• Paulo Vinicius

A educação, o acompanhamento familiar e o combate à censura

Uma reportagem feito por uma emissora de televisão divulgou uma matéria falando dos malefícios de produtos audiovisuais violentos. Nesta matéria queria repercutir o caso, destacando uma política nociva e censora no que diz respeito aos cidadãos brasileiros e como a educação enxerga o papel da família.


Como divulgador de conteúdo e professor formador de leitores, a gente aprende a criar uma certa casca em relação a determinados assuntos. São aqueles que se vê que não adianta discutir porque quem tem a cabeça formada acerca de uma ideia ou conceito, dificilmente muda de ideia. Ainda mais em assuntos polêmicos que envolvem argumentos ideológicos. Em um país polarizado como o nosso, enxergamos as coisas em preto ou branco. Não há espaço para meio-termo ou para o diálogo. Um desses temas tem a ver com que idade uma criança ou adolescente pode assistir determinado filme ou série. O quanto isso pode prejudicar o desenvolvimento ético e moral? Por mais que a gente traga especialistas no aprendizado infantil como Piaget, Wallon, Vygotsky ou qualquer outro da área, todos concordam em discordar. Não há uma fórmula exata quanto a isso sendo que existem fatores internos e externos que devem ser fatorados na equação.


Ah, sim... não colocarei nenhuma imagem apelativa ao anime Death Note. Não estou aqui para causar polêmica e sim trazer debate e informação. Isso é uma discussão sobre formação de leitores na escola.


Essa matéria surge a partir de uma reportagem feita em um programa de TV dominical (que me recuso a citar o nome) que, se utilizando de formas parciais de reportagem e jogando fora toda a cartilha do jornalismo fora, produziu desinformação descaradamente em rede nacional. O conteúdo apresentado tinha a ver com vários "especialistas" e famílias discutindo o quanto a animação japonesa Death Note faria mal ao desenvolvimento das crianças, criando tendências assassinas e incentivando o caráter violento nas mesmas. Procurou-se dar uma forma de pesquisa científica, mas uma série de pontos ficaram nebulosos e não houve um posicionamento dos dois lados da questão. Aliás, sequer vi um professor ou um psicopedagogo dando um depoimento. O nível de produção do roteiro da reportagem é tão baixo e mal conduzido que uma pessoa bem intencionada levaria minutos para desconstruir os argumentos. No meu papel de formador de leitores, pretendo aqui desconstruir e dialogar com os leitores para chegarmos a um ponto comum.


Antes de mais nada, em relação ao conteúdo jornalístico em si, a animação em questão tem vários anos desde que foi lançado na TV. O mangá Death Note foi publicado entre 2003 e 2006 sendo que a animação data do final da publicação do mangá entre 2006 e 2007. Aliás, esses foram os anos de auge da produção sendo que podemos esticar o período até 2010 como sendo os momentos em que ele foi amplamente divulgado na televisão. Era um momento em que os fãs de animação começavam a ter mais facilidade para assistir ao anime no momento em que ele saía no Japão, por isso o sucesso mundial foi quase imediato. No Brasil o mangá foi publicado pela JBC no seu formato Black Edition (uma espécie de edição mais incrementada) a partir de 2012. Houve uma espécie de revival dos fãs de Death Note quando o live-action foi lançado na Netflix há alguns anos atrás, mas o apelo foi fraco devido a uma péssima produção. Toda essa digressão foi para dizer apenas que a animação é velha. Não há uma febre pelo conteúdo como havia há mais de uma década atrás, sendo relegado mais a quem conhece e gosta do conteúdo. Crianças e adolescentes gostam do que está na moda, do produto do momento. A menos que exista uma larga campanha comercial para revitalizar uma franquia, eles não vão sair em busca disso.


Em segundo lugar, qualquer matéria jornalística sai em busca dos dois lados da questão. Não posso apenas divulgar uma hipótese sem questionar o Sim e o Não. Isso é o básico do método científico. Por mais que alguém não goste de um lado da equação, é preciso ouvi-la, dar espaço a ela. Estamos em uma democracia e isso envolve a participação de todos os lados de uma questão. Nesse sentido, a reportagem pecou ao não se apresentar como um espaço de diálogo e, sim um espaço de proselitismo. De um conteúdo ultrapassado e que não possui qualquer vinculação com os dias de hoje. Podemos atribuir o problema a outras questões como vou comentar abaixo, só que a matéria foi direcionada a um produto comercial específico. A matéria foi sobre Death Note e não sobre os problemas de formação ético-emocional em crianças e adolescentes. Por mais que a gente possa tergiversar e dizer que existe uma questão a ser discutida, a reportagem não teve esse intuito.


