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Vamos falar um pouco sobre o livro O Ódio que Você Semeia e discutir como o preconceito afeta o nosso cotidiano. Venham conhecer um pouco da história de Starr e Khalid.

Possivelmente eu não sou a melhor pessoa para discutir sobre esse tema. E vou explicar mais tarde o motivo. Mas, após a leitura do livro O Ódio que Você Semeia, da autora Angie Thomas, eu não poderia deixar de escrever alguma coisa sobre a experiência de leitura e o debate que aconteceu na minha escola. Isso porque toda a narrativa é muito pertinente com o período em que vivemos e o quanto temos visto semanalmente denúncias de abusos policiais, assédios morais, violências psicológicas ou físicas originadas do preconceito étnico. Incomum hoje é não haver um caso desses em uma semana. E isso é algo preocupante em nossa sociedade e o quanto a gente naturaliza determinadas falas.


Quando vemos casos de preconceito, ficamos estarrecidos porque não acreditamos que um país tão miscigenada como o nosso possa ter situações como essa. Infelizmente o preconceito pode se manifestar de inúmeras formas e tamanhos, seja com situações sutis até momentos de extrema violência. Um dos casos mais recentes disso foi de um segurança que acabou tendo o seu carro metralhado durante uma blitz do exército em Deodoro. A alegação é a de que o homem foi confundido com outro bandido que estava sendo perseguido na região. Outro caso foi a de um menino estrangulado por seguranças de um supermercado. O menino acompanhava a mãe e quando ele foi pedir ajuda por uma situação dentro do local, ele acabou sendo detido de forma agressiva pelos seguranças. Esses são apenas alguns casos dentre muitos que acontecem no Brasil.


Mas, o que isso tem a ver com o livro de Angie Thomas, já que ele se passa nos EUA? Tudo. Preconceito não tem nacionalidade, não tem CEP, não tem hora ou local. Isso eu aprendi ao conviver com a minha esposa, uma mulher negra, por lugares ditos "civilizados" e muitas vezes encarar situações constrangedoras. Me sinto mal em alguns lugares pela minha esposa que precisa vivenciar isso. Na narrativa de Angie Thomas, somos colocados ao lado de Starr, uma jovem que mora em um bairro pobre e violento, cujos pais a colocaram em uma escola voltada para a classe média e afastado do seu lugar de origem de forma a dar uma oportunidade melhor para sua filha. Starr acompanha sua amiga Kenya a uma festa em seu bairro onde Kenya reclama do fato de sua amiga só se envolver com amigos e amigas brancos. Mesmo negando, Starr reconhece que existe esse problema interno que ela ainda não resolveu consigo mesmo. Durante a festa, a protagonista reencontra seu amigo de infância, Khalid, que ela tem uma quedinha (mas, não admite). Após uma conversa no qual os dois retomam momentos de amizade perdidos, ocorre uma confusão com briga e tiroteio na festa, obrigando os amigos a saírem do local e voltarem para casa. No meio do caminho, eles são abordados por uma blitz policial. Logo de cara percebemos o quanto o policial realiza uma abordagem beligerante e não dá oportunidade para o rapaz explicar o que estava acontecendo de forma clara. Em um determinado momento, o policial vai checar os documentos do rapaz, e ele retorna ao carro para ficar ao lado de sua amiga. Quando Khalid vai abrir a porta, o policial entende como uma ação ameaçadora e dá várias tiros nas costas do rapaz. Starr fica chocada e sai para tentar ajudar seu amigo e o coloca no colo. O policial também entende a atitude de Starr como ameaçadora, e aponta a arma para o rosto da personagem. A história gira em torno das consequências disso.

É totalmente possível compreender a estressante vida vivida por policiais. Eu tenho um amigo que é da Polícia Militar, um cara absolutamente pacífico e inteligente. Mas, faço ideia da violenta rotina diária pela qual ele passa. Vendo tantas coisas diariamente, a gente acaba formando mecanismos de autodefesa. Passamos a avaliar com outros olhos determinadas atitudes das pessoas: movimentos das mãos, gestos, tiques. Tudo pode levar a um confronto a qualquer momento e o policial precisa estar preparado para avaliar a situação e tomar a atitude correta. Mas, o problema é quando esse olhar observador se mescla a pensamentos e mal entendidos vindos de posições do mesmo. Estou aqui falando de policiais, mas isso pode ser aplicado a qualquer pessoa. É difícil julgar uma reação frente a um momento de tensão. Porém, por mais que a gente tente contemporizar, a ação do policial na narrativa de Thomas foi exagerada. Não há qualquer justificativa.


