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O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.

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A jovem Carrie White é uma menina retraída, muito por conta de sua mãe ultrarreligiosa. Quando acontecimentos estranhos começam a acontecer, sua vida vira de pernas para o ar. Uma obra clássica do mestre do terror.




Sinopse: Carrie é uma adolescente tímida e solitária. Aos 16 anos, é completamente dominada pela mãe, uma fanática religiosa que reprime todas as vontades e descobertas normais aos jovens de sua idade. Para Carrie, tudo é pecado. Viver é enfrentar todo dia o terrível peso da culpa. Para os colegas de escola, e até para os professores, Carrie é uma garota estranha, incapaz de conviver com os outros. Cada vez mais isolada, ela sofre com o sarcasmo e o deboche dos colegas. No entanto, há um segredo por trás de sua aparência frágil: Carrie tem poderes sobrenaturais, é capaz de mover objetos com a mente. No dia de sua formatura, Carrie é surpreendida pelo convite de Tommy para a festa - algo que lhe dá a chance de se enxergar de outra forma pela primeira vez. O ato de crueldade que acontece naquele salão, porém, dá início a uma reviravolta cheia de terror e destruição. Chegou a hora do acerto de contas. Carrie, a estranha é um dos maiores clássicos de terror da literatura contemporânea e um dos livros mais aclamados de Stephen King.



Quantos de nós já sofreram bullying? Quantos de nós já praticaram bullying? É um tema absolutamente corriqueiro em nossas escolas. Aqueles que sofrem bullying, seja fisicamente, seja psicologicamente, desejam se vingar de seus agressores. O que, no início, começa como uma brincadeira, acaba se tornando um jogo de agressor e vítima onde o agressor se sente superior à sua vítima. Mesmo que essa superioridade venha de um ato de violência. Às vezes essa necessidade é proveniente de uma vida medíocre e que necessita de um ponto alto. Outras vezes é para ter uma desforra por abusos cometidos dentro de sua própria casa.


Carrie foi o primeiro romance de Stephen King a ser publicado por uma editora. E que começo para o mestre do horror! Uma obra que parece não envelhecer com o passar do tempo. Não à toa já tiveram três adaptações para o cinema. Das 3 só vi duas, sendo que a versão de 2001 foi a que eu mais gostei. A de 2013 ainda está na minha lista de o que ser visto nas férias. Por ser o primeiro romance, o livro apresenta características muito diferentes de outras histórias de King. Não tem aquele terror visceral, ou os elementos gore ou os vilões repulsivos. Aliás, King escreve no prefácio que escrever sobre adolescentes é assustador. Imagino como o high school americano (equivalente ao nosso ensino médio) possa ser assustador. Vários filmes fazem referência a essa como uma fase complicada na vida do jovem norte-americano. Essas referências ora geram filmes de terror, suspenses ou comédias.


Talvez o que faça Carrie ser tão icônico é o fato de tratar de pessoas comuns. Se tirarmos os poderes paranormais de Carrie White, todo o resto poderia ser encaixado em qualquer escola e em qualquer parte do mundo. É em Carrie que vemos a habilidade de King em puxar os elementos positivos e negativos que fazem do ser humano, um ser falho. E King quebra com os estereótipos típicos das histórias de high school. Susan Snell, a boa menina, aquela que ajuda, a responsável, também integra o grupo de agressoras de Carrie. Ela se arrepende posteriormente, mas suas ações são apenas para limpar a consciência. Seu namorado seria o típico jogador de football, forte, musculoso e mulherengo. Só que King o transforma justamente no oposto: um cara bacana e responsável que acaba compreendendo a situação vivida por Carrie.




A história é construído em estilo epistolar. Já havia comentado isso quando resenhei Drácula. Trata-se de uma história contada a partir de cartas, relatórios e notas de diário que nos ajudam a criar o último mês vivido por Carrie. King tenta criar uma atmosfera investigativa ao criar uma comissão para buscar os detalhes dos poderes emanados por Carrie. Até insinua a existência de outras pessoas como ela. Não sei se King volta no tema ou até se podemos considerar Danny Torrance de O Iluminado outras pessoa como Carrie. Faltam elementos para construir uma ligação entre as duas histórias, se é que existe uma.


A construção da mãe de Carrie mostra o talento que King tem ao apresentar indivíduos fundamentalistas lunáticos (Revival, o novo romance de King toca justamente nisso). Margaret é o extremo do fundamentalismo: muito recatada, disciplinadora. É o protótipo da solteirona sulista que frequenta a igreja aos domingos. Ao construir um lar repressor, King mostra que Carrie não tem só um ambiente agressivo na escola, como também em casa. E, principalmente, que todo ser humano tem um ponto de ruptura. Quando Carrie não tinha esperanças de que sua vida melhoraria, ela aceitava seu bullying. A esperança de algo melhor e de ver essa esperança cair por terra foi o ponto de ruptura. Ao não ter suporte da própria mãe que a considerava um demônio, Carrie se vê abandonada. Seu único consolo eram seus poderes telecinéticos. E aí King mostra sua genialidade: Carrie de vítima passa a agressora. Usa seus poderes para demonstrar uma superioridade e poder se vingar por tudo aquilo que sofreu. Porém, tudo isso provem de uma educação repressora e cuja mãe, muito religiosa, considerava sua filha a enviada do demônio.