É então que nos questionamos: por que essa reportagem aparece absolutamente do nada para discutir uma animação do qual não existe lá muito interesse? Vamos jogar um elemento político no meio, já que a rede de televisão em questão é alinhada com o atual governo. Não vou dedicar mais do que um parágrafo a isso já que não tenho a pretensão de discutir política nesta matéria em específico. Mas, precisamos apontar quando existem indícios de má condução. Em um ambiente nocivo ao governo, favorecido pela divulgação de um pesado relatório de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, uma taxa elevada de miséria e desemprego, uma crise inflacionária sem precedentes nos últimos anos e um declínio de popularidade do presidente, é óbvio que seus asseclas retornariam à política de base. Agradar à sua base extremista com pautas radicais, voltadas para um extremo-conservadorismo que afetou o país, que abandonou pautas progressistas em prol do velho slogan "moral, família e bons costumes". Nada contra as três palavras já que elas são a base de uma civilização próspera, o problema vem com o que é trazido a reboque disso: censura, violência, negacionismo. Sem falar que temos secretarias governamentais que favorecem a dispersão desse tipo de conduta.


Na última semana, foi divulgada uma iniciativa para a construção de uma Política Nacional de Qualificação de Conteúdo para a Criança e o Adolescente, pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública. Qualquer pessoa com um mínimo de neurônios sabe qual é o nome desse tipo de política, certo? CENSURA. Estão em dúvida se estou apenas veiculando notícias falsas? É sobre entrar neste link aqui do governo federal para saber mais a respeito. Coincidência ou não, a cerimônia de divulgação desta nova iniciativa se deu dois dias antes da reportagem ser veiculada no dito canal de televisão. Não acredito em coincidências. Pelo menos não neste governo.


Mas, vamos falar sobre o tema em si que suscita várias discussões. Existe um problema quanto ao que é apresentado às crianças e adolescentes? Podemos dizer que sim, e é um produto de nosso tempo. Só que é preciso relativizar e pensar com calma nas implicações disso. Ao falar de um tema tão espinhoso como esse, não escolheria falar sobre Death Note, mas sim de Round 6, um tema bem mais atual. Em Round 6, uma série live-action de origem coreana, várias pessoas com problemas financeiros são sequestrados por um grupo misterioso que os obriga a jogarem jogos infantis como cabo de guerra, colmeia, bolinha de gude e outros com uma pegada mortal. Isso atraiu a imaginação de crianças e adolescentes que viram brincadeiras que eles consideravam bobas retornando à moda através de uma ressignificação. Os problemas oriundos da difusão da série (que é recorde em visualizações na Netflix) ressuscitou o debate sobre o que as crianças podem ou não podem assistir.


Nos nossos dias temos inúmeros instrumentos que podem nos ajudar a evitar que as crianças assistam determinados conteúdos: bloqueio de canal, controle parental. Claro que o mesmo pode ser dito sobre como burlar estes instrumentos. Hoje podemos assistir filmes e séries em qualquer lugar: na sala, nos nossos quartos, na televisão, no computador, no celular. Meios não faltam para isso. Com uma geração que é nativa dos meios tecnológicos, muitas vezes os pais e professores se encontram atrasados na futura nova moda. Quem não se lembra do aplicativo que fazia desafios mortais para os adolescentes? Como formador de leitores, parto sempre do princípio básico que certamente estou mais atrasado em relação a eles acerca do que é novidade. Não podemos ter a presunção de que sabemos de tudo só porque somos adultos.


O maior problema da atualidade é a falta de atenção dada às crianças. Por conta de um mundo que exige demais do nosso tempo, acabamos não conseguindo dar o tempo necessário para criar laços com eles. Lógico que isso não é algo generalizante, mas na maior parte das vezes temos crianças e adolescentes que buscam refúgio nos videogames, nas séries e nas animações. Sem falar no apelo que os meios audiovisuais tem para eles. É parte da estratégia de uma empresa criar produtos audiovisuais que tragam prazer, que satisfaçam aquele que está do outro lado da tela. O nível de competitividade é altíssimo e ser capaz de criar a nova moda pode ser a receita do sucesso ou do fracasso. Como pais, devemos ser capazes de compreender quando e o quanto um meio tecnológico pode fazer parte do cotidiano de uma criança. Tecnologia não pode ser pensada como a substituta para o afeto e a atenção. Em sua pedagogia do amor, Henri Wallon destaca o quanto a afetividade é importante para o desenvolvimento emocional das crianças. Compartilhar atividades e interesses, ter um bom diálogo, fornecer uma pequena parte do seu tempo para estar junto. Muitos pais acabam usando a tecnologia para que a criança se distraia e eles possam ter tempo para si. Essa não é uma atitude correta. Nesses casos a criança ou adolescente podem querer chamar a atenção para si. Como o próprio Wallon indica em seu livro, eles tendem a buscar validação, estão construindo suas identidades e refletindo sobre seu lugar no mundo.


