Buscar

A mãe de Will sofre de uma condição terrível: a perda de memória recente. Por essa razão, Will é responsável por cuidar dela e das atividades do dia-a-dia. Seu pai desapareceu. Um dia, alguns homens estranhos invadem sua casa e Will, acidentalmente, mata um deles. Ao fugir, Will acaba esbarrando em Lyra Belacqua, a heroína do primeiro volume da série. Qual será o destino da dupla?




Sinopse: Perdida em um mundo novo, Lyra Belacqua encontra Will Parry ― um fugitivo que logo se torna um aliado mais que necessário. Pois este novo mundo é povoado por Espectros sugadores de alma, e no céu as feiticeiras disputam espaço com anjos. Will procura pelo pai, um explorador desaparecido há anos, e Lyra busca a origem do Pó. No entanto, o que os dois encontram é um segredo mortal e uma arma de poder absoluto, capaz de decidir o resultado na guerra que se forma ao redor deles. O que nenhum dos dois suspeita é do quanto suas vidas, seus objetivos e seus destinos estão conectados... até que precisam se separar. A faca sutil é a viciante sequência de A bússola de ouro, um clássico da fantasia considerado pela Entertainment Weekly “o melhor livro de todos os tempos”. A fantástica aventura de Lyra continua, levando o leitor a novos mundos, rumo a uma descoberta devastadora.




Após ler A Faca Sutil, eu cheguei à seguinte conclusão: Philip Pullman tem o dom de esconder críticas sociais em uma história absolutamente inocente. Poucos autores nos dias de hoje são capazes de criar uma história tão cerebral quanto essa ao mesmo tempo em que faz com que seus protagonistas (duas crianças) despertem a atenção dos leitores.

No segundo volume de Fronteiras do Universo vemos Lyra Belacqua continuando sua jornada após o confronto com o seu pai. Mas, em uma terra similar e ao mesmo tempo diferente da sua, ela se encontra com o menino Will. Este acaba de passar por uma situação traumática: foi responsável pela morte de dois homens que vinham perturbando sua mãe. Como esta sofre de uma condição que a deixa sem memória, Will é responsável por cuidar de todos os aspectos da vida de sua mãe. Quando ele a vê ameaçada, seus instintos falam mais alto e ele reage sem pensar. Após o ocorrido, Will deixa sua mãe na casa de sua professora e foge. É durante sua fuga que Will se encontra com Lyra após esta atravessar uma espécie de janela no espaço. Lyra acabara de viver uma experiência terrível tendo que atravessar uma cidade que fica em uma espécie de limbo entre o mundo de Lyra e o de Will. Agora, ela precisa encontrar alguma maneira de conseguir voltar para casa, ao mesmo tempo em que precisa escapar das garras da Sra. Coulter.

Este segundo volume de Fronteiras do Universo é realmente um volume de transição entre A Bússola Dourada (o primeiro volume) e A Luneta Âmbar (o terceiro volume). Ele possui todos os aspectos de um livro de transição: apresenta mais mistérios, coloca os personagens em situações desesperadoras e seu clímax é um cliffhanger para o próximo volume. Isso me deixou muito chateado. Porque o primeiro volume da série é maravilhoso; a história passa em uma velocidade incrível e as tramas acabam sendo fechadas de uma maneira excelente ao mesmo tempo em que ganchos são deixados para a continuação. Quando eu abri A Faca Sutil eu esperava mais daquilo que vi no primeiro volume. E eu pude perceber que o autor segurou muito a mão e deixou os impactos maiores para o terceiro volume. O enredo acabou repleto de muitas explicações que acabaram tomando tempo e espaço desnecessários.

Os protagonistas são bem desenvolvidos apesar de eu achar a Lyra muito estranha em relação a certas situações. Por exemplo, a relação dela com o Will. Ela logo descobre que ele é um "assassino". A reação dela: dá de ombros e diz que ele é o cara perfeito para o que ela precisa. Eu fiquei abismado... Lyra é uma menina e ela toma certas coisas com muita naturalidade. Achei que a personagem passou a aceitar passivamente muitas coisas. Nem parece a menina espoleta do primeiro volume que desafia a tudo e a todos. Nesse ponto eu acho que o autor acabou não sendo muito coerente com a personagem que ele construiu e desenvolveu no primeiro volume. Entretanto, o leitor vê uma personagem que procura entender a situação de Will e se adaptar às circunstâncias em que se encontra.