Podemos destacar outros personagens como Chris Hargensen e Billy Nolan. Chris é a típica garota mimada e rica. King gosta de construir esses personagens fortes e emblemáticos. As cenas de sexo entre Chris e Billy servem para mostrar o tipo de mulher agressiva e manipuladora que ela é. É o estereótipo da vixen, da ninfa que atrai os homens com seus atributos. Para provar o seu poder dentro daquele pequeno universo que é o high school, ela precisa pisar nas mais fracas. É como se fosse a demonstração de uma cadeira alimentar em que ela formava o topo e todas abaixo dela buscassem tomar o seu lugar.


Carrie é um romance fantástico. Completamente atemporal. Como primeiro trabalho de um autor prolífico como Stephen King é a demonstração máxima de para o que ele veio. Mas, ao colocarmos frente a outras obras, vocês verão várias diferenças na escrita e na apresentação dos personagens. Mesmo assim, vale muito a pena a leitura.




Ficha Técnica:


Nome: Carrie, a Estranha

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Gênero: Terror

Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

Número de Páginas: 200

Ano de Publicação: 2013


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Updated: Mar 29, 2019

Bobby Newman testa um novo tipo de software que permitiria quebrar até mesmo firewalls poderosos de grandes corporações. Mas, algo dá errado e ele quase morre. Só que aparece uma estranha presença que salva Bobby Newman de sua inevitável morte. Quem será?



Sinopse: Algo estranho acontece no ciberespaço.  Sete anos após os eventos narrados em Neuromancer, a matrix se estende sobre a Terra, envolvendo pessoas, empresas e informações. Sem qualquer controle, inúmeras Inteligências Artificiais se proliferam e se tornam sencientes, transformando-se em deuses vodus. Eles interagem com a humanidade e ameaçam a segurança de indivíduos e de grandes corporações. Nesse cenário frenético e superconectado, uma guerra está prestes a começar. Count Zero é o segundo volume da Trilogia do Sprawl.


Admito que tenho problemas com William Gibson. A minha resenha sobre Neuromancer gerou muita polêmica entre meus colegas que argumentaram que eu não entendia a importância de sua contribuição. Entendo perfeitamente este ponto. Acho que o Gibson foi importante ao estabelecer um novo tipo de histórias baseadas em um futuro não tão distante. Suas histórias sempre possuem um teor de crítica social. Mas, não podemos confundir inovação com uma história mediana.


Em Reconhecimento de Padrões já foi possível perceber uma evolução na maneira de conceber os personagens. Afinal, de nada adianta eu ter um mundo ricamente formulado se os meus personagens não são capazes de entregar uma boa história. Mas, Reconhecimento de Padrões tem vários anos de diferença em relação a Neuromancer.


Count Zero é o segundo volume da Trilogia Sprawl. Neste volume, Gibson expande um pouco mais o mundo concebido em Neuromancer. Nos apresenta novos personagens enquanto faz referências a alguns antigos. Achei um ponto muito positivo neste livro. O mundo cresce bastante ao mesmo tempo em que vemos personagens conhecidos como o Finlandês. Os conflitos entre corporações são ampliados ao aparecer um sucessor pelo vácuo deixado pela Tessier-Ashpool.


Mais uma vez são as personagens femininas quem dão as rédeas da história. Marly é responsável pelos momentos mais interessantes do livro. Sua investigação sobre Virek e a sua ida até o antigo satélite da Tessier são os momentos que empolgam na história. Já a parte de Bobby me incomoda um pouco. Entendo que ele é o protagonista e seus capítulos englobam boa parte da mitologia por trás do enredo no livro. Vou discutir essa mescla de espiritualidade e tecnologia mais abaixo. O que me incomoda novamente é a passividade do personagem diante da história. Mesmo protagonistas fracos em outras histórias, eles acabam fazendo a história seguir ao se deparar com um obstáculo. Geralmente, alguma coisa acontece: ou o protagonista atravessa o obstáculo ou ele cai ou desiste. Em Count Zero, Bobby Newman não faz nada dessas coisas. A história é que parece empurrá-lo adiante de alguma forma; ou seja, não é personagem que faz a história seguir, mas a história que faz seguir o personagem. É difícil explicar adequadamente. Vamos dizer que o personagem não toma nenhuma decisão, não realiza nenhuma escolha durante a história. Mesmo quando ele se vê diante de uma decisão difícil que afeta todo o seu grupo, ele não diz sim ou não, mas a força externa que o auxilia é quem diz sim.



Os biosofts são muito interessantes na história. E o autor escolhe a mitologia haitiana para mesclar com os conflitos entre corporações. As interações com Papa Legba são muito bacanas. Talvez isto tenha levantado um pouco mais a minha análise da história. E o fato de Marly ter me lembrado muito outro personagem do Gibson: Cayce Pollard de Reconhecimento de Padrões que é a minha favorita de suas histórias (Molly é uma personagem muito interessante, mas Cayce foi melhor construída). O autor tem alguns posicionamentos sobre espiritualidade que vale a pena ser observados. Prefiro deixar no ar para que os leitores possam apreciar melhor.