E isso reforça a questão do preconceito. Quantos de nós já não ficamos com medo de andar à noite em uma rua vazia e, de repente, quando passa um homem negro vindo na direção contrária, automaticamente acreditamos se tratar de um bandido? É automático. E é errado. Como eu posso fazer essa presunção? Quais argumentos me levam a pensar nisso? Normalmente vai somente da forma como ele está vestido ou da cor de sua pele. E eu estou usando apenas o mais básico dos raciocínios. É possível expandi-lo para outras situações como seleção de emprego, atendimento em uma loja. A gente assume imediatamente que o homem (ou mulher) negro não tem dinheiro para comprar uma roupa mais cara. Essa forma sutil de pensar compõe todo um conjunto de pré-julgamentos que fazemos.


Eu acho legal como a Angie Thomas parte para situações sutis para demonstrar o quanto somos preconceituosos sem saber. Uma das principais maneiras que ela faz isso é na forma da personagem Hailey, a melhor amiga de Starr. Mesmo tendo vivido uma tragédia em sua vida, Hailey mantém a sua forma de pensar. Durante suas conversas, frequentemente ouvíamos um comentário torto ou fora de foco ou uma brincadeira sem graça que tinha um cunho étnico. Não estou dizendo que devemos ser politicamente corretos todos os momentos de nossa vida, mas o de sermos coerentes e termos bom senso com nossas atitudes. O que te sugere que você deve chamar um amigo negro seu de macaco? Somente sua cor? Por que ele não te chama de macaco? Só por você ser branco? Há um limite entre a brincadeira e a ofensa. E a pessoa pode não responder na hora, mas é algo que pode ficar guardado em seu íntimo. Como o que acontece com Maya, a amiga oriental de Starr. Ela simplesmente esperava alguém que a defendesse da brincadeira de Hailey, mas isso não aconteceu. Foi algo que ela acabou guardando e internalizando para si.


Muito cuidado também com aquele discurso de politicamente correto o tempo todo. A questão não é se é ou não politicamente correto, mas se é ofensivo. Estamos agora na moda de criticar o politicamente correto e imaginar que devemos soltar tudo o que temos represado. Cuidado! É esse tipo de atitude que leva a tragédias.

Outro ponto muito bom discutido por Angie é o quanto Starr tem vergonha de si mesma. Chegou a tal ponto que ela criou duas personas: uma que é aquela que mora em Garden Heights, seu bairro de origem; e outra que estuda na Williamson. Até sua forma de falar e de se expressar muda. É o preconceito de nós mesmos que algumas pessoas possuem, mas tem dificuldade em assumir. Starr sequer mistura seus amigos do bairro com os da escola. Na mente dela, havia o medo de que seu status na escola fosse afetado se as pessoas descobrissem quem ela realmente era. É de um nível de complexidade alto. Durante a narrativa, a protagonista vai precisar mudar sua impressão sobre si mesma e aceitar quem ela é. Tem um momento da narrativa onde ela nega conhecer uma certa pessoa que bate aquela dor no coração.


Enfim, O Ódio que Você Semeia é repleto de boas discussões que são muito pertinentes nos dias de hoje. Nos faz perceber o quanto discutir sobre negritude e preconceito são assuntos mais complicados do que parecem em um primeiro momento. E, mais do que isso, nos faz refletir sobre as nossas ações nos grupos sociais que participamos. Fica aqui o meu convite a todos para darem uma oportunidade para essa obra que é deliciosa de ler e polêmica em algumas de suas afirmações. Mas, certamente vai fazer você pensar.


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Esta é uma história de mitos e lendas em um mundo antigo. Mas, vista de um ponto de vista diferente do que você está acostumado. Nada de Hércules, ou Aquiles ou Odisseu. Esta é a história de Circe, uma bruxa, uma feiticeira, uma mulher de poder.