Já Will é um personagem bem trabalhado. O autor conseguiu em umas cem páginas, o que ele precisou do dobro para fazer com Lyra: construir um personagem interessante com uma história que se liga completamente ao enredo da outra protagonista. Will é um personagem muito triste que teve sua infância tomada por circunstâncias adversas. Ter que cuidar de sua mãe obrigou o menino a crescer depressa. Seu olhar é sofrido e demonstra o quanto ele está insatisfeito com o rumo que as coisas tomaram. Se tornar o portador da Faca Sutil não o ajudou nem um pouco. Muito pelo contrário: colocou mais um fardo em suas costas.

Cittagaze é uma cidade assustadora. Se o objetivo de Pullman era criar uma aversão àquelas crianças, ele conseguiu sem dúvida alguma. Algumas atitudes que elas tomam lembram algumas que os adultos tomam. Nos imaginemos em situações que não compreendemos e acabamos tomando atitudes violentas e irracionais. Isso é o que aquelas crianças acabam fazendo. Os Espectros funcionam como uma crítica às pessoas que não buscam mais a magia em nosso mundo. Estes se tornam seres tristes que querem sugar a alma de pessoas criativas e felizes. Posso estar delirando em minhas deduções, mas essa foi a minha interpretação do motivo de Pullman tê-los introduzido na história. A aceitação dos Espectros à Sra. Coulter se deve ao fato de que esta já é um "Espectro" por si só.



Outros personagens familiares retornam como Seraphina Pekkala e Lee Scoresby. Ambos tem participações importantes para o andamento da história. Vemos um pouco mais sobre as bruxas nos trechos onde Seraphina aparece. São revelados os motivos de estas terem se mantido um pouco distantes no primeiro volume. Sobre Lee, vale a pena a linda cena entre ele e seu dimon na metade final da história. Pullman deixa um grande elemento de ligação em direção à terceira história. O livro acaba bem rápido, representando uma leitura que não me satisfez completamente. Às vezes os leitores reclamam das gorduras deixadas em um livro ou da falta de objetividade de um autor. Aqui eu achei que o autor foi objetivo demais.

É preciso destacar o aspecto religioso do livro. Recomendo até que aqueles mais religiosos não leiam o livro. Pullman é ateu e tece uma série de comentários entre os diálogos dos personagens na história que podem não soar bem aos mais sensíveis. Basta dizer que o antagonista deseja matar Deus. Pura e simplesmente assim. Não sei se o autor vai conduzir de outra forma no terceiro volume, mas foi isso que ele deixou transparecer nesta história. Basta associarmos a autoridade do Magisterium à Igreja que as conexões aparecem rapidamente. Pullman escreveu a série em um momento quando o ateísmo estava em voga e sob forte discussão. Por esse motivo, os ativistas do ateísmo como Pullman revelavam seu lado mais radical e expunham suas opiniões sem temer a opinião pública negativa. A série As Fronteiras do Universo foram uma das melhores representantes desta discussão no universo da fantasia e da ficção científica.

Enfim, A Faca Sutil é um bom livro continuando e aprofundando uma história que era excelente e conseguiu manter o ritmo apesar de alguns percalços. O novo protagonista é apresentado e desenvolvido de forma muito satisfatória e os outros personagens possuem papeis bem importantes para a história. A ambientação continua fantástica com a cidade de Cittagaze sendo marcante para os leitores.




Ficha Técnica:


Nome: A Faca Sutil

Autor: Philip Pullman

Série: Fronteiras do Universo vol. 2

Editora: Suma

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Eliana Sabino

Número de Páginas: 288

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Outros volumes da série:

A Bússola de Ouro


Link de compra:

https://amzn.to/2FIQywX


Tags: #afacasutil #willparry #lyrabelacqua #fronteirasdouniverso #dimons #cittagaze #seraphinapekkala #magisterium #sracoulter #espectros #leescoresby #steampunk #scfi #amoscifi #leiascifi #ficcoeshumanas

Umi é uma garota que aprendeu a linguagem das bandeiras náuticas ao lado de seu pai. Todos os dias ela sinaliza com estas bandeiras aos navios do porto. Quando ela conhece o jovem Shun Kazama, Umi se envolve com o jornal da escola. Só que o prédio onde o jornal se situa está para ser demolido. Vai se iniciar uma batalha para salvar o prédio.

