores de luz angelical que se dedicam a ir a lugares santos e aguardar pela aparição, esperando conquistar alguma benesse. Mas os anjos de Chiang não são exatamente justos. Vemos casos, no conto, de pessoas que de fato recebem milagres, enquanto outras são punidas sem mais nem menos. Temos três casos que ilustram muito bem isso. Janice é uma garota que nasceu quase por um milagre. Enquanto estava no oitavo mês de gravidez, sua mãe perdeu o controle do carro e capotou após sair da estrada. Nesse momento, o anjo Bardiel apareceu e por um milagre, Janice nasceu. Mas, Janice nasceu com barbatanas no lugar de pernas, o que dificultou sua locomoção.


Ao invés de se sentir amaldiçoada, Janice usou sua condição para mostrar o quanto ela era abençoada por estar viva. Fez palestras contando sua história de superação e de amor a Deus. Um dia, ela vê mais uma aparição angelical e passa a ter o movimento de suas pernas. É então que Janice fica confusa. Sua mensagem passa a não mais ressoar para as pessoas. Ela não consegue entender se sua cura foi uma recompensa pelos seus esforços ou se representa um novo desafio. Ela sai em busca de uma nova aparição divina que possa explicar a ela como retomar seu caminho de virtude. No final da história, ela consegue encontrar novamente um anjo que a deixa cega.


O outro protagonista da narrativa é Neil Fisk, um homem que nasceu com uma doença congênita, fruto de uma má formação durante a gravidez. Seu joelho nasceu com uma rotação virada para dentro, fazendo com que suas pernas nascessem desiguais em tamanho. Sua mãe evitou culpar Deus pelas tribulações de seu filho. O próprio Neil evitava comentar no assunto. Sequer dirigia um pensamento a forças divinas. As aparições angelicais eram apenas assuntos que ele ouvia falar vez ou outra nos jornais. Ele teve um casamento muito feliz com Sarah, a quem ele amava muito. Um dia, o anjo Natanael aparece em um bairro próximo de onde Neil morava, e sua esposa estava em uma lanchonete. O anjo abençoa várias pessoas enquanto outras sofrem estranhas tribulações.


Sarah acaba morta por um pedaço de vidro alojado em sua coxa, fruto de uma onda de choque provocada pela aparição do anjo. Na lanchonete onde ela se encontrava, Sarah é a única vítima fatal. Este acontecimento acaba destruindo a vida de Neil, que não compreende o motivo disso ter acontecido a ele. Após meses de sofrimento, ele decide procurar um anjo para que mostrasse a ele como poderia encontrar a mulher após sua morte. O que ele precisaria fazer? Ele consegue finalmente se deparar com o anjo, que amplia sua luz celestial e mostra as verdades do universo para Neil. Ele passa a adorar Deus e sua grandiosidade e vê sua fé renovada. Mas, Neil morre e vai para o inferno onde nunca mais vai encontrar sua esposa. Justiça divina?

Esses casos representam apenas uma reflexão sobre as ações que fazemos neste mundo. Ou se existe uma justiça tomando notas de o quanto somos íntegros ou honestos. Não há exatamente uma troca equivalente. Nossas ações não podem ser moldadas a partir de uma expectativa de que se eu fiz algo, receberei algo em troca. Sequer há como acreditar em coerência sobre o que acontece conosco. Nesse ponto, eu concordo com o Chiang. A vida não é justa ou injusta. Ela é como é. Eu costumo calcar as minhas ações no sentido de saber se elas me fazem feliz ou se eu consigo fazer outra pessoa minimamente feliz.


Como professor, eu atuo na vida de centenas de jovens todos os anos. Meu papel é dar a capacidade a eles de conseguir uma vida melhor. Mas é impossível fazer isso com todos. Quando comecei a minha carreira como professor, eu queria que todos pudessem ser melhores, dar uma vida honesta a si mesmos e a seus pais, e me angustiava ver o quanto esses meninos e meninas sofriam injustiças ou caíam no mundo do crime. A propósito, sou professor de ensino público e sempre trabalhei em comunidades pobres e áreas de risco. Já cansei de ver policiais armados com fuzis e bandidos manuseando pistolas e metralhadoras.


Um dia, ao expor minhas angústias à minha esposa, ela me disse algo que eu não consegui mais esquecer. Para ela, se eu conseguisse afetar a vida de poucos alunos e de uma forma significativa já terá sido uma vitória. Não podemos pensar em quantidades. Consegui me harmonizar comigo mesmo ao fazer o melhor que eu posso todos os dias. Obviamente que me entristece quando eu fico sabendo que um de meus alunos se envolveu com algo que não devia, ou que alguma doença grave se abateu sobre um deles ou até se um dia ele foi atropelado subitamente. São coisas que estão fora de nossos alcances. A verdade cósmica é que não existem padrões. Não há uma cartilha ou um manual de boa conduta para que você, leitor, possa seguir. Mas, existem ações que podem aquecer os nossos corações e mostrar o quanto podemos ser maravilhosos.


A menina Malala, que falamos acima, hoje realiza várias ações em prol da difusão da educação pelo mundo. Em sua biografia ela conta um pouco do que foram os momentos após ela ter despertado de seu coma, uma semana após ter levado os tiros. Ela estava furiosa, mas não com o bandido que a alvejou ou que pôs outras vidas em risco. Sua maior reclamação se deu pelo fato de o talib (membro do Talibã) não ter lhe dado uma oportunidade para que ela pudesse explicar o seu ponto de vista sobre as coisas. Não se tratava de um pensamento voltado a uma possível vingança, mas uma pessoa que queria apenas ser compreendida pelo outro lado. Graças ao que aconteceu, hoje ela tem uma plataforma muito maior para expor suas ideias e tentar convencer outras pessoas sobre o seu ponto de vista. Justiça divina? Quem sabe?


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