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Barney está tentando encontrar seu lugar no mundo após perder a esposa por sua própria culpa. Leo busca acabar com uma possível concorrência apresentada na forma do misterioso retorno de Palmer Eldritch, um homem que foi explorar os confins da galáxia e entrou em contato com outras civilizações.




Sinopse: Num futuro não tão distante, quando o exílio compulsório de um planeta Terra excessivamente quente significa instalar-se miseravelmente em colônias marcianas, a única coisa que faz a vida dos colonizadores suportável são as drogas. Única em sua finalidade, a Can-D "traduz" aqueles que a consomem para uma outra realidade.


Esta é uma obra que faz duras críticas sociais. O autor é conhecido por fornecer elementos fantásticos e de alta tecnologia para mascarar perguntas simples como: o que é realidade?, o que significa fé?

Primeiramente é bom salientar a proximidade que esta obra tem de Minority Report (filme baseado em outro conto de Philip K. Dick). O tempo todo o leitor acredita que está lidando com o real até o momento em que o autor dá uma rasteira e lhe mostra as alucinações e sonhos vividos pelos personagens. A droga Chew-Z apresenta uma realidade fluida na qual o leitor se sente inseguro sobre o que está sendo apresentado pelo autor. Frequentemente nos perguntamos durante o desenrolar da história: “Isso está acontecendo mesmo?”. Esta é a mágica de Philip K. Dick que veremos em outros livros de sua extensa produção. Aqui não é o narrador que não é confiável; é a própria ambientação apresentando a falta de confiabilidade.


Questões de fé também são discutidas ao longo da história. Em um primeiro momento os personagens tentam descobrir se Palmer Eldritch retornou como um deus. Isso dado o controle sobre a vida e a morte e a manipulação da realidade exercida por Palmer. Seriam essas qualidades divinas? Palmer Eldritch, através do Chew-Z, consegue perpetuar sua persona a todos os lugares. Barney menciona até o Gênesis, primeiro livro que compõe a Bíblia católica, ao dizer que nos tornaríamos filhos de Eldritch já que possuiríamos fragmentos de sua consciência. Seríamos moldados à imagem e semelhança de Eldritch se os seus planos tivessem êxito.




A fé também é questionada. Barney, sendo um homem prático, vê todos os seus dogmas sendo destruídos progressivamente pela influência do Chew-Z. O personagem não sabe aonde alicerçar sua noção do que é ou não real. Sua noção de ciência também é destruída pelo que Palmer manipula como real. No fim da história Barney conhece Anne que é capaz de realizar uma questão teológica usando os escritos de Paulo de Tarso, um dos apóstolos do Novo Testamento bíblico. Anne faz Barney repensar o seu lugar no mundo. Sendo interpretativo, Anne apresenta uma noção flexível do que pode ser considerado o “divino”. O “divino” é aquilo que fornece força e objetivo para nossas vidas. Não importa de que maneira nós pintemos ou mascaremos essa representação. Só precisa servir como uma influência positiva para nossas vidas.


Os personagens foram muito bem criados e são usados satisfatoriamente na história. Mesmo os colonos de Marte ou a amante de Barney cumprem um objetivo na história. Não são apenas jogados como refugo. O autor cumpre bem o objetivo proposto no início da história: fazer uma crítica social.




Ficha Técnica:


Nome: Os Três Estigmas de Palmer Eldritch

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Ludimila Hashimoto

Número de Páginas: 248

Ano de Publicação: 2010


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A jovem Carrie White é uma menina retraída, muito por conta de sua mãe ultrarreligiosa. Quando acontecimentos estranhos começam a acontecer, sua vida vira de pernas para o ar. Uma obra clássica do mestre do terror.




