Buscar

Aos que Habitam a Escuridão é uma coletânea de contos publicados ao longo da carreira de César Alcazar, agora reunidos em um só livro.



Sinopse:


Dos recantos mais sombrios da Terra e além, surgem 12 histórias macabras e alucinantes. Um garoto confronta uma presença maligna dentro de sua própria casa durante a ditadura argentina. Uma astronauta se perde entre sonho e realidade em um satélite de Marte. Uma criatura sedenta de sangue aterroriza a Porto Alegre de 1911..."Aos que Habitam a Escuridão e Outras Histórias" reúne todos os contos de Horror e Ficção Científica publicados por Cesar Alcázar entre 2009 e 2015.





Contos são narrativas breves e cabem em muitas possibilidades de publicação, seja numa seleção para conhecer novos autores ou prestigiar os já conhecidos, em coletâneas elaboradas pelo próprio autor de forma a convidar colegas com ideias semelhantes, ou mesmo render postagens de blog. A desvantagem pode ser de o trabalho do autor ficar espalhado em todos esses lugares, onde os leitores perdem algo pela falta de oportunidade de encontrar essas coletâneas ou entre as publicações soltas em sites. Por outro lado essa dificuldade por vezes é momentânea, afinal há possibilidades iguais a esta coletânea contendo os contos escritos pelo autor ao longo da carreira. Aos que Habitam a Escuridão contém várias narrativas curtas de César Alcazar, publicado pela editora AVEC em 2020, todas avaliadas a seguir.


"Segredos"


Avaliação:





O título é bem claro quanto ao assunto do conto, pois o narrador conta sobre os segredos da família no sótão da mansão. Fala sobre os pormenores da vida aos poucos, desde a condição financeira da família ao nível de relacionamento dele com as pessoas ao redor, tudo encaixado na narrativa, deixando a leitura fluir enquanto desenvolve o mistério. De narrativa em primeira pessoa, o personagem provoca o mistério ao longo dos parágrafos, deixando claro que o segredo virá à tona apenas no fim do relato, depois de tudo o que for relevante ter sido dito, e ainda assim surpreender no fim. Só precisaria aparar adjetivos irrelevantes nas descrições a fim de melhorar o ritmo do texto.

“A mordaça psicológica que me calava desapareceu enfim.”

"O Barqueiro"


Avaliação:





Miniconto sobre o responsável por levar pessoas de barco ao outro lado da margem. A referência a este tipo de barqueiro vem implícita, sem nunca revelar, e assim se mescla ao cotidiano, à realidade deste sujeito vivendo pela obrigação do trabalho.

“Era o barqueiro no rio do infortúnio.”

"A Música do Quarto ao Lado"


Avaliação:





O protagonista é um músico de jazz vivendo em uma hospedagem, seguindo a vida simples e cheia de vícios, igual a dos músicos em quem aspirou. Também queria seguir a vida longe do passado, embora este sempre retorne em forma de tentáculos. O narrador em terceira pessoa acompanha de perto as preferências musicais do protagonista, usando isso ao progredir com a cena até deixar a questão em aberto. Os diálogos deixam a desejar, as falas levam direto no seguimento do conto, perdendo a verossimilhança.

“Uns consideravam isso autodestruição. Ele chamava de aprendizado.”

"Aos que Habitam a Escuridão"


Avaliação:





O protagonista é atacado pela paralisia do sono, quando vê imagens nunca antes vistas por ele, e mesmo assim conhecidas, sendo elas da biblioteca próxima de onde mora. Ele irá atém a biblioteca de um jeito ou outro, então verá as consequências desta curiosidade. Este conto mistura as referências positivistas ao famoso culto na ficção do horror cósmico, em que o protagonista é tragado na ambição central dos envolvidos, alheios a ele. A narrativa lembra o ritmo de H. P. Lovecraft, com o personagem relatando as descobertas de forma consecutiva, embora a prosa seja mais assertiva comparada a do autor inspirado, até os adjetivos deixam de incomodar neste texto. O personagem também deixa de ser passivo ao culto alheio, e reage ao que vislumbra.

“Os grandes antigos nunca abandonam este mundo para sempre.”


