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A biografia de um ícone do terror e do thrash nacional: José Mojica Marins, o Zé do Caixão.




Esta é uma resenha especial e diferente por uma série de razões. A primeira delas é que este é o primeiro livro recebido pelo blog como fruto de uma de suas parcerias: a DarkSide Books. Quero agradecer publicamente como um dos administradores do blog à editora que apostou no nosso humilde, porém criativo trabalho. Mas, isso não significa que eu vou pegar leve nas resenhas!! Porém, é dark love eterno.

O segundo motivo é que eu recebi a biografia de um dos meus ídolos de infância. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, fez parte das minhas tardes e noites de adolescente rebelde quando via seus filmes escondido de minha mãe de madrugada. Ele tinha um programa no canal CNT que passava à meia-noite de sexta-feira. Foi aí que eu fiquei fascinado pelo personagem. Então certamente um pouco dessa minha nostalgia de adolescente vai passar na minha resenha. Queria eu poder ser um pouco mais imparcial, mas as lembranças voltam à mente de momentos bacanas de quando comentava com meus colegas sobre o filme assustador visto na última sexta-feira.

Vou dividir esta resenha em 3 partes: na primeira, vou analisar a edição, na segunda, a biografia e na terceira, vou tecer alguns comentários sobre a minha leitura sobre a figura de José Mojica Marins.


1 - A Edição


É impossível falar desse livro sem comentar sobre a belíssima edição da DarkSide Books. Como já se tornou padrão da editora, eles utilizaram uma capa dura e o interior bem estilizado. As edições do livro vem com um pequeno marcador de página no formato de um caixão. Um pequeno mimo nesta edição fantástica. A edição foi bem feita com muitas imagens do acervo pessoal e de pesquisa dos autores. Esta é a segunda edição de Maldito, sendo que a primeira foi publicada em 1998 pela Editora 34. Esta nova edição parece que recebeu uma nova revisão. Abaixo seguem algumas fotos tiradas da minha edição do livro:




É preciso aplaudir o trabalho da editora, mesmo que todo este trabalho tenha encarecido um pouco o valor final do livro. Acredito que tal vale a pena até porque é um trabalho de fôlego e sobre cinema, o que exige bastante que os aspectos visuais sejam chamativos e façam parte fundamental da obra. Ao final do livro, temos uma extensa e acurada filmografia cobrindo desde os primeiros passos de Mojica até os filmes não terminados e curtas.

A edição da editora está de parabéns.


2 - A Biografia


Já vou logo avisando aos navegantes: a obra não é para qualquer um. Digo isto porque Maldito é uma obra voltada para os fãs do personagem Zé do Caixão, para os cinéfilos ou para aqueles que gostam de uma biografia. A DarkSide se tornou uma editora que investe bastante neste tipo de obra como é o caso de De Volta Para o Futuro: Os Bastidores da Trilogia e Evil Dead. Não é um romance ou uma obra de ficção; é o relato da trajetória de vida de José Mojica Marins. E se formos analisar a obra pelo que ela é, ou seja, uma biografia, os autores foram bem meticulosos em sua pesquisa. Pesquisando um pouco na internet, podemos perceber que André Barcinski tem experiência em biografias sobre músicos e outras figuras ligadas à cultura audiovisual. Outros trabalhos do autor incluem Pavões Misteriosos que tratou da cena do rock brasileiro na década de 1970 e uma biografia sobre o Sepultura. Maldito não é o seu primeiro trabalho e a forma como o autor tratou os dados que ele possuía sobre José Mojica demonstram a experiência no trato com fontes históricas.

Um medo que eu tive ao pegar Maldito pela primeira vez é de que o autor fosse muito parcial com o biografado. Alguns biógrafos acabam despertando sentimentos fortes com o objeto de sua pesquisa: uns amam seus biografados e outros os repudiam. Barcinski manteve um certo distanciamento, apresentando as virtudes e os defeitos da pessoa. Em alguns momentos o autor critica determinadas decisões tomadas pelo personagem, mas isso é natural vide o absurdo que foi a vida de Mojica.

O texto é muito bom e salvo as primeiras cinquenta páginas que são um pouco arrastadas, o resto do livro foi muito fácil de ser lido. A gente não consegue ver um excesso de eruditismo, ou seja, não tem palavras difíceis emboladas no texto. Tudo é apresentado de forma clara e objetiva. A apresentação e o capítulo final são assinadas por Ivan Finotti. Na apresentação, ele destaca a importância de José Mojica Marins para o cenário nacional. Vou tocar nesse assunto mais abaixo. Queria destacar o capítulo final onde Finotti conta o seu encontro com a pessoa durante uma feira de horror nos EUA. Este tipo de relato é sempre muito interessante porque a gente acaba conhecendo minúcias do personagem que não são tão óbvias para aqueles que não tenham conversado com ele.