Sinopse: Carrie é uma adolescente tímida e solitária. Aos 16 anos, é completamente dominada pela mãe, uma fanática religiosa que reprime todas as vontades e descobertas normais aos jovens de sua idade. Para Carrie, tudo é pecado. Viver é enfrentar todo dia o terrível peso da culpa. Para os colegas de escola, e até para os professores, Carrie é uma garota estranha, incapaz de conviver com os outros. Cada vez mais isolada, ela sofre com o sarcasmo e o deboche dos colegas. No entanto, há um segredo por trás de sua aparência frágil: Carrie tem poderes sobrenaturais, é capaz de mover objetos com a mente. No dia de sua formatura, Carrie é surpreendida pelo convite de Tommy para a festa - algo que lhe dá a chance de se enxergar de outra forma pela primeira vez. O ato de crueldade que acontece naquele salão, porém, dá início a uma reviravolta cheia de terror e destruição. Chegou a hora do acerto de contas. Carrie, a estranha é um dos maiores clássicos de terror da literatura contemporânea e um dos livros mais aclamados de Stephen King.



Quantos de nós já sofreram bullying? Quantos de nós já praticaram bullying? É um tema absolutamente corriqueiro em nossas escolas. Aqueles que sofrem bullying, seja fisicamente, seja psicologicamente, desejam se vingar de seus agressores. O que, no início, começa como uma brincadeira, acaba se tornando um jogo de agressor e vítima onde o agressor se sente superior à sua vítima. Mesmo que essa superioridade venha de um ato de violência. Às vezes essa necessidade é proveniente de uma vida medíocre e que necessita de um ponto alto. Outras vezes é para ter uma desforra por abusos cometidos dentro de sua própria casa.


Carrie foi o primeiro romance de Stephen King a ser publicado por uma editora. E que começo para o mestre do horror! Uma obra que parece não envelhecer com o passar do tempo. Não à toa já tiveram três adaptações para o cinema. Das 3 só vi duas, sendo que a versão de 2001 foi a que eu mais gostei. A de 2013 ainda está na minha lista de o que ser visto nas férias. Por ser o primeiro romance, o livro apresenta características muito diferentes de outras histórias de King. Não tem aquele terror visceral, ou os elementos gore ou os vilões repulsivos. Aliás, King escreve no prefácio que escrever sobre adolescentes é assustador. Imagino como o high school americano (equivalente ao nosso ensino médio) possa ser assustador. Vários filmes fazem referência a essa como uma fase complicada na vida do jovem norte-americano. Essas referências ora geram filmes de terror, suspenses ou comédias.


Talvez o que faça Carrie ser tão icônico é o fato de tratar de pessoas comuns. Se tirarmos os poderes paranormais de Carrie White, todo o resto poderia ser encaixado em qualquer escola e em qualquer parte do mundo. É em Carrie que vemos a habilidade de King em puxar os elementos positivos e negativos que fazem do ser humano, um ser falho. E King quebra com os estereótipos típicos das histórias de high school. Susan Snell, a boa menina, aquela que ajuda, a responsável, também integra o grupo de agressoras de Carrie. Ela se arrepende posteriormente, mas suas ações são apenas para limpar a consciência. Seu namorado seria o típico jogador de football, forte, musculoso e mulherengo. Só que King o transforma justamente no oposto: um cara bacana e responsável que acaba compreendendo a situação vivida por Carrie.




A história é construído em estilo epistolar. Já havia comentado isso quando resenhei Drácula. Trata-se de uma história contada a partir de cartas, relatórios e notas de diário que nos ajudam a criar o último mês vivido por Carrie. King tenta criar uma atmosfera investigativa ao criar uma comissão para buscar os detalhes dos poderes emanados por Carrie. Até insinua a existência de outras pessoas como ela. Não sei se King volta no tema ou até se podemos considerar Danny Torrance de O Iluminado outras pessoa como Carrie. Faltam elementos para construir uma ligação entre as duas histórias, se é que existe uma.