"Pandora"


Avaliação:






Dividido em quatro partes, cada uma protagonizada por alguém envolvido no roubo do museu: o vigia noturno, a capitã responsável pela investigação, o ladrão e a cliente; desta vez todos nominados no conto — Roger, Harris, Vincente e Devon. O conto foca nas consequências do roubo, e como nos demais textos, há manifestação sobrenatural, e tragédia. As quatro partes são curtas, mal apresentando o personagem e o descartando para prosseguir a história na perspectiva do próximo, e isso prejudica o impacto na cena final de cada ato, trazendo um resultado sem esclarecer a ambientação.

“E nada pode ser pior do que saber.”

"Na Solidão de Phobos"


Avaliação:





A personagem principal é a única sobrevivente da base instalada no satélite de Phobos, na órbita de Marte. Na esperança de contatar alguém do planeta Terra, a única companhia dela é um gravador de sonhos os quais pode assistir quando quiser. Sonhos do planeta de onde viveu, mais ainda os sonhos com K, quem ela tanto admira. Outra narrativa em primeira pessoa, com descrições nada confiáveis pela protagonista estar confusa acerca de sua própria situação, e esta abordagem torna a história relevante, desafiando tanto o leitor como a personagem quanto ao acontecimento real. Durante a apresentação do mistério, o ideal é focar no estado psicológico da protagonista, este muito bem transcrito durante a narração, e assim será possível aproveitar este conto ao máximo.

“Tempo... Aqui em Phobos é tudo o que eu tenho.”

"O Deus Esquecido na Areia"


Avaliação:





Outro miniconto, este sobre a exploração de um planeta desértico, onde o narrador comenta uma cidade em ruínas visitado por lá. Logo conclui através da reflexão quanto ao que dá o título do conto. O protagonista segue adiante, voltando a esse lugar em lembrança.

“Seus braços abertos parecem abraçar o horizonte vazio, seu olhar fita o infinito.”

"O Filme"


Avaliação:





O cineasta Guerrieri exibiu seu novo filme a ser lançado em sessão fechada a um crítico. O crítico fica transtornado depois de assistir, e permanece assim pelo resto do conto. É outra narrativa a explorar o estado emocional do personagem ao longo da história, esse de bom desenvolvimento, mostrando o suficiente para justificar o desfecho narrado. Apenas informações essenciais chegam em novos parágrafos, mostrando as pessoas envolvidas nesta produção.

“― Tudo o que você viu é real. Se você quiser que seja.”

"Eu Ainda Estou Aqui"


Avaliação:





O mundo está em um apocalipse após uma epidemia de uma doença respiratória, dessas que precisa usar máscara para filtrar o ar e foi até subestimada no começo. Depois os países fecharam aeroportos, isolaram-se na tentativa de conter o perigo. Detalhe a destacar: este conto foi publicado pela primeira vez em 2009. A narrativa é feita em registros epistolares, gravados em voz pelo narrador, sendo o sujeito imune a essa doença. Apesar da ambientação trágica, o narrador busca esperança, esta perdida conforme novos registros do áudio transcrito, e logo procurando outra. Mostra dilemas quanto alguém "viver sem muita companhia" para de fato "viver sem companhia", e esta única palavra a menos nas frases destacadas nas aspas mostra o quanto essa faz falta no decorrer deste conto.

“Não preciso da máscara, mas não consigo andar sem ela.”

"Pela toca do coelho"


Avaliação:






O conto fala sobre um assassino preso há tempos. Sujeito de identidade inexistente, é reconhecido apenas pela tatuagem de palhaço triste em todo o rosto. Ele segue a vida com receio do assassino, apesar deste estar em um asilo psiquiátrico, pior ainda quando descobre que o doutor responsável pelo lugar proporciona encenações por meio dos pacientes. Ele vai na apresentação sobre Alice no País das Maravilhas, sendo o assassino da tatuagem de palhaço um dos atores. O narrador divide o protagonismo com o assassino, afinal por mais que ele participe da história, tudo ocorre por causa do personagem de rosto tatuado. Deste jeito mostra o transtorno causado por alguém capaz de ser só mais outra ameaça da segurança pública, mas este vai além, superando o preparo emocional estabelecido por profissionais como o narrador. O silêncio também é parte da característica do assassino, esta aproveitada no enredo para conduzir o momento pontual. Mesmo ao tornar uma determinada cena previsível, ela apavora, típico do caso inevitável, e mesmo assim surpreende graças a coordenação da cena.

“Corrijo: nem sempre ele ficava calado, às vezes ele ria.”