Gostei muito também do trabalho contextual feito por Barcinski. Isso dá um pouco de gordura ao texto, mas nos ajuda a entender, por exemplo, a relação dos cineastas da Boca do Lixo com a Embrafilmes. Eu já estudei sobre cinema neste período, e este livro me ajudou com novos dados de época. Para aqueles que pesquisam sobre o tema, a obra tem muito valor histórico.

A edição da DarkSide também contribui muito para o dinamismo da obra. Muitas imagens recheiam a edição de Maldito. Estas imagens são uma forma de atiçar nossa atenção e fazer com que queiramos ver outras imagens e assim o texto flui muito bem. Os capítulos não são muito grandes e tudo é muito orgânico. A biografia acaba sendo composta por texto e imagem; ambas são complementares para o entendimento do todo.


3 - O Personagem


Aqui eu vou comentar um pouco sobre José Mojica Marins. Após ler a biografia fiquei com aquela vontade de comentar um pouco sobre o cinema nacional. Nós temos várias figuras extremamente criativas aqui no Brasil e Mojica é uma delas. Me entristece muito saber que nós, brasileiros, acabamos não dando o devido valor a eles. Mojica foi muito prejudicado pela ditadura no Brasil e depois pela Embrafilmes assim como muitos outros diretores. Mas, mesmo que assim não o fosse, poucos de nós conhecemos a figura de Mojica como cineasta de vanguarda. Apenas conhecemos Zé do Caixão como um canastrão, um mambembe. Alguém que não pode ser capaz de produzir algo inovador. Quem for capaz de ver as obras-primas de Zé do Caixão como À Meia-Noite Encarnarei no Teu Cadáver verão como um cineasta, mesmo com poucas recursos, é capaz de produzir um produto que vale a pena ser assistido.

Em um contexto de filmes como O Exorcista e O Iluminado, Mojica poderia ter sido uma lenda no Brasil. Mas, como todo o gênio, Mojica era muito excêntrico. É decepcionante pensar que damos mais valor ao que vem de fora do que o que é produzido em território nacional. O brasileiro tende a ver o cinema nacional como algo estranho e tolo. Muitos tem preconceito e evitam ir ao cinema assistir um. Filmes como Cabra Cega e Bicho de Sete Cabeças recebem vários elogios fora do Brasil e aqui são considerados como um produto de segunda linha. Para aqueles que se aventurarem pelas páginas de Maldito verão que o mesmo aconteceu com Mojica: ele foi descoberto pelos fãs de filmes underground nos EUA e é reverenciado como um artista do cinema trash.

Falemos o que quiser do homem José Mojica, mas seu talento como cineasta é inegável. Em Maldito veremos muito de como ele precisou pegar atalhos para conseguir um modicum de sucesso. Imaginar que ele sequer fez um curso de cinema é perceber a genialidade do homem. Claro que os filmes do Cinema Novo de Glauber Rocha foram importantes para a composição da história do cinema nacional, mas a filmografia de José Mojica também contribuiu para formar toda uma geração de diretores. E, através de sua escola de cinema, sabe-se lá quantos outros ele influenciam.

Vamos reverenciar em vida a obra de Zé do Caixão. Dar a ele nosso respeito e o valor devido. Porque elogiar após a morte é triste. É apenas se lembrar daqueles que já foram. Mojica vai completar 80 anos e que melhor maneira de comemorar este aniversário do que em uma leitura envolvente sobre a vida e obra deste personagem.

E, se vocês não lerem, que suas almas sejam perseguidas pelos cães do inferno quando o relógio badalar à meia-noite.



Ficha Técnica:


Nome: Zé do Caixão - Maldito: A Biografia

Autores: André Barcinski e Ivan Finotti

Editora: DarkSide Books

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 666

Ano de Publicação: 2015


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  • Paulo Vinicius

Com 27 anos, Taeko vai visitar sua família que mora na cidade de Atami. Um descanso de sua agitada vida na cidade. Esta viagem vai representar uma volta aos momentos simples de sua infância e despertar alguns sentimentos que estavam lá no fundo de seu coração.