A construção da mãe de Carrie mostra o talento que King tem ao apresentar indivíduos fundamentalistas lunáticos (Revival, o novo romance de King toca justamente nisso). Margaret é o extremo do fundamentalismo: muito recatada, disciplinadora. É o protótipo da solteirona sulista que frequenta a igreja aos domingos. Ao construir um lar repressor, King mostra que Carrie não tem só um ambiente agressivo na escola, como também em casa. E, principalmente, que todo ser humano tem um ponto de ruptura. Quando Carrie não tinha esperanças de que sua vida melhoraria, ela aceitava seu bullying. A esperança de algo melhor e de ver essa esperança cair por terra foi o ponto de ruptura. Ao não ter suporte da própria mãe que a considerava um demônio, Carrie se vê abandonada. Seu único consolo eram seus poderes telecinéticos. E aí King mostra sua genialidade: Carrie de vítima passa a agressora. Usa seus poderes para demonstrar uma superioridade e poder se vingar por tudo aquilo que sofreu. Porém, tudo isso provem de uma educação repressora e cuja mãe, muito religiosa, considerava sua filha a enviada do demônio.


Podemos destacar outros personagens como Chris Hargensen e Billy Nolan. Chris é a típica garota mimada e rica. King gosta de construir esses personagens fortes e emblemáticos. As cenas de sexo entre Chris e Billy servem para mostrar o tipo de mulher agressiva e manipuladora que ela é. É o estereótipo da vixen, da ninfa que atrai os homens com seus atributos. Para provar o seu poder dentro daquele pequeno universo que é o high school, ela precisa pisar nas mais fracas. É como se fosse a demonstração de uma cadeira alimentar em que ela formava o topo e todas abaixo dela buscassem tomar o seu lugar.


Carrie é um romance fantástico. Completamente atemporal. Como primeiro trabalho de um autor prolífico como Stephen King é a demonstração máxima de para o que ele veio. Mas, ao colocarmos frente a outras obras, vocês verão várias diferenças na escrita e na apresentação dos personagens. Mesmo assim, vale muito a pena a leitura.




Ficha Técnica:


Nome: Carrie, a Estranha

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Gênero: Terror

Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

Número de Páginas: 200

Ano de Publicação: 2013


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Atualizado: 29 de Mar de 2019

Bobby Newman testa um novo tipo de software que permitiria quebrar até mesmo firewalls poderosos de grandes corporações. Mas, algo dá errado e ele quase morre. Só que aparece uma estranha presença que salva Bobby Newman de sua inevitável morte. Quem será?



Sinopse: Algo estranho acontece no ciberespaço.  Sete anos após os eventos narrados em Neuromancer, a matrix se estende sobre a Terra, envolvendo pessoas, empresas e informações. Sem qualquer controle, inúmeras Inteligências Artificiais se proliferam e se tornam sencientes, transformando-se em deuses vodus. Eles interagem com a humanidade e ameaçam a segurança de indivíduos e de grandes corporações. Nesse cenário frenético e superconectado, uma guerra está prestes a começar. Count Zero é o segundo volume da Trilogia do Sprawl.


Admito que tenho problemas com William Gibson. A minha resenha sobre Neuromancer gerou muita polêmica entre meus colegas que argumentaram que eu não entendia a importância de sua contribuição. Entendo perfeitamente este ponto. Acho que o Gibson foi importante ao estabelecer um novo tipo de histórias baseadas em um futuro não tão distante. Suas histórias sempre possuem um teor de crítica social. Mas, não podemos confundir inovação com uma história mediana.


Em Reconhecimento de Padrões já foi possível perceber uma evolução na maneira de conceber os personagens. Afinal, de nada adianta eu ter um mundo ricamente formulado se os meus personagens não são capazes de entregar uma boa história. Mas, Reconhecimento de Padrões tem vários anos de diferença em relação a Neuromancer.