É aí que se encontra o segundo problema que é endêmico em nosso país: a escola como depósito de jovens. De forma alguma podemos pensar na escola e nos professores como um substitutivo para a família. Já disse em outras oportunidades que na escola se aprende conhecimento e informações, não valores. Um bom professor é um bom mediador; aquele que se encontra no meio do processo e é capaz de apontar os caminhos possíveis para o conhecimento. Emilia Ferreiro, uma das maiores especialistas em alfabetização, em seu livro de reflexões faz críticas a como a educação acabou se tornando refém de uma maneira de pensar que entrega nas mãos do professor todo o processo de desenvolvimento do aluno. Os pais são tão importantes nesse processo de formação quanto o professor. Em uma educação voltada para o futuro, pais e professores precisam atuar em um constante diálogo para entender as potencialidades e as dificuldades que uma criança tem durante esse período tão desafiador. Não se pode creditar essa faculdade a um único indivíduo.


Só que não é possível cair na armadilha do pai censor. Até porque crianças e adolescentes em processo de formação são eternos desafiadores. Eles testam nossos limites enquanto estão em busca de seu espaço no mundo. A proibição e a censura são passos errados e só pioram o problema. Por mais que seja difícil o diálogo nesse período da vida, somente explicando os porquês é que é possível chegar a um denominador comum. No caso de animes, séries, filmes ou games violentos, o pai ou a mãe podem explicar o que os levam a terem reservas quanto àquele conteúdo em especial. Ou os motivos que os levam a serem reticentes. Que tal estar junto quando o filho ou a filha joga um game ou assiste uma série? O acompanhamento familiar não é apenas o papel do pai ou da mãe como alguém que pune ou que coloca de castigo, mas poderia não ser uma parceria? Uma amizade? Nunca esquecendo de que no fim do dia, o pai é o pai enquanto o amigo é o amigo. O papel do pai como alguém que incentiva, educa e está presente nunca é demais. Como professor, raramente vejo um pai ou uma mãe que acompanha o desenvolvimento do aluno na escola. Se interessa por seus deveres, procura entender quando o filho tira uma nota baixa, se está ou não sofrendo bullying dos colegas. Aliás, esse último caso disparou de duas décadas para cá e isso se deve a essa distração.


A educação tecnológica é o caminho para o futuro. O professor é, cada vez menos, o detentor da informação e mais alguém que compartilha conhecimentos e os discute para a formação de uma mente questionadora. Uma grande parcela das crianças possui hoje um enorme acesso a um manancial de informações. Há décadas atrás, Edgar Morin nos apontava que com a difusão da rede mundial de computadores a educação precisaria passar por um processo transformador. Em seu último trabalho em que ele reflete sobre os efeitos da pandemia na educação, Morin coloca que o ensino remoto colocou novos desafios que exigiram a integração (meio forçada) entre pais e professor. Algo que, na visão dele, era para ter acontecido há anos atrás. E este foi um processo que se deu de forma desigual e ressaltou os problemas sociais presentes em diferentes países. Mudança essa que não tem como voltarmos atrás e precisamos repensar nossos devidos papéis e como a educação de nossos filhos pode ser direcionada. Por exemplo, ensinar como filtrar informações na internet se tornou uma ação necessária nas escolas. Com tanta informação acessível, precisamos mostrar ao aluno quais são mais ou menos confiáveis. Como sair dos achismos, do senso comum e chegarmos ao método científico.


Ao final dessa matéria meu desejo é para que possamos sair desse período de trevas no qual se encontra nosso país. Onde a desinformação, a falta de critério e o disse-me-disse substituem as formas reais de pesquisa. Onde interesses políticos se sobrepõem às visões de mundo e ameaçam transformar nosso país em um rescaldo de uma republiqueta de bananas. Somos maiores do que isso. Ao observar matérias mal intencionadas e que respondem a objetivos governamentais, precisamos ser críticos e apontar o dedo, cobrando responsabilidade daquilo que é veiculado em rede nacional. O canal em questão não é um canal de internet opinativo ou um blog tendencioso qualquer, mas responde por milhares de pessoas que fazem parte de sua audiência cativa. No entanto, os donos do canal se comportam como pequenos militantes medíocres colocando desinformação na TV.




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