Sinopse:


Taeko é uma mulher solteira que se dedica apenas ao trabalho. Ela sai de sua nativa Tóquio pela primeira vez e viaja a Yamagata para visitar a família da irmã durante a colheita anual de açafrão-bastardo. Ao longo da viagem, ela começa a questionar se sua vida estressante é o que desejava quando jovem.




Existem programas, filmes ou músicas na vida que marcam pontos de nossa existência. Conseguem tocar nossos corações de uma tal forma que a gente não consegue entender porque fomos capazes de viver sem nunca termos nos deparado com aquilo. Essa foi a minha reação com Only Yesterday. A animação ecoou de tal forma que eu me senti completo após ter visto aquelas duas horas de filme.

Bem, Only Yesterday é mais uma das animações do Studio Ghibli que não foram dirigidas por Hayao Miyazaki, e sim por Isao Takahata, o eterno companheiro de Miyazaki. Takahata juntamente com Miyazaki foram responsáveis diretos pela criação do estúdio. Only Yesterday é outra das animações que não fizeram tanto sucesso quanto animações clássicas do estúdio. Assim como a animação que comentamos na semana passada, ele é incluído em boxes de coletâneas do estúdio. Curiosamente Only Yesterday foi uma das animações mais lucrativas do Ghibli em território japonês. Até hoje é o único do Ghibli que não chegou corretamente no mercado norte-americano. Entretanto, achei o enredo um pouco melhor desenvolvido do que As Ondas do Oceano. A recepção no mercado internacional foi diversa, mas como o estúdio ainda lucrava com o sucesso de Porco Rosso, eles se permitiram produzir esta ideia de Takahata.

Taeko Okajima é uma solteirona de 27 anos que está indo visitar alguns conhecidos que vivem na pequena cidade interiorana de Atami, no distrito de Takase em Yamagata. Enquanto ela faz sua viagem, Taeko se recorda de seus tempos de quinta série quando ela era uma menina mimada e sentia inveja de suas colegas que podiam passar as férias em suas casas de campo enquanto ela permanecia em casa. Vemos diversos momentos da infância de Taeko como sua experiência no teatro da escola, o menino que se apaixona por ela e é um jogador de beisebol e até a rivalidade com sua irmã Yaeko. Only Yesterday é mais um slice of life, ou seja, uma animação sobre a vida cotidiana, tema típico de desenhos japoneses.

A animação é ousada, porém não muito bonita. Digo ousada por algumas razões. Uma delas é que Takahata gravou os diálogos junto com a animação produzindo um efeito mais realista no rosto dos personagens. Normalmente a gravação dos diálogos é feita após a animação ter sido feita, dando um aspecto meio artificial aos personagens. Por exemplo, o rosto da Taeko mais velha é repleto de covinhas e expressões assim como as do Toshio. Isso faz com que os personagens sejam mais realistas. A outra razão é que Takahata escreveu Only Yesterday como um mangá seriado. Ele teve que fazer um intenso trabalho de edição para que o mangá coubesse dentro das 120 horas que ele planejava.

A trilha sonora não é nada espetacular, mas vale mencionar pela curiosidade. Takahata emprega uma trilha sonora húngara para compor as cenas que se passam em Atami. Um dos personagens, Toshio, diz que é porque ele acha que a música compõe bem o clima do interior. Isso é o que o próprio Takahata achava. O cenário em si também é muito bacana. Não é um primor como em outras obras do estúdio, parecendo simples quando se passam na escola ou na casa da família de Taeko. O que eu destaco são as cenas amplas do interior. Estas são são belíssimas. E servem para ilustrar bem o raciocínio do diretor. Ele queria mostrar a vida dos fazendeiros japoneses, mostrando como eles são capazes de interferir com a natureza. Na minha opinião ele conseguiu isso com sucesso.

O tema principal da animação é a relação do homem com a natureza. Only Yesterday é uma ode em defesa à vida frugal do campo. Vemos que a protagonista está perdida porque sente que não se encaixa na vida movimentada da cidade. As pessoas estão afastadas de um convívio íntimo e vivem em seus pequenos apartamentos tocando a vida. Takahata claramente faz uma crítica ao universo urbano capitalista. Quando Taeko vai ao campo, ela se reencontra consigo mesma, com traumas de sua infância. O contato com as pessoas do campo faz com que ela se sinta acolhida. A vida simples é difícil porém recompensadora no sentido de que Taeko se sente parte de alguma coisa. É nesta vida simples que ela finalmente encontra o amor.