"O Relato do Capitão Blackburn"


Avaliação:






É a narrativa do caso policial sob a responsabilidade do investigador Constantino. Profissional experiente, poderia já ter visto de tudo na carreira, exceto este caso, que a incompreensão da perícia levou a população local a imaginar situações sobrenaturais, a ponto de chamar a atenção até de um médico a contar a Constantino o relato registrado pelo capitão Blackburn, quem também descreveu uma situação peculiar na Inglaterra capaz de corresponder a este caso no sul do Brasil. O narrador é alguém que compilou os registros envolvendo o caso particular de Constantino, só então elaborando esta história. Ele desenvolve uma ambientação comum de histórias policiais, utilizando inclusive certos clichês, tudo feito no intuito de montar a verdadeira natureza do caso, este revelado de vez a partir do relato correspondente ao título do conto. De conto policial, evolui a aspectos sobrenaturais e de terror, ainda baseado em relatos ou presumidos pelo narrador pela falta do registro, ou quando o registro apenas deixa a impressão de haver algo além do natural.

“O inspetor era um homem com certo apreço às letras.”

"A Última Viagem de Lemora"


Avaliação:





É a história contada pelo próprio Capitão Blackburn, o mesmo do conto anterior. Primeiro apresenta a carreira de navegação pelos mares de toda a Terra, o episódio de quando obteve o navio Lemora o qual sofrerá os eventos contados na sequência ao participar da Primeira Guerra Mundial, não que o horror bélico em si fosse o suficiente, Blackburn revela o inacreditável nesta aventura. Com as histórias curtas e de impacto imediato sendo a maioria desta antologia, este conto e o anterior demonstram a capacidade do autor em conduzir narrativas mais longas. Elencam as cenas conforme a progressão da tensão, desde o acontecimento ao princípio ordinário antes de o retomar e revelar o quanto aquilo já fazia parte do aspecto sobrenatural ou da construção emocional do personagem. O conto demonstra o quanto a criatura fantástica por si só representaria pouco, caso faltasse o cuidado do autor com o protagonista fadado a confrontar o irreal, afinal por meio deste personagem é possível mostrar ao leitor o quanto o ocorrido é verossímil.

“Um capitão deve ter todas as respostas, mesmo quando não as tem.”

Considerações Finais


Aos que Habitam a Escuridão demonstra o trabalho do autor em misturar aspectos sobrenaturais a vidas ordinárias dos personagens, por ora confundindo a veracidade até para o narrador da história, e assim oferecendo algo de interessante, uma escrita ousada a conseguir mais além de frases encadeando as próximas ações. Apresenta protagonistas sem nomes e com muito a contar, reforçando possibilidades de acontecer algo irreal a qualquer pessoa. A crítica no geral permeia na falta de polimento do texto, principalmente em adjetivos passíveis de descarte sem comprometer o andamento da história.












Ficha Técnica:


Nome: Aos que Habitam a Escuridão e Outras Histórias

Autor: Cesar Alcázar

Editora: Avec Editora

Número de Páginas: não informado

Ano de Publicação: 2020


Link de compra:

https://amzn.to/3gQiPRw


Livro cedido em parceria com a Avec Editora











  • Paulo Vinicius

Atualizado: há 4 dias

O evento que vai acontecer entre os dias 17 e 20 de setembro vai contar com uma série de atrações de vários países. Na nossa matéria vamos falar a respeito do evento e de cada um dos painéis.



Nos próximos dias 17 até 20 de setembro será realizado o primeiro evento virtual que reunirá autores, editores e pessoas ligadas ao mercado editorial de mais de 18 países. O evento recebeu o nome de Futurecon SF 2020 e a ideia é celebrar a diversidade da ficção científica ao redor do planeta. Em meio a uma pandemia a ideia de realizar palestras online facilitou o contato com pessoas que tinham dificuldade para ir a alguns eventos. Possivelmente eventos como a FutureCon SF sejam o futuro, para assim evitar grandes aglomerações. Obviamente que a experiência do contato ao vivo com aqueles a quem gostamos não pode ser substituída, mas considero a oportunidade dos eventos online uma experiência mais democrática. As discussões ficam salvas na nuvem e podem ser visualizadas mesmo por aqueles que não puderam comparecer no dia, gerando um registro histórico de um acontecimento que pode vir a gerar discussões futuras.


A ideia é que o evento seja anual e que ele gere um grupo de discussões global visando criar uma interconectividade entre representantes de diversos países. Somente assim poderemos fazer a ficção científica dar um passo adiante. Na primeira edição as discussões vão se centrar bastante no futuro da escrita de ficção científica em diversos países (em como a tradição scifi vem sendo regionalizada), no Solarpunk, na Descolonização do gênero, em como norte-americanos e britânicos perceberam as possibilidades da ficção científica traduzida e da ascensão do Big Data e das Inteligências Artificiais.


O evento terá quatro painéis todos os dias, de quinta até domingo. No fuso horário brasileiro, os horários serão às 09:00, 12:00, 16:00 e 19:00.


ATENÇÃO: Todas as palestras serão ministradas em inglês. A princípio, não haverá legendas, mas elas provavelmente será disponibilizadas posteriormente. Não haverá tradução simultânea. Essa foi uma medida de forma a integrar ao máximo os participantes levando em conta que o inglês é uma língua necessária para a entrada no mercado internacional. Só para vocês ficarem tranquilos: os participantes da mesa sobre ficção científica chinesa falam inglês numa boa. Podem ir tranquilos porque eu assisti uma palestra da Xia Jia e ela é super fluente. Usei essa mesa só para dar um exemplo de que todos os participantes estão cientes da necessidade do uso do inglês como língua corrente.


Seguem as informações dos painéis com os respectivos participantes:


Quinta-Feira (17/09):


1 - O Futuro do Sul e do Leste da Ásia: Como o futuro está tomando forma na Índia, no Paquistão e nas Filipinas?


Horário: 09:00

Mediador: Victor Fernando R. Ocampo (Cingapura/Filipinas)

Participantes: Anil Menon (Índia)

Indrapamit Das (Índia)

Lavanya Lakshminarayan (Índia)

Usman Malik (Paquistão)




2 - Ficção Científica Traduzida: Um Tesouro Escondido para inovar o gênero


Horário: 12:00

Mediadora: Rachel Cordasco (EUA)

Participantes: Cheryl Morgan (País de Gales - GB)

Cristina Macía (Espanha)

Emily Jin (China)

Raul Ciannella (Itália)



3 - O Futuro do Leste Europeu: Superando as barreiras na Croácia, na República Tcheca, na Grécia e na Rússia


Horário: 16:00

Mediador: Andrey Malyshkin (Rússia)

Participantes: Aleksandr Ziljak (Croácia)

Natalia Theodoridou (Grécia)

Julie Novakova (República Tcheca)



4 - O Futuro da América Latina: Redescobrindo uma tradição de ficção científica na Argentina, no Chile e no México?


Horário: 19:00

Mediador: Gustavo Bondoni (Argentina)

Participantes: Gabriela Damián Miravete (México)

Paula Andrade (México)

Rodrigo Juri (Chile)



Sexta-Feira (18/09):



5 - A Insustentável Leveza da Inteligência Artificial e do Big Data


Horário: 09:00

Mediador: Fábio Fernandes (Brasil)

Participantes: Chen Qiufan (China)

Malka Older (EUA)

Yudhanjaya Wijeratne (Sri Lanka)



6 - Solarpunk: Novas sementes para as cinzas do cyberpunk


Horário: 12:00

Mediadora: Ana Rusche (Brasil)

Participantes: Aliette de Bodard (França)

Andrew Hudson (EUA)

Cat Sparks (Austrália)

Fábio Fernandes (Brasil)

Francesco Verso (Itália)



7 - O Futuro do Mediterrâneo: De um glorioso passado para um futuro incerto de França, Itália, Espanha e Turquia


Horário: 16:00

Mediador: Ian Watson (Inglaterra - GB)

Participantes: Francesco Verso (Itália)

Maria Antònia Martí Escayol (Espanha)

Olivier Paquet (França)

Seran Demiral (Turquia)



8 - O Futuro da América do Norte: Os Desafios no Canadá e nos Estados Unidos


Horário: 19:00

Mediador: Claude Lalumière (Canadá)

Participantes: James Patrick Kelly (EUA)

Jean-Louis Trudel (EUA)

Madeline Ashby (Canadá)

Nisi Shawl (EUA)

S.B. Divya (EUA)



Sábado (20/09):



9 - O Futuro do Leste Asiático: Tecno-tradições no Japão e na Coréia


Horário: 09:00

Mediador: Gord Sellar (Canadá/Coréia do Sul)

Participantes: Haruna Ikezawa (Japão)

Jeong Soyeon (Coréia do Sul)

Taiyo Fujii (Japão)

Terrie Hashimoto (Japão)



10 - Global Science Fiction Awards: Uma celebração de diversidade e inclusividade


Horário: 12:00

Participantes: Cat Sparks (Austrália)

Taiyo Fujii (Japão)

Gord Sellar (Coréia do Sul)

Jeong Soyeon (Coréia do Sul)

Fan Zhang (China)

Regina Wang (China)

Usman Malik (Paquistão)

Chinelo Onwualu (Nigéria)

Wole Talabi (Nigéria)

Francesco Verso (Itália)

Olivier Paquet (França)

Cristina Jurado (Espanha)

Duda Falcão (Brasil)

Gabriela Damián Miravete (México)

Libia Brenda (México)



11 - O Futuro da América do Sul: O caldeirão de criatividade no Brasil


Horário: 16:00

Mediadora: Jana Bianchi (Brasil)

Participantes: Cláudia Dugim (Brasil)

Renan Bernardo (Brasil)

Waldson Souza (Brasil)



12 - Mesa-redonda da ficção científica global: Quem são os editores que estão promovendo a inclusividade na ficção científica?


Horário: 19:00

Mediador: Francesco Verso (Itália)

Participantes: Ann Vandermeer (EUA)

Jason Sizemore (EUA)

Rodrigo van Kampen (Brasil)

Sara Chen (China)



Domingo (21/09):



13 - O Futuro da China: O fenômeno em ascensão da ficção científica chinesa


Horário: 09:00

Mediadora: Regina Kanyu Wang (China)

Participantes: Chen Qiufan (China)

Gu Shi (China)

Xia Jia (China)



14 - Antropoceno e Capitaloceno: Ameaças e esperanças para o futuro da humanidade


Horário: 12:00

Mediador: Francesco Verso (Itália)

Participantes: Ann Vandermeer (EUA)

Ian McDonald (Irlanda do Norte - GB)

Kim Stanley Robinson (EUA)



15 - O Futuro da África: Visões da Nigéria e de Uganda


Horário: 16:00

Mediador: Mazi Nwonwu (Nigéria)

Participantes: Chikodili Emelumadu (Nigéria)

Chinelo Onwalu (Nigéria)

Dilman Dila (Uganda)



16 - Descolonizando o futuro: Estratégias e soluções para emergir das sombras de uma ficção científica anglófona


Horário: 19:00

Mediador: Bodhisattva Chattopadhyay (Índia)

Participantes: Chinelo Onwalu (Nigéria)

Libia Brenda (México)

Pepe Rojo (México)

Vandana Singh (Índia)





Nesta matéria veremos por que alguém nunca deve investigar o histórico de um tradutor (ou pode descobrir uma estranha fascinação por mamíferos proboscídeos). E o quanto a vida de freelancer pode ser maravilhosa ou aterrorizante.



Traduzir é pesquisar. OU: espero que a polícia (ou minha mãe) nunca investigue o meu histórico de pesquisa do Google.


Tenho muita admiração por quem veio antes de mim nessa profissão, e uma das principais razões para isso é que fico arrepiada só de imaginar a pedreira que é traduzir sem ter a internet à disposição. Porque como comentei lá no ponto 1, traduzir é encontrar equivalentes linguísticos e culturais — e é virtualmente impossível conhecer de cabeça os equivalentes linguísticos e principalmente os culturais para todas as coisas.


Nunca fiz essa matemática, mas acharia razoável se descobrisse que, em um dia comum de trabalho, o número de usos da minha ferramenta de busca chega perto da casa das centenas. Muito frequentemente procuro o significado de expressões idiomáticas, e nesses casos nem me dou ao trabalho de procurar a tradução direta: vou atrás da explicação na língua de partida (às vezes quero beijar o Urban Dictionary na boca) e só depois pesco a equivalência em português do repertório que eu já tenho aqui dentro da minha cachola (olha aí a importância de dominar a língua de chegada).


Em muitos outros casos, você pode me encontrar em meu habitat natural buscando material para aprender mais sobre um determinado assunto antes de sequer saber como procurar o termo específico do que preciso traduzir. Nessa brincadeira, já passei horas vasculhando materiais sobre hierarquias e patentes das várias forças armadas do mundo, regras de jogos de carta que eu nem sabia que existiam, fisiologia de diversos animais e plantas, funcionamento e nomes de peças de armas e veículos, acidentes geográficos que não têm equivalente direto em português porque mal existem aqui… e coisas indizíveis a essa hora do dia (brincadeira, só estou fazendo um charminho, mas confesso que já simulei um movimento de luta aqui em casa para ver se a tradução das partes do corpo faziam sentido).



E claro, dá-lhe consulta ao dicionário para procurar a tradução direta de muitos termos. Mas, como um bônus desse ponto, vou te contar outra coisinha que eu descobri só depois que comecei a trabalhar com tradução: em vez de investir em um dicionário bilíngue, a melhor coisa que a gente faz é investir em um dicionário de sinônimos ou em um dicionário analógico. Eu preciso frequentemente descobrir outro jeito de falar em português determinada coisa cuja tradução direta não é muito usual do que descobrir o que exatamente significa uma determinada palavra em outra língua. E, com mais frequência ainda, preciso navegar por grupos de termos que não são exatamente sinônimos, mas sim palavras associadas por semelhança, pureza ou convergência. Meu dicionário analógico é meu melhor amigo na hora de criar nomes de criaturas fantásticas sem perder o trocadilho, se você quer saber.


E, agora que comecei a falar sobre essas coisas de dia-a-dia, acho que posso ir para o meu tópico mais prático de todos.

4. É muito raro alguém carimbar “responsável por tradução” na sua carteira de trabalho. OU: a maravilhosa e aterrorizante vida de frila.


Se você sonha em ter um emprego fixo — com carteira assinada com direito a todos os benefícios e a oportunidade de usar roupa social, ter um cartão corporativo para gastar no happy hour com o povo da firma e andar com um crachá bacanudo por aí —, entrar no mercado de tradução talvez não seja a melhor ideia. No mercado de tradução literária, então, nem se fale.


Aqui no Brasil (pelo menos nos dias de hoje, porque quem está há mais tempo na estrada diz que já foi muito diferente no passado), a pessoa que traduz é, na maioria esmagadora das vezes, frila — a versão carinhosa e amorosamente abrasileirada de freelancer, a pessoa autônoma que lida diretamente com vários clientes e gerencia a própria carteira de trabalhos como se fosse chefe dela mesma. E digo mais: a pessoa que traduz aqui no Brasil nos dias de hoje não só é frila como também é frila que trabalha em casa.



E assim, ser frila e trabalhar em casa é a epítome da faca de dois (le)gumes (há boatos de que usar essa expressão sem fazer a piadinha dá sete anos de azar). Na lista de coisas positivas, estão poder passar o dia de pijama, ter o privilégio de trabalhar com seu bichinho de estimação debaixo dos pés ou deitado no colo (qualquer semelhança com a minha realidade é mera coincidência), poder jogar um pouco de videogame depois do almoço e fazer seu próprio horário. Na lista das desgraças, está o fato de que você é seu próprio chefe/departamento do financeiro/departamento de marketing e afins (e gerenciar cronogramas, abrir empresa, emitir notas, divulgar seu trabalho por aí e etecetera [dá um baita trabalho), não tem benefício nenhum (faça o possível para pagar um plano de saúde, contribuir com o INSS ou pagar um plano de aposentadoria privado), trabalhar e viver no mesmo espaço às vezes dá um siricutico na nossa cabeça e, se por algum acaso os trabalhos rarearem em um determinado mês, o dinheirinho não vai continuar caindo na sua conta bancária como acontece com quem trabalha em regime de CLT.


Eu poderia escrever um artigo inteiro sobre trabalhar de casa, mas já tem muita coisa legal publicada por aí e a grande verdade é que, de forma bem objetiva, há vantagens e desvantagens em todos os regimes de trabalho, e você só vai descobrir qual ou quais deles funcionam para você experimentando por algum tempo (de preferência um bom tempo, pelo menos um ano).


(Alternativamente: em tempos de pandemia mundial todo mundo está trabalhando de casa, então talvez esse tópico seja um pouco inútil se você está vivendo 2020 ao vivo. Mas se você está lendo isso do futuro, espero que meus comentários sirvam de alguma coisa. E fico feliz porque você estar lendo isso do futuro provavelmente significa que ainda há livros no mundo — ou que existe mundo, para começo de conversa —, e que ninguém conseguiu inventar um bom Peixe Babel. E antes que essa divagação parta para outras possibilidades de futuro malucas, vamos para a última parte deste artigo.)


<----------- Matéria anterior Próxima matéria -------->



Tags: #cincomotivostraducao #janabianchi #traducao #historico #google #pesquisa #expressoesidiomaticas #dicionariobilingue #freelancer #trabalho #homeoffice #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.