Sinopse:


A história gira em torno de uma garota chamada Komatsuzaki que vive na cidade de Yokohama, perto de Tóquio, em 1963 — um ano antes das Olimpíadas. Seu pai desapareceu em um acidente e sua mãe, uma fotógrafa, está sempre viajando. A família tem um negócio de hospedaria e o mangá narra seu dia-a-dia ao lado de dois garotos: o presidente do conselho estudantil e um dos membros do clube de jornal da escola.




Algumas coisas na vida acontecem sem a gente planejar. Seja o encontro com algum amigo do passado durante uma viagem de ônibus ou uma agradável surpresa durante uma tarde de domingo. Minha experiência com Da Colina Kokuriko é justamente essa. Tendo passado os grandes sucessos do Studio Ghibli e faltando apenas 4 filmes para terminar minha jornada, eu estou guardando algumas animações para o final (Arriety e o Mundo dos Pequeninos será minha última resenha). Então quando fui ver esta animação não esperava muita coisa. Principalmente porque a direção ficara a cargo de Goro Miyazaki e Terramar foi uma tremenda desilusão para mim. Mas qual não é minha surpresa com essa animação? Ela é boa... aliás... ela é linda e nostálgica ao mesmo tempo.

A história se passa em 1963, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Tokyo, no Japão. Somos apresentados à Umi, uma colegial que toma conta de sua família enquanto sua mãe estuda medicina nos EUA. Sua vida é difícil por conta de tantas responsabilidades pelo qual ela precisa suportar. Seu pai foi um marinheiro cujo navio de carga esbarrou em uma mina durante a Guerra da Coreia. Ele ensinou à Umi a comunicação por bandeiras náuticas. Todos os dias Umi hasteia bandeiras para os navios que passam no porto. Na escola, Umi conhece Shun Kazama, responsável pelo jornal literário da escola. O prédio onde se situa o jornal e os demais clubes de ciências está ameaçado de demolição. O responsável pela Academia Konan quer construir um prédio mais moderno, inspirado nos ideais modernistas que vieram junto com as Olimpíadas. Umi tentará ajudar a salvar o prédio e com isso descobrirá que está apaixonada por Shun. Mas, Umi e Shun possuem uma história em comum que nem mesmo eles sabem. Poderá isso atrapalhar o sentimento que eles tem um pelo outro?

A história dessa animação é curiosa. Ele foi anunciado em 2010 e havia sido anunciado que sua exibição seria em 2011. Mas, no meio do processo de finalização de Da Colina Kokuriko, aconteceu um terremoto que afetou a região onde o estúdio se encontrava. Os encarregados do projeto tiveram que varar a noite para poderem encerrar a produção e apesar de todos os percalços a animação foi exibida no período correto. Outra curiosidade é que, pela primeira vez, Goro e Hayao Miyazaki trabalharam juntos na produção da animação. Combina muito bem com o espírito por trás do enredo de Da Colina Kokuriko.

O espectador consegue perceber um trabalho do Studio Ghibli por causa da preocupação com os detalhes. Mesmo uma animação menos badalada possui um grau de detalhamento absurdo. Conseguimos perceber isso na passagem das nuvens pelo céu, nas folhas que fazem sombras no chão quando Umi segue para a escola ou na movimentação de diferentes personagens pelo cenário. Claro, é mantido o padrão dos olhos grandes típicos dos animes japoneses, mas cada personagem é bem expressivo. A trilha sonora é de Satoshi Takebe e remete bastante a um clima de nostalgia com várias canções espalhadas ao longo da animação. É uma trilha sonora de partir o coração com muitas notas tristes e melancólicas. Não sei responder ao certo, mas a maioria das canções parecem remeter à vida do marinheiro no Japão (não sei se são canções tradicionais... não encontrei nada a respeito).