O tema comum em Neuromancer e Count Zero é a crítica ao individualismo. Neste mundo corporativo, as pessoas vivem em seus cômodos afastados umas das outras. Habitam cubículos, acessam seus chips para entrar na rede e se comunicam pouco umas com as outras. É um mundo decadente em que cada indivíduo desconfia do outro. Por desconfiar, não quer estabelecer relações com os outros. No fim da história, apenas a união entre os diversos grupos atuantes é capaz de derrotar os antagonistas da história. Um momento onde cada um empresta sua habilidade para formar um grupo coeso. Tudo em prol de um objetivo comum. Em Count Zero, Gibson trabalha com o individualismo, mas diferente do primeiro livro, ele mostra como é importante a união das pessoas.


Enfim, recomendo a leitura. Count Zero tem uma pegada diferente de Neuromancer. As benditas referências pop continuam presentes, mas incomodam menos do que no primeiro livro. A gente sente que elas fazem parte integrante do mundo em questão, e não são apenas flavor. Ou seja, não são apenas a cerejinha por cima do bolo. Existe um objetivo para a sua presença ali; algo importante para o andamento da história. Count Zero tem um bom clima, personagens interessantes (esqueçam Bobby Newman, foquem-se nos outros personagens) e dá uma boa continuidade na história.




Ficha Técnica:


Nome: Count Zero

Autor: William Gibson

Série: Trilogia Sprawl vol. 2

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Carlos Ângelo

Número de Páginas: 312

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Outros volumes da série:

Neuromancer (vol. 1)

Mona Lisa Overdrive (vol. 3)


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Updated: Jun 6, 2019

Hari Seldon acredita que o Império Galáctico vai ficar em ruínas daqui a algumas centenas de anos. Ele é o mais importante psico-historiador do Império. E ele tem um plano. Mas será que seus planos realmente surtirão efeito?

Sinopse:


O Império Galático possui 12 mil anos. E possui pujança, grandeza e estabilidade. Ao menos em sua fachada. Mas ele está em pleno declínio, lento e gradual. E, no final, culminará com uma regressão violenta da sociedade e a conseqüente destruição do conhecimento. Preocupados com isso, um grupo de cientistas traça um plano pela preservação do conhecimento adquirido. Vencedor do prêmio Hugo, como a melhor série de FC de todos os tempos, este é o livro inicial da Trilogia da Fundação.


Fundação é um dos livros clássicos de ficção científica do século XX. É inegável o que a obra representa para o gênero literário. Asimov coloca no papel um conceito fantástico em que ele apresenta um universo construído ao longo de vários séculos. E ele faz isso com uma certeza e uma fluidez que acabamos por achar natural. Poucas vezes paramos para analisar (aqueles que acabam investindo na trama) que estamos nos referindo a um espaço de tempo de vários séculos.


Esse talvez seja o único ponto negativo nesta obra. O personagem principal é a Fundação. Não existe um protagonista que vai lutar contra as adversidades e derrotar o vilão. A própria história da Fundação é que está sendo discutida. Temos vários personagens que estarão no meio dos acontecimentos ou que agirão como nossos olhos. Hari Seldon e sua psico-historia, Salvor Hardin e sua capacidade de liderança e Hober Mallow com seus colegas mercadores. Todos vêm e vão. Não há tempo para nos apegarmos a eles porque estamos vendo de cima a Fundação. Para a Fundação estes personagens são apenas passageiros, grãos de areia em uma história que perpassa gerações. E eu digo que Fundação é um livro para poucos porque foge desses padrões narrativos. Eu adoro o livro. Para mim, entra fácil em qualquer lista de top10 do século XX.


A narrativa corre bem; chega a ser veloz em algumas partes. Quando nos damos conta do que está acontecendo, um evento Seldon acontece e somos atirados adiante. Isso contribui para a história não ficar maçante. Uma das minhas críticas ao Asimov é que ele gosta de explicar demais as coisas. Mas, isso é tema para outras análises já que nesse livro ele encontra a medida perfeita disso.

Pensar que a primeira trilogia da Fundação foi publicada em folhetins chega a ser absurdo. Uma obra desse naipe ser publicada tão lentamente deve ter deixado os leitores da época loucos de ansiedade. Aliás, a ansiedade por ver mais do que está acontecendo me fez devorar esse livro em menos de uma semana. E eu queria mais. O único alerta que posso fazer é que este livro é o melhor da trilogia. Os outros dois, apesar de espetaculares também, não são tão bons quanto o primeiro.


Ficha Técnica:


Nome: Fundação

Autor: Isaac Asimov

Série: Trilogia da Fundação vol. 1

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Fábio Fernandes

Número de Páginas: 240

Ano de Publicação: 2009


Outros volumes da série:

Fundação e Império (vol. 2)

Segunda Fundação (vol. 3)

Limites da Fundação (vol. 4)

Fundação e Terra (vol. 5)


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