Takahata discute até mesmo os benefícios da agricultura orgânica para o homem. Toshio serve como se fosse a imagem do diretor na animação. O seu pensamento simplista acaba tendo como objetivo expor as ideias de Takahata. Ele acredita que os fazendeiros são uma espécie em extinção por causa da ocupação das cidades. Lembremos que o Japão é um arquipélago e mais de 90% dele é ocupado por cidades. Algumas produtos tradicionais como o arroz e o cártamo são prejudicados pela especulação imobiliária que deseja construir grandes arranha-céus. A vida destas pessoas se torna difícil porque o seu ganha-pão já não garantido quando eles se veem sendo assediados por consórcios imobiliários. As novas gerações não entendem a necessidade deste tipo de trabalho porque vivem em um universo midiático cercado por audio e video por todos os lados. A vida simples do campo não é atrativa para eles.

Alguma reflexões de Toshio são fascinantes. Ele mostra uma cena ampliada do campo para Taeko e pergunta a ela o que foi feito pela natureza. A personagem, assim como nós mesmos, apontaríamos para uma floresta ou um pequeno riacho. E o personagem responde: "somente o topo das montanhas". O rio que Taeko aponta foi feito pelo homem para irrigar os campos de arroz. Já a floresta teve sua madeira cortada e podada para construir as casas dos fazendeiros. É um tipo de raciocínio simples porém difícil de ser feito com perfeição. Isso porque a gente imagina que tudo no interior foi feito pela natureza.

Admito que as cenas da escola foram as menos interessantes para mim. Claro que algumas foram, no mínimo, inusitadas. Quando Taeko se encontra com o jogador de beisebol depois da escola e eles trocam palavras bonitinhas, Taeko se sente nas nuvens e aparece uma ceninha dela mergulhando em um céu de arco-íris. Ou Takahata fazendo uma homenagem aos desenhos japoneses antigos com Taeko vendo televisão.

No mais, as cenas na escola servem mais para fazer um contraponto à Taeko adulta já com mais experiência. Pelo menos eu aprendi um novo corte de abacaxi com Nanako, irmã mais velha de Taeko. O que eu achei importante também foi que Takahata mostrou um pouco do seio de uma família simples japonesa. A mãe de Taeko é muito submissa e serve ao pai que permanece sempre sendo uma pessoa sisuda e carrancuda. As cenas do jantar são bem artificiais, ilustrando que o homem da casa precisa ser honrado pelo resto da família e ele é a palavra final em todos os assuntos. Não vejo aqui uma violência aparente, mas uma violência simbólica. As mulheres da casa são todas retraídas porque precisam ser reverentes ao alfa da casa. O trecho em que Taeko é convidada para integrar uma peça de teatro na universidade é bem ilustrativa. O pai não permite que a filha vá porque ele acredita que isso não é coisa de mulheres decentes. A cultura familiar japonesa é bem diferente da nossa que possui um ar mais liberal.

Only Yesterday é uma animação que vale a pena ser assistida por toda esta discussão entre urbano e rural. Em um mundo onde cada vez temos menos contato com a natureza precisamos refletir qual o papel do homem nessa sociedade pós-moderna. E como esquecemos vários valores importantes como a frugalidade e a simplicidade. Mesmo eu sendo suspeito para comentar digo que a animação valeu a pena ser assistida.

Na próxima semana vamos falar de animais falantes, não? Estamos todos com saudades das animações malucas de Miyazaki. Hora de Pom Poko.

Ficha Técnica:


Nome: Only Yesterday

Diretor: Isao Takahata

Produtor: Toshio Suzuki

Roteirista: Isao Takahata

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 118 min

Ano de Lançamento: 1991


Tags: #onlyyesterday #isaotakahata #toshiosuzuki #taeko #atame #vidasimples #natureza #campo #cidade #rural #infancia #amizade #ficcoeshumanas






Um estranho circo chega na cidade. Seu gerente, um Homem Tatuado, possui muitos mistérios circundando-o. As travessuras de Jim Nightshade e William Halloway acabam levando-os a um obscuro mundo de trevas e escuridão.




Sinopse: Algo Sinistro Vem por Aí (título emprestado de uma passagem de Macbeth. de Shakespeare) é uma das obras mais luminosas (ou trevosas. dá no mesmo neste caso) do autor. Num misto de memória e – muita – imaginação. Bradbury cria um parque de diversões que chega a uma cidadezinha do meio-oeste norte-americano. no qual alguns freqüentadores são escolhidos e subjugados por seus sonhos de vaidade. pesadelos de traumas. vertigem de curiosidade. Tais escolhidos. uma vez em contato com as suas atrações (sobretudo o Labirinto de Espelhos. com seu cenário de gélidos seres emparedados. e o Carrossel. com suas voltas vertiginosas ao som da “Marcha Fúnebre”. de Beethoven). sofrem transformações fantásticas. mutações de idade. seja para a infância. seja para a velhice. mas cuja consciência permanece a mesma da idade original: a do início da sua primeira volta para a frente ou para trás.