Uma das temáticas principais na animação remete àqueles que ficam para trás no pós-guerra. Mesmo tendo falado da Guerra da Coreia, vemos o sofrimento e a solidão das famílias que perderam entes queridos nesses conflitos. Essas pessoas acabam nunca mais sendo as mesmas e até seus filhos acabam sentindo um pouco desse sofrimento. Famílias são separadas e possuem suas realidades completamente alteradas. No japonês, esse sentimento de perda é muito presente principalmente quando mencionamos a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra da Coreia. São marcas profundas na alma deste povo. Se eles estavam certos ou errados durante o conflito, isso não vem ao caso. O homem comum não é responsável pelas decisões tomadas pelos seus líderes. Posso relacionar Da Colina Kokuriko facilmente com O Túmulo dos Vagalumes, outra animação do estúdio que trata de uma temática semelhante. A animação claramente é mais voltada para o público japonês e isso se reflete na aceitação tímida em mercados internacionais.

O que eu mencionei na minha apresentação desta resenha eu queria comentar aqui. Como não mencionar Olimpíadas e não discutir a respeito do caos que está o Rio de Janeiro às vésperas deste evento. A animação toca também no fato de os japoneses quererem apagar o passado para se voltar para um futuro de glórias que viria com o evento esportivo. A própria existência do Quarteirão Latino (o clube de ciências da escola) é a ilustração máxima do que deveria ser esquecido. São alunos que usam um prédio antigo para poder buscar o desenvolvimento de seu caráter e seus estudos. A existência do prédio é a manutenção dos costumes milenares japoneses. A demolição injustificada em prol da glorificação do novo e do contemporâneo desperta a raiva dos alunos que observam a sacralidade de seu pequeno espaço. O emprego de elementos nostálgicos na animação serve para reforçar a importância daqueles que se foram para a construção do futuro. Não podemos simplesmente apagar a memória; é preciso trazê-la à tona mesmo que ela tenha um pouco de dor em seu íntimo.

Esse aspecto da dor da lembrança vem com a história compartilhada por Shun e Umi. Era preciso trazer à tona a lembrança do pai de Shun. De nada adiantava ele esconder essa lembrança e manter uma mente fechada para a vida que seguia. Achei muito feliz a abordagem de Goro a respeito deste tema, sem muita enrolação. Quando eu achei que ficaria enrolado demais, é encerrado este capítulo com algumas revelações. A relação entre os protagonistas não me incomodou e nem pareceu algo muito açucarado. Foi bem dosado e os momentos íntimos serviram a seu propósito.

Os demais personagens acabam mais sendo coadjuvantes e não sendo tão trabalhados. Fico meio dividido a respeito disso porque eu acho que ele poderia ter introduzido alguns outros personagens na história, mas ao mesmo tempo fico preocupado se isso não acabaria por inchar o enredo sem necessidade. Bem, Da Colina Kokuriko não é uma animação best-seller; é muito mais uma história voltada para um público específico.

Goro Miyazaki não inventou a roda com esta animação e apresentou um enredo simples, porém competente. Além disso, é uma história que toca no fundo do coração do povo japonês. Foi indicado a algumas premiações, mas venceu apenas feiras locais. Foi distribuído de forma bem tímida pela Disney nos EUA e teve entre seus dubladores Beau Briges (Eddard Stark em Game of Thrones) e Gillian Anderson (a eterna Dana Scully de Arquivo X). Se você está disposto a ver, não vai se arrepender, mas não é uma animação que eu indico a todos.

Na próxima semana, vou falar a respeito de uma animação muito especial: Vidas ao Vento, a última animação produzida por Hayao Miyazaki antes de se aposentar.

Ficha Técnica:


Nome: Da Colina Kokuriko

Diretor: Goro Miyazaki

Produtor: Toshio Suzuki

Roteirista: Hayao Miyazaki e Keiko Niwa

Baseado em Kokuriko-zara kara escrito por Chizuru Takahashi e Tetsuro Sayama

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 92 min

Ano de Lançamento: 2011


Tags: #dacolinakokuriko #fromuponpoppyhill #goromiyazaki #hayaomiyazaki #toshiosuzuki #studioghibli #crescimento #adolescencia #jornal #escola #desaparecimento #paisefilhos #ficcoeshumanas




Ponyo é uma peixinho dourado muito especial. Filha de um cientista e de uma deusa do mar. Quando ela encontra o jovem Sosuke, ela conhece Lisa, uma mulher triste e solitária após a perda do marido. Quando Ponyo lambe uma ferida de Sosuke, ela passa a poder se transformar em uma garotinha.