Count Zero é o segundo volume da Trilogia Sprawl. Neste volume, Gibson expande um pouco mais o mundo concebido em Neuromancer. Nos apresenta novos personagens enquanto faz referências a alguns antigos. Achei um ponto muito positivo neste livro. O mundo cresce bastante ao mesmo tempo em que vemos personagens conhecidos como o Finlandês. Os conflitos entre corporações são ampliados ao aparecer um sucessor pelo vácuo deixado pela Tessier-Ashpool.


Mais uma vez são as personagens femininas quem dão as rédeas da história. Marly é responsável pelos momentos mais interessantes do livro. Sua investigação sobre Virek e a sua ida até o antigo satélite da Tessier são os momentos que empolgam na história. Já a parte de Bobby me incomoda um pouco. Entendo que ele é o protagonista e seus capítulos englobam boa parte da mitologia por trás do enredo no livro. Vou discutir essa mescla de espiritualidade e tecnologia mais abaixo. O que me incomoda novamente é a passividade do personagem diante da história. Mesmo protagonistas fracos em outras histórias, eles acabam fazendo a história seguir ao se deparar com um obstáculo. Geralmente, alguma coisa acontece: ou o protagonista atravessa o obstáculo ou ele cai ou desiste. Em Count Zero, Bobby Newman não faz nada dessas coisas. A história é que parece empurrá-lo adiante de alguma forma; ou seja, não é personagem que faz a história seguir, mas a história que faz seguir o personagem. É difícil explicar adequadamente. Vamos dizer que o personagem não toma nenhuma decisão, não realiza nenhuma escolha durante a história. Mesmo quando ele se vê diante de uma decisão difícil que afeta todo o seu grupo, ele não diz sim ou não, mas a força externa que o auxilia é quem diz sim.



Os biosofts são muito interessantes na história. E o autor escolhe a mitologia haitiana para mesclar com os conflitos entre corporações. As interações com Papa Legba são muito bacanas. Talvez isto tenha levantado um pouco mais a minha análise da história. E o fato de Marly ter me lembrado muito outro personagem do Gibson: Cayce Pollard de Reconhecimento de Padrões que é a minha favorita de suas histórias (Molly é uma personagem muito interessante, mas Cayce foi melhor construída). O autor tem alguns posicionamentos sobre espiritualidade que vale a pena ser observados. Prefiro deixar no ar para que os leitores possam apreciar melhor.


O tema comum em Neuromancer e Count Zero é a crítica ao individualismo. Neste mundo corporativo, as pessoas vivem em seus cômodos afastados umas das outras. Habitam cubículos, acessam seus chips para entrar na rede e se comunicam pouco umas com as outras. É um mundo decadente em que cada indivíduo desconfia do outro. Por desconfiar, não quer estabelecer relações com os outros. No fim da história, apenas a união entre os diversos grupos atuantes é capaz de derrotar os antagonistas da história. Um momento onde cada um empresta sua habilidade para formar um grupo coeso. Tudo em prol de um objetivo comum. Em Count Zero, Gibson trabalha com o individualismo, mas diferente do primeiro livro, ele mostra como é importante a união das pessoas.


Enfim, recomendo a leitura. Count Zero tem uma pegada diferente de Neuromancer. As benditas referências pop continuam presentes, mas incomodam menos do que no primeiro livro. A gente sente que elas fazem parte integrante do mundo em questão, e não são apenas flavor. Ou seja, não são apenas a cerejinha por cima do bolo. Existe um objetivo para a sua presença ali; algo importante para o andamento da história. Count Zero tem um bom clima, personagens interessantes (esqueçam Bobby Newman, foquem-se nos outros personagens) e dá uma boa continuidade na história.




Ficha Técnica:


Nome: Count Zero

Autor: William Gibson

Série: Trilogia Sprawl vol. 2

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Carlos Ângelo

Número de Páginas: 312

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Outros volumes da série:

Neuromancer (vol. 1)

Mona Lisa Overdrive (vol. 3)


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