Falar de algo escrito por Ray Bradbury é muito difícil. Sua escrita não segue padrões específicos do gênero de ficção científica. Em muitas de suas obras ele usa um estilo experimental como em Crônicas Marcianas onde não existe uma história central, mas temas que cercam a exploração do planeta vermelho. Algo Sinistro Vem Por Aí não é diferente desta máxima. Portanto, pretendo percorrer os temas de forma superficial até para não realizar uma resenha longa demais.

Creio que o tema central seja a eterna luta entre o bem e o mal. A história se passa em uma pequena cidade situada em Illinois, Green Town. Nesta cidade, Jim Nightshade e William Halloway fazem suas travessuras costumeiras: correr pela cidade, espiar as estranhas moças do Teatro e fazer a frequente visita ao pai de Will, Charles Halloway, o zelador da biblioteca. Era o mês de outubro e um estranho e nefasto circo chega na cidade. Com atrações como o Labirinto de Espelhos que revela milhares de imagens assustadoras das pessoas ou o carrossel amaldiçoado capaz de avançar ou retornar no tempo, alterando a idade da pessoa. Muitas aberrações habitam o arco como o Anão, o Esqueleto, o Senhor Elétrico, a Bruxa do Pó e a Cigana do Tarô. Nenhuma delas é mais terrível que o dono do circo, o temível Senhor Dark, o Homem Ilustrado.

Os protagonistas se parecem muito com Tom Sawyer e Huckleberry Finn do romance de Charles Dickens. O próprio autor faz essa comparação em uma das passagens do livro. Mas as semelhanças são poucas e prefiro analisá-las à luz do próprio livro. Will é um menino muito contido. Gosta de fazer travessuras, mas prefere fazê-las dentro de seus limites. Já Jim possui uma profunda tristeza interior. Vivendo apenas com a mãe, sabe que o futuro lhe reserva muitas responsabilidades. Mas, ele quer que seu futuro chegue logo para poder ajudar sua mãe. Embora Will e Jim sejam parecidos serão suas visões de mundo diferentes que colocará amizade de ambos em xeque.




Apesar de não serem parentes, podemos comparar Jim e Charles, pai de Will. Enquanto Jim deseja se tornar mais velho o quanto antes, Charles deseja se tornar mais novo. Mesmo Will e Charles tendo uma vida pacata e uma família feliz, Charles não se sente completamente realizado. A diferença da idade de Charles e da mãe de Will revela isso. Charles queria correr ao lado do filho, poder viver aventuras. Tendo a mesma personalidade pacata de Will, a comparação com o estilo atirado de Jim é visível. Ser capaz de ficar mais jovem seria uma segunda chance para Charles alcançar aquilo que ele não foi capaz.

Bradbury brinca com a temática dos desejos mais profundos do homem. O parque oferece aquilo que as pessoas mais querem mas não dá nada. Os desejos funcionam como uma isca para que as pessoas caiam na armadilha do Senhor Dark. Após atender ao desejo da pessoa, ela é transformada em uma das aberrações do circo no momento em que percebe que o desejo não a atendeu do jeito que ela gostaria.

O arrependimento está muito presente na trama do livro. É o arrependimento por não ser capaz de fazer algo ou por não ter escolhido determinado caminho o que atrai as pessoas ao circo. Assim é o desejo de Jim que se arrepende de não ser mais velho, mais forte e mais capaz; com o pai de Will que se arrepende de não ter vivido uma vida aventuresca e arriscada. Mas também é o problema da Senhorita Foley, a velha professora dos meninos. Seu arrependimento é tão grande que ela não resiste à tentação do carrossel amaldiçoado.

Outros temas poderiam ser retirados desta história. Ricas referências, citações a obras célebres, tudo isto presente em uma obra divertida e envolvente que nos faz refletir sobre o que significa o tempo e sua passagem para cada um de nós. E em como cada escolha que fazemos é importante, não podendo nos arrepender do que nunca ocorreu. Afinal, carpe diem!!!




Ficha Técnica:


Nome: Algo Sinistro Vem Por Aí

Autor: Ray Bradbury

Editora: Bertrand Brasil

Gênero: Fantasia/Terror

Número de Páginas: 294

Ano de Publicação: 2006


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