Sinopse:


Na casa do grande Hélio, divindade do Sol e o mais poderoso da raça dos titãs, nasce uma menina. Circe é uma garotinha estranha: não parece ter herdado uma fração sequer do enorme poder de seu pai, muito menos da beleza estonteante de sua mãe, a ninfa Perseis.Deslocada entre deuses e seus pares, os titãs, Circe procura companhia no mundo dos homens, onde enfim descobre possuir o poder da feitiçaria, sendo capaz de transformar seus rivais em monstros e de aterrorizar os próprios deuses.Sentindo-se ameaçado, Zeus decide bani-la a uma ilha deserta, onde Circe aprimora suas habilidades de bruxa, domando perigosas feras e cruzando caminho com as mais famosas figuras de toda a mitologia grega: o engenhoso Dédalo e Ícaro, seu filho imprudente, a sanguinária Medeia, o terrível Minotauro e, é claro, Odisseu.E os perigos são muitos para uma mulher condenada a viver sozinha em uma ilha isolada. Sem se dar conta, Circe acaba despertando a ira tanto dos homens quanto dos deuses. Para proteger o que mais ama, Circe deverá usar toda a sua força e decidir, de uma vez por todas, se pertence ao reino dos deuses ou ao dos mortais que ela aprendeu a amar.Personagens vívidos e extremamente cativantes, aliados a uma linguagem fascinante e um suspense de tirar o fôlego, fazem de Circe um triunfo da ficção, um épico repleto de dramas familiares, intrigas palacianas, amor e perda. Acima de tudo, é uma celebração da força indomável de uma mulher em meio a um mundo comandado pelos homens.





Uma mulher tomando o poder para si


Tornou-se comum falarmos sobre o empoderamento feminino nos últimos tempos. É uma palavra que ganhou notoriedade ao tratarmos do papel da mulher na sociedade. Discutimos o quanto a mulher conseguiu ocupar espaços desde o último século e o quanto ainda falta ser conquistado. É nesse sentido que entra o papel da ficção. Ao fazer a releitura de alguns personagens ficcionais, ressignificamos suas histórias e as apresentamos às novas gerações. Personagens como Catarina, a Grande, Joana D'Arc, Helena de Tróia. Todas ganharam novas versões pelas mãos de autores e autoras. Madeline Miller, uma intensa pesquisadora sobre as narrativas da Ilíada e da Odisseia, escreve mais uma narrativa sensacional depois do sucesso de A Canção de Aquiles. Em Circe, ela nos coloca diante de uma personagem cativante que mesmo presa a uma ilha consegue fazer tremer o mundo em que ela habita.


Esta é uma narrativa que se centra na figura de Circe, uma mulher nascida de um deus (Hélio) e de sua mãe Perseis. Mesmo sendo um titã, o nascimento de Circe já significa uma certa perda de poder e ela habita uma posição inferior em relação aos deuses maiores. Com seu caráter submisso, porém curioso, Circe acaba não se destacando em sua casa. Sua falta de poder também acaba contribuindo para o ostracismo de parentes e pessoas próximas. Mesmo sua mãe não lhe dá valor e a considera feia e inútil. Toda a criação da personagem é marcado pela sua diminuição e quando ela e seus irmãos se rebelam, Circe é quem acaba ficando com o lado pior da moeda. Após um acontecimento trágico que envolve a criação de um monstro lendário, Circe é exilada na ilha de Eana de onde nunca mais pode sair. Nesta ilha ela entra em contato com inúmeros personagens do mundo antigo como Dédalo, Ícaro, o minotauro, Odisseu, Penélope. Esta mulher vai buscar o seu lugar no mundo, ao mesmo tempo em que valoriza a si mesma.


"Eu não serei como um pássaro criado em uma gaiola, pensei, entorpecido demais para voar mesmo quando a porta está aberta. Entrei naquela floresta e minha vida começou."

Madeline Miller nos dá uma aula de desenvolvimento de personagens. Sério. Dos livros que eu li em 2020 (e foram às dúzias até o momento), Circe é aquele que melhor consegue demonstrar como é possível construir e evoluir um personagem. Mesmo se tratando de alguém explorado em diversas narrativas por milênios, Miller dá sua própria leitura e se apodera da personagem de uma maneira única. Ela não é uma personagem perfeita; muito pelo contrário. Alguns de seus comportamentos irritam os leitores e isso é completamente normal. Nossa ninfa é imperfeita... ela precisa aprender lições duras que somente a experiência vai lhe fornecer. Como ela comenta em uma determinada cena, sua vida antes de ir para Eana foi em uma gaiola dourada onde não conseguiu perceber o mundo pelo que ele realmente era. A escrita é simples e tranquila, mas vai exigir do leitor um pouco de calma e paciência. Não é aquele livro que você vai devorar em poucas sentadas, sendo necessário absorver as mensagens colocadas pela autora.