Sinopse:


O garoto Sousuke encontra um peixinho dourado preso em uma garrafa e decide libertá-lo, sem saber que se trata da deusa do mar Ponyo. Filha de um poderoso mago, ela se comove com a atitude do menino e usa a magia do pai para se transformar em humana. Dessa forma, acredita poder fortalecer a amizade com Sousuke. Porém, a substância de sua poção mágica pode colocar em risco o vilarejo onde mora o menino.




Quero antes de mais nada pedir desculpas pelo leve atraso nesta resenha. Infelizmente eu venho sentindo uma ressaca de Studio Ghibli nas últimas semanas e isso tem refletido nas minhas resenhas. Só consegui terminar de ver Ponyo hoje pela manhã. E, vendo Ponyo, eu fico feliz... eu recupero todo o meu entusiasmo de ver qualquer coisa do Studio Ghibli. Que animação linda; que animação simples e tão cheia de significados. Hayao Miyazaki consegue fazer coisas maravilhosas. Pensar que esta é uma das últimas animações do gênio por trás do Studio Ghibli me deixa até triste.

Ponyo é uma peixinho-dourada filha do cientista Fujimoto com a deusa do mar Gran Mamare. Durante uma de suas escapadas para conhecer o mundo, ela se encontra com Sosuke, um menino muito esperto que vive no farol no alto de uma colina. Sosuke é criado por Lisa, uma mulher atarefada que ajuda a cuidar de uma casa de idosos chamada Girassol. Lisa se sente muito solitária porque seu marido, Koichi, é o capitão de um navio e passa mais tempo no mar. Ponyo passa um tempo com Sosuke e após lamber uma ferida dele consegue se transformar em uma humana. Fujimoto vai atrás de Ponyo, só que esta foge de novo e volta para Sosuke agora como uma humana. Mas, Ponyo possui poderes incríveis e estes poderes colocam a Terra em risco. O único jeito de salvar a todos é Ponyo ser amada e desistir de seus poderes. E agora? Será que Ponyo descobrirá o verdadeiro amor?

Nessa reta final de resenhas do Ghibli, eu fico pensando nas vezes em que gostei de uma animação do estúdio. Sempre que eu olhava para a TV e eu nem sequer parava para olhar a hora ou me divertia tanto que abria um sorriso, era quando eu realmente gostava do que estava vendo. Isso aconteceu com O Serviço de Entregas da Kiki, Chihiro, Porco Rosso e Laputa. E mais uma vez aconteceu com Ponyo. Nossa, eu estou empolgado e feliz até agora. Pensar que o enredo é tão simples assim eu sinto vontade ainda mais de elogiar o trabalho de Miyazaki. Olhando depois de onde veio a inspiração para o enredo de Ponyo, eu fiquei pensando: "É... só podia ser coisa do Miyazaki mesmo". Ponyo é inspirado na história de "A Pequena Sereia" de hans Christian Andersen. Claro que Miyazaki deu o seu toque de magia e estranheza à história, mas nós percebemos que é típico dele quando vemos um peixe gigante com asas, medusas voadoras e trombas d'água no formato de peixes.

Para a criação de Ponyo, Miyazaki decidiu retornar às origens do studio Ghibli. Ele não usou elementos digitais para a composição das cenas. Todas as cenas foram feitas à mão o que ajuda a montar este ar de filme infantil. Mostrar a mente de uma criança em toda a sua imaginação foi o objetivo de Miyazaki em Ponyo. E o fato de ter feito a animação de maneira tradicional ajudou a realçar o trabalho de Toshio Suzuki. A recepção de Ponyo no Japão foi magnífica. Uma das melhores bilheterias do studio Ghibli e de uma animação japonesa no mercado doméstico. A versão em inglês de Ponyo foi distribuída pela Disney e contou com a dublagem de atores bem conhecidos do público como Cate Blanchet, Matt Damon e Tina Fey.