"Por cem gerações, eu tinha caminhado o mundo sonolenta e entediada, ociosa e confortável. Não deixei marcas, não realizei feitos. Mesmo aqueles que tinham me amado um pouco não se importaram o bastante para ficar. Então aprendi que podia curvar o mundo à minha vontade, como um arco é curvado para uma seta. Eu teria praticado toda aquela labuta mil vezes para manter esse poder em minhas mãos. Eu pensei: é assim que Zeus se sentiu quando empunhou seu raio pela primeira vez."

Pela narrativa ser em primeira pessoa e do ponto de vista da Circe, se torna essencial nos envolvermos com os seus problemas. E eu me encantei com ela desde o primeiro momento. Me importei com seus problemas, seus dilemas. A narrativa é a responsável direta por sua evolução algo que nem sempre é tão transparente em algumas histórias. Até mesmo seus problemas se modificam ao longo da narrativa por causa das escolhas que ela faz. Em um primeiro momento, Circe quer apenas ser aceita. Ela quer ser valorizada e reconhecida por quem ela é. Depois de tanto ostracismo por parte de sua família, a personagem é ressentida com todos. Ela deseja apenas uma palavra ou postura de seu pai ou de seus irmãos. Em um segundo momento, Circe quer ser amada. Ela sai em busca do amor seja no ambiente divino, seja no mundo dos homens. Mas, suas decepções vão fazendo seu coração se tornar cada vez mais amargo e seco. No último terço da história, Circe busca, inconscientemente, se aceitar como pessoa. Algo que diante de tudo o que ela viveu é uma tarefa quase impossível e vai exigir dela todo um trabalho emocional. Quando isto acontecer, vamos ver o surgimento de uma verdadeira titã.


A autora explora bem as relações entre titãs e deuses olimpianos. Desde a rebelião de Zeus contra o seu pai, o titã Cronos, que as relações não são nem um pouco amistosas. Ao longo de todo o livro as relações de poder e dominação vão se espalhando. Progressivamente, os titãs perdem sua autoridade em um mundo onde seres como Atena e Apolo ganham cada vez mais espaço enquanto Nereu, Selene e Oceano ficam para trás. Então, as trocas e as maquinações se tornam essenciais. Por exemplo, a punição de Circe na ilha de Eana nada mais é do que um jogo de poder entre Hélio e Zeus. Mais para a frente teremos a importância de Odisseu nos planos de Atena para a manutenção de seu poder e reverência na Grécia antiga ante o aparecimento de uma possível nova nação em outra península. Ou o quanto a ida de Pasifae, irmã de Circe, é uma peça fundamental em um jogo de poder de longo prazo entre titãs e olimpianos.


Ao mesmo tempo, o mundo mortal funciona diferente para seres que não enxergam o tempo como um empecilho. A imortalidade e a efemeridade da vida humana é parte essencial da trama do livro. O contato de Circe com Prometeu faz com que a protagonista desenvolva outro tipo de relação com o mundo dos homens. Em diversos momentos do livro, Circe acaba se colocando em uma posição de vulnerabilidade simplesmente porque ela se importa. Ao mesmo tempo, durante quase todo o livro ela é enxergada pelos homens como uma deusa menor ou sequer é lembrada. Apenas quando se torna mais ameaçadora é que ela passa a ser reconhecida. A forma até obscena como Aietes e Pasifae brincam com as vidas humanas incomoda nossa protagonista. A ponto de ela retirar importantes lições dessas interações. Seja com o controle violento de Aietes ou com a indiferença cruel da venenosa Pasifae. Isso ou até a paciência quase ilimitada de Atena de esperar por aquilo que ela deseja.