Eu preciso usar um parágrafo para falar sobre a trilha sonora. A cada nova animação, Joe Hisaishi consegue ficar ainda melhor. Ponyo tem uma trilha sonora linda e que se encaixa muito bem com as cenas da animação. A música que toca quando Ponyo segue o carro de Lisa e Sosuke correndo por cima dos peixes mostra todo o drama daquele momento (parece até uma cena de perseguição típica de filmes de ação). Ou quando a cena exige algo mais bucólico como quando Sosuke e Ponyo estão navegando no pequeno navio em direção à casa de idosos. Hisaishi consegue complementar muito bem o que Miyazaki tenta passar nas cenas. A tal ponto que eu não consigo imaginar a animação sem a música e vice-versa.

Um dos elementos de enredo usados por Miyazaki é o realismo mágico. Se em outros filmes, o diretor brincou com uma relação com este subgênero, aqui fica bem claro que nós podemos inseri-lo nele apesar de Miyazaki não ser (obviamente) um autor latino-americano. Mas é clara aqui, mesmo sendo uma animação mais voltada para o público infantil, a centelha da obra de um Jorge Luis Borges e de um Gabriel Garcia Márquez. A magia é tratada com muita naturalidade por personagens que vivem em um mundo real. Quando Lisa descobre que Ponyo era o peixinho dourado de Sosuke, ela simplesmente dá de ombros e prepara um chá. Depois ao sair de casa, ela comenta com Sosuke que ela está percebendo a presença de forças que ela não sabe explicar. Mas, a personagem demonstra muito respeito e compreensão pelas forças mágicas que cercam Ponyo. Eu evitei em outras obras mencionar o realismo mágico porque a trajetória de Miyazaki não incluía relações com esse tipo de histórias e é muito complicado situar alguém fora do universo literário latino-americano nesta seara. Mas, é impossível não colocá-lo aqui.

Diferentemente de "A Pequena Sereia", Ponyo não trata do amor de um homem por uma mulher, mas de um amor fraterno. Um amor entre irmão e irmã. A história mostra o total desprendimento de Sosuke. O menino demonstra seu amor pelos mais velhos que habitam a Girassol. E seu amor é recompensado pelo amor demonstrado por Ponyo. Chega a tal ponto que Ponyo faz o que ela pode para conseguir ficar ao lado de Sosuke e de Liza. Essa mensagem passada pela história é fantástica; não temos aqui a melhor adaptação do conto de fadas de Hans Christian Andersen, mas Miyazaki certamente pegou a essência do que o autor quis dizer.

Alguns outros temas são abordados ao longo da animação, mas Miyazaki acaba não dedicando a devida atenção a ele. Por exemplo, Fujimoto parece não gostar da humanidade porque esta estaria jogando muito lixo nos mares. Possivelmente este seria o motivo pelo qual o cientista sentiria tanto rancor da raça humana. Mas, ficou por isso mesmo. Ou não é trabalhado como Fujimoto e Gran Mamare se conheceram. Apenas que ela é uma deusa do mar que vem quando o cientista chama por ela. Mesmo com muitos furos no roteiro, Miyazaki consegue passar uma história bonita e interessante.

Ponyo é uma animação até subestimada no Brasil (vi poucos falando a respeito) e que é um dos trabalhos mais bonitos do estúdio. Com uma trilha sonora que beira à perfeição e cenários lindamente desenhados, Ponyo pode ser recomendado para todas as idades. Graças a esta animação recuperei o meu entusiasmo em assistir as animações restantes do Ghibli.

Volto na próxima semana!!

Ficha Técnica:


Nome: Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar

Diretor: Hayao Miyazaki

Produtor: Toshio Suzuki

Roteirista: Hayao Miyazaki

Livremente inspirado em A Pequena Sereia organizado por Hans Christian Andersen

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 103 min

Ano de Lançamento: 2008


Tags: #ponyoumaamizadequeveiodomar #hayaomiyazaki #toshiosuzuki #ponyo #sereia #uniao #povos #mar #meioambiente #natureza #humanidade #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.