"Os poetas gostam de tais simetrias: a bruxa Circe, igualmente habilidosa em tecer feitiços e fios, em fiar encantamentos e tecidos. Quem sou eu para estragar um hexâmetro tão natural? Mas qualquer maravilha em meus tecidos vem daquele tear e do mortal que o fez."


Os personagens são o que tornam essa narrativa rica em narrativa e em ambientação. Até agora comentei mais sobre Circe, mas personagens como Dédalo e Odisseu possuem muito espaço na história. Miller não tem pressa alguma em desenrolar suas tramas, como um novelo de lã sendo usado em um imenso labirinto minotáurico. Tudo o que a autora insere na história tem uma conclusão em algum momento. As relações entre personagens são importantes para a trama, logo é importante destacar o amor de Dédalo por seu filho ou a inteligência de Odisseu e o quanto ele sente falta de Ítaca. Mesmo assim, a autora não idealiza seus personagens. Por exemplo, Odisseu é um homem destemperado. Em alguns momentos, ele demonstra sua extrema violência ao punir um de seus homens ou ao lidar com Circe. Mesmo os deuses que aparecem apenas esparsamente na história tem características bem delineadas e uma personalidade visível. Hélio é o poderoso e cruel deus na corte dos titãs; Atena é uma megera traiçoeira, porém sábia e honrada.


"A todo momento os mortais morriam, por naufrágio e pela espada, por feras selvagens e homens selvagens, por doença, abandono e idade. Era o destino deles, como Prometeu me contara; a história que todos eles compartilhavam. Não importava quais maravilhas realizassem, no fim tornavam-se pó e fumaça. Enquanto isso, cada deus mesquinho e inútil continuaria sugando o ar iluminado até que as estrelas se escurecessem."

Aguardamos a evolução de Circe ao longo de toda a história. Ela começa como uma mulher apagada em uma corte que não a valoriza. Por toda a narrativa ela vai aprendendo lições e se desenvolvendo como bruxa e como mulher. Tem um momento mais para o final da história em que ela decide tomar o destino em suas mãos. Esse é um daqueles momentos em que a gente grita "é isso aí!!!". Somente bons livros conseguem tirar esse tipo de reação dos leitores. E se não fosse toda a paciente construção de uma trajetória não teríamos chegado até aquele importante momento.


Sem dúvida alguma, Circe vai entrar no hall das minhas melhores leituras do ano. E eu recomendo fortemente para autores que desejam saber como construir adequadamente seus personagens. Como gerar empatia da parte dos leitores. É assim que se faz. E em um tipo de voz narrativa que nem me agrada tanto mas que, quando bem feita, produz esse tipo de resultado. Não à toa o livro ganhou tantos prêmios e recebeu tantos elogio da parte da crítica especializada. Assim que eu fechei o livro já queria ler mais coisas escritas pela autora. E Circe também já entrou para o hall da fama daqueles personagens inesquecíveis.











Ficha Técnica:


Nome: Circe

Autora: Madeline Miller

Editora: Planeta Minotauro

Tradutora: Isadora Próspero

Número de Páginas: 369

Ano de Publicação: 2019


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Nesta segunda parte, é hora de descobrir que saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


O domínio da língua de chegada é mais importante que o domínio da língua de partida. OU: saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


Já comecei assim mesmo, tirando dois termos técnicos da cartola, porque a vida de quem traduz é um pouco assim, com coisas novas caindo no seu colo toda hora. Mas vou explicar: língua de chegada é a língua em que o seu público vai consumir o material — no meu caso, o português brasileiro. E a língua de partida, por sua vez, é a língua original do material — no meu caso, o inglês e o espanhol, mas por aqui temos muita coisa vindo do japonês (estou olhando para vocês, mangás e animes), do coreano (oi, K-dramas), do francês (saudades, histórias em quadrinhos do Asterix!), do alemão (imagina ter que entender a trama louca de Dark em uma língua treta como alemão?) e por aí vai.


Ou seja: estou dizendo que é mais importante você ter um ótimo português do que um ótimo inglês. Afinal, pensa comigo: se o mais importante na tradução fosse saber muito bem a língua de partida, essa profissão nem precisaria existir. Seria só jogar tudo em um tradutor da internet — certamente a entidade mais conhecedora de regras de ortografia, gramática e vocabulário de todos as línguas, idiomas e dialetos do mundo. Ou então pegar alguma pessoa falante nativa de inglês e ensinar um pouquinho de português para ela antes de colocá-la para traduzir.


Bom, se você já jogou algum texto no Google Translate e tentou ler (quem nunca?) ou se já teve uma conversa com alguém que está começando a aprender o português do Brasil, sabe que essas duas alternativas são inviáveis. E são inviáveis pela mesma razão: nenhuma língua é um conjunto de aplicações objetivas de regras de ortografia, gramática e vocabulário. Vamos dizer que regras de ortografia, gramática e vocabulário são os ingredientes principais, e a naturalidade da aplicação delas é o tômperro — que pode ir do simples sal a uma festa de especiarias. Como alguém que ama comer, acho importantíssimo lembrar que comer uma comida insossa pode até nutrir, mas não satisfaz nem um pouquinho.


No caso da tradução literária (é importante destacar aqui que muita coisa muda no caso da tradução técnica, e tudo o que eu falar aqui é baseado na minha experiência com a tradução literária), um bom texto é um texto natural. Ou, em outras palavras, um texto reproduzindo o jeito que a gente diz (que está destacado assim porque é o nome de um ótimo livro sobre tradução, escrito pela professora Stella E. O. Tagnin). E quem melhor para conhecer o jeito que a gente diz do que… a gente? Nenhum robô fala e escreve como uma pessoa que mora no Brasil — bom, para começo de conversa nenhum robô fala e escreve como uma pessoa, o que dirá como uma pessoa nascida com polêmicas linguísticas do calibre de biscoito vs. bolacha e canjica vs. mungunzá. Nenhuma pessoa de outros país (ou não alfabetizada em português) que acabou de aprender o básico da nossa língua vai falar e escrever como uma pessoa que mora no Brasil. E mais importante: em nenhum desses dois casos, a entidade tradutora vai ter o conjunto de referências locais.


Porque sim, quem traduz também é responsável por fazer a transição de referências culturais de uma língua para a outra. Em alguns casos (e a escolha vai depender do tipo do material, do público, de escolhas editoriais e por aí vai), essa transição pode ser mais sutil. Em outras, mais descarada. Já que eu decidi jogar uns termos aqui para você procurar na internet depois, digo logo que esse processo de transição de referências de um material original para um material traduzido é chamado de localização.





Quem tem mais ou menos a minha idade deve se lembrar do episódio do Chaves em que a turma da vila vai curtir uma praia no Guarujá. A estranheza disso deve ter passado batida para a maior parte do público do programa, provavelmente formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990. Mas alguém que soubesse um pouco mais sobre a franquia saberia que o programa é mexicano… que sentido faz eles terem ido justo para o Guarujá? Pois então: no original, a turma do Chaves vai para Acapulco. A localização de Acapulco para Guarujá foi feita (muito astutamente, na minha opinião) por uma equipe procurando aproximar a realidade do Chaves da realidade do público. E para isso, a equipe que traduziu esse conteúdo precisava entender um pouco sobre Acapulco — um balneário mexicano muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa — e muito, mas muito mais sobre o Brasil. Que lugar um público formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990 identificaria como um balneário brasileiro muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa? A menção de qual lugar no Brasil faria o público brasileiro passar por uma experiência similar à do público mexicano? Bingo. Guarujá foi uma ótima solução — e só uma das alternativas.


Para dar um exemplo de um serviço meu: traduzi um quadrinho de filosofia em que, em determinado momento, propunha-se que a pessoa pensasse em conjuntos de elementos, e um dos exemplos dados era o “conjunto de presidentes da Nicarágua”. Determinei no começo desse projeto que eu ia tentar aproximar ao máximo o texto do público — afinal, filosofia já é um tópico relativamente árido —, e por isso resolvi propor trocar “presidentes da Nicarágua” por “jogadores do Corinthians” (não só porque futebol é um tópico popular, mas também porque eu queria fazer uma piada super secreta ao mencionar, em um livro de filosofia, um time que já teve um jogador que chamava Sócrates).


Podia ter deixado como estava? Sim. Podia ter trocado para “governadores do estado da Bahia”? Sim também. Poderia ter escolhido qualquer outra coisa? Não exatamente, porque todo trabalho tem limitações. Há sempre linhas, de diversos tipos, que não podemos cruzar. O que me leva ao próximo